QUANDO UM LÍDER CRISTÃO MUDA DE POSIÇÃO

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O que acontece quando um líder cristão, bastante respeitado, muda de posição a respeito das suas convicções teológicas? Qual é o impacto sobre a comunidade que lidera?

A revista Christianity Today noticiou, em 2013, que o Pastor Ulf Ekman, fundador de uma grande igreja evangélica na Suécia, com mais de 3.000 membros, deixou sua denominação. Ele se juntou à igreja Católica. E, junto com ele, foi a sua esposa. Veja o depoimento que ele deu naquela época:

“Cheguei à conclusão que a igreja que representei nos últimos 30 anos, apesar do sucesso e das muitas coisas boas que ocorreram nos seus vários campos missionários, é parte da crescente fragmentação do cristianismo“.

O pastor Ekman testemunhou ter passado por lenta transformação durante toda uma década. E isso ocorreu à medida em que foi conhecendo mais profundamente alguns católicos do movimento Renovação da Carismática. Assim, acabou por mudar seu entendimento. Concluiu não haver razão para a maioria das críticas que os evangélicos costumam fazer à Igreja Católica. Segundo ele, os protestantes precisariam conhecer melhor a fé católica.

Outro caso aconteceu cerca de 15 anos atrás. O líder maior de uma denominação evangélica, depois de fazer curso de mestrado no exterior, mudou de pensamento. Passou a aceitar a doutrina de predestinação para a salvação, que sua denominação não adotava. E mais ainda, deixou de aceitar mulheres pastoras, sendo que sua denominação tinha várias ministras ordenadas. E teve força politica para impor suas novas ideias à denominação que dirigia. 

E há muitos outros casos, como o líder religiosos evangélico que deixou de acreditar na onipotência de Deus. Ou outro que passou a adotar costumes e práticas de vida judaicas. 

A repercussão
Existe um enorme perigo quando a denominação evangélica é muito dependente da figura de um único líder. Uma liderança desse tipo certamente traz grandes vantagens. O crescimento da igreja fica facilitado e a liderança forte dá à comunidade um senso de direção. Sem contar que a tomada de decisões é mais rápida e eficiente, pois quase não há contestação.

O problema com esse modelo de liderança é que quando algo de ruim acontece com o líder, a vida espiritual da comunidade toda sofre muito. Vimos isso acontecer aqui no Brasil, em várias igrejas importantes. Também há vários exemplos nos Estados Unidos e em outros países. Um bom exemplo é o caso do pastor Sho, sul coreano, líder de uma das maiores igrejas do mundo, preso por sonegação de impostos.

Uma liderança muito forte acaba, de certa forma, atrelando o destino da denominação à sorte do seu líder. E como todos os seres humanos se enganam ou pecam, esse é um caminho extremamente arriscado. Isso acaba por gerar muito sofrimento para a comunidade.

Pense no caso que citei acima do líder da denominação evangélica que deixou de aceitar a ordenação de mulheres. E sua igreja já contava com várias pastoras ordenadas. Imagine a situação dessas pastoras que viram de repente seu ministério contestado. Passaram por sofrimento horrível e não posso crer que Deus apoie isso.

A mudança de convicção do líder coloca dúvidas na mente dos membros da sua comunidade. Alguns deles, por conta da sua confiança irrestrita no líder, vão aceitar as novas idéias, sem questionar muito. Mas, outros não vão querer mudar suas convicções, por não terem sido convencidos. 

Essa é uma situação em que só há perdedores – nada de bom é gerado por tudo isso. No caso do pastor Ekman, que relatei acima, ele teve que abandonar a igreja que tinha fundado, pois a maioria dos membros não aceitou suas novas posições. Mas, outros aceitaram. E a comunidade rachou. Acusações foram trocadas de parte a parte, amizades foram desfeitas, enfim, um desastre.
O líder pode mudar?
Isso tudo quer dizer que um líder religioso não pode mudar suas convicções? Não pode estudar um tema teológico em maior profundidade e chegar a conclusões diferentes? Ele não pode evoluir? É claro que sim. Eu mesmo já mudei algumas de minhas idéias teológicas. Mas, o grau de mudança tem limites. Não parece razoável que o líder mude radicalmente em questões absolutamente fundamentais.

Eu desconfio de mudanças muito grandes, como a do pastor Ekman e outras que citei acima. Elas não parecem razoáveis de acontecer na vida de pessoas espiritualmente amadurecidas.

Mudar a interpretação de uma passagem bíblica, pela evolução do próprio pensamento, é uma coisa, deixar toda a obra de uma vida para trás, dizendo que ela concorre para a fragmentação do cristianismo, é outra bem diferente. Ou passar a ver o processo de salvação de maneira totalmente distinta do que fazia antes, passando a aceitar a predestinação, por exemplo, também não parece razoável.

Mudanças tão grandes são, a meu ver, indicações de questões mais profundas na vida do líder religioso que vão muito além do aspecto teológico. Elas apontam para crises pessoais – de idade, de casamento, fruto de doença, etc. E questões desse tipo acabam por transbordar para o campo espiritual.

Agora, quando o líder muda de pensamento, ele precisa atentar bem para as consequências de suas atitudes sobre as pessoas que confiaram e acreditaram naquilo que ele ensinou antes. Não me parece, por exemplo, que o pastor Ekman tomou esse cuidado. Ele simplesmente saiu da sua denominação e seguiu outro caminho, sem se explicar muito ou perder tempo olhando para trás. O líder religiosos que passou a proibir a ordenação feminina não levou em conta o impacto dessa decisão sobre inúmeras mulheres já ordenadas.

Quem se dispõe a assumir um papel de liderança no meio cristão, seja ele qual for, assume responsabilidades com as pessoas que atinge com seu ministério. Eu tenho isso muito claro na minha mente, no que tange ao papel que exerço neste site. Preciso ter cuidado com aquilo que publico e com os conselhos que dou.

Os líderes religiosos precisam estar bem conscientes dessa responsabilidade. E ter em mente que Jesus advertiu seriamente aqueles que não entram no céu e concorrem, com suas atitudes, para que outras pessoas não venham a entrar também (ver Mateus capítulo 23, versículo 13). Há punição para pessoas que agem assim.  

Com carinho

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