UMA MULHER APRISIONADA PELA LEI

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Jesus ensinou que veio ao mundo para “libertar os cativos” (Lucas capítulo 4, versículos 17 a 19). Isto quer dizer que o cristianismo precisa ser uma religião libertadora do ser humano se quiser seguir o caminho que Jesus traçou.  

Entendo que quando a prática cristã foge desse princípio, as consequências são sempre ruins: sofrimento desnecessário, decepção, afastamento da fé, etc. E ninguém tem direito de impor isso sobre as demais pessoas.

O que é uma “lei de cerca”

Essa é uma das
coisas que mais contribui para a “escravidão” dos(as) cristãos(ãs) – provavelmente você já encontrou esse tipo de
coisa por aí, mas não percebeu. 

Para explicar do que se trata, vou usar como exemplo a questão da “guarda do sábado”, um dos Dez Mandamentos. A Lei tornou proibido trabalhar nesse dia, com o objetivo de evitar que o ser humano virasse um “animal de carga”. 

Ora, uma das atividades relacionadas com o trabalho naquela época era caminhar. Por isso havia proibição de caminhar aos sábados. Mas essa proibição não podia ser absoluta, pois uma pessoa precisava caminhar dentro da própria casa ou para ir até a sinagoga. Foi então estabelecida uma distância máxima que a pessoa podia percorrer nesse dia de forma a não violar o mandamento. 

Mas como ninguém ficava medindo o quanto caminhava no sábado, havia preocupação quanto a descumprir a lei mesmo sem perceber. Os líderes religiosos criaram então uma “lei de cerca” estabelecendo um limite ainda menor, pois cumprindo esse limite inferior, o limite verdadeiro seria obrigatoriamente cumprido. Mas essa “lei de cerca” aumentou desnecessariamente a restrição sobre as vidas das pessoas no sábado. 

Assim as pessoas acabaram “prisioneiras” de leis sem qualquer sentido (havia até lei regulando sobre como pentear os cabelos no sábado). 

As “leis de cerca” tornaram uma coisa boa – um dia para descanso – numa fonte de tensão. E o mesmo “aprisionamento” das pessoas aconteceu em vários outros aspectos da vida comum. O legalismo passou a imperar.

E Jesus insurgiu-se contra esse tipo de coisa, tendo diversas discussões com os fariseus para questionar essa prática – há vários relatos nos Evangelhos sobre esse tipo de embate.

“Leis de cerca” hoje

Os cristãos continuam rodeados de “leis de cerca” que nem percebem. Vou dar um exemplo: o tal princípio da “pureza emocional”. O problema que essa “lei” procura resolver é a da “pureza sexual” (sexo fora do casamento), para evitar a promiscuidade, hoje comum entre os jovens. 

O conceito de “pureza emocional” nasceu cerca de vinte e cinco anos atrás, nos Estados Unidos, e tem inspirado muitos livros, como “Dei adeus ao namoro” (“I kissed dating good bye”). 

A proposta é que os(as) jovens cristãos(ãs) não devem namorar e sim apenas cortejar-se, isto é conviver (sempre em grupo) mas sem estabelecer um relacionamento sentimental real. O(a) jovem deve esperar pela pessoa escolhida por Deus antes de desenvolver um sentimento amoroso mais profundo por alguém. 

O fato é que esse tipo de “lei de cerca” pode gerar consequências inesperadas e indesejáveis. Vejam o depoimento da escritora Elizabeth Ester, de quem gosto bastante. Ela se manteve “pura” emocionalmente até ter permissão de seus pais para aprofundar o sentimento amoroso por Matt, aquele que viria a ser seu marido. Suas palavras não tem sabor de revolta e sim de alerta:

Como, então, as garotas que são orientadas a apenas cortejar os rapazes, lidam com essa questão? Fechando os sentimentos. A má notícia é que ninguém pode fechar um tipo de sentimento apenas, sem fechar todos os demais. Eu imaginei que … estava preservando minha pureza emocional e guardando meu coração. Ao invés disso, eu acabei completamente anestesiada emocionalmenteQuando recebi aprovação para aprofundar meus sentimentos pelo Matt, minha cabeça estava uma bagunça“.

A prática saudável do namoro, que gerações de jovens têm usado para aprender a se relacionar com o sexo oposto, de repente deixou de ser recomendável e transformou-se numa fonte de sofrimento.

 

“Leis de cerca” aprisionam não somente porque impõem restrições absurdas sobre a vida das pessoas, mas principalmente porque mascaram a questão
real. As pessoas afetadas por elas ficam confusas, pois acabam “enfrentando” um
adversário imaginário. Por exemplo, a jovem se sente “impura” por abrigar no coração um amor absolutamente normal por um rapaz e luta contra esse sentimento. Sofre com isso. 

Posso dar vários outros exemplos de “leis” desse tipo que infelizmente acabaram por entrar para a prática de vida de muitas igrejas evangélicas. Aí vão alguns exemplos:

  • Dar mais do que 10% de dízimo para garantir que o valor mencionado no texto de Malaquias capítulo 2, versículo 10, foi mesmo “pago” a Deus.
  • Livrar-se de qualquer objeto (livro, item de decoração, adereço, etc) que mesmo remotamente pareça ter alguma relação com prática pagã para evitar o “contágio” espiritual.
  • Não se submeter ao “jugo desigual”, isto é não participar de relacionamento amoroso com alguém que não seja convertido(a). Se isso fosse correto, as inúmeras pessoas que se converteram com base no testemunho do parceiro(a) de vida – minha mulher é um exemplo vivo disso – seriam privadas dessa oportunidade.
  • Não permitir que as mulheres usem maquiagem, enfeites e outros objetos que possam apelar para a vaidade humana.    

O fato é que cada “lei de cerca” torna o mundo cristão mais regulamentado, fechado e pobre. Transforma as pessoas em “escravas” de regras absurdas. Bem diferente daquilo que Jesus disse que tinha vindo fazer. Triste, mas verdadeiro.

Com carinho

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AnônimoVinicius MouraCel Recent comment authors
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Anônimo
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Anônimo

Muito importante este post. Também venho colocar aqui meus questionamentos e até minhas duvidas que são sobre as vestes que pastores praticamente proíbem as mulheres de usarem como calças por exemplo, ou usar uma joia, ou fazer as unhas,, para todos os fatos isto também é pecado!! Será mesmo Vinicius?! O que você pode me ajudar sobre essas duvidas? Estou acompanhando seu blog a alguns dias e ''GRAÇAS A DEUS''' tenho lido todos os dias. Pois muitas coisas me eram obscuras , difíceis de ser entendidas como o estudo do apocalipse, me ajudou muito o post que você fez, Obrigada!… Read more »

Vinicius Moura
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Minha resposta vai sem acentuacao e pontuacao corretas pois estou viajando e sem acesso a um computador.

Nada do que voce citou pode ser considerado pecado. Apenas a vaidade excessiva, desmedida, poderia ser qualificada assim. Portanto, nao se preocupe com essas coisas e viva sua vida sem culpa. Basta lembrar que Jesus nunca se preocupou em impor esse tipo de regra para nenhuma mulher.

Cel
Visitante

Pois é, Vinícius… É triste mesmo!

A Bíblia nos orienta de que no mundo nós teríamos aflições. E como já não nos basta as aflições do "mundo", criamos as aflições do "céu". E vivamos assim!!!!

(Desculpe o trocadilho barato, mas o meu senso de ironia foi mais forte… kkkkk)

Vinicius Moura
Visitante

Infelizmente é isso mesmo. E o trocadilho reflete exatamente a realidade que as igrejas têm imposto aos seus fiéis. E vemos diariamente o estrago que isso causa.

Um abraço