SERÁ QUE QUANDO ALGUMA COISA RUIM ACONTECE, HAVIA UMA RAIZ DE PECADO?

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As pessoas nas igrejas costumam pensar que, quando a desgraça ou problemas sérios batem na porta de alguém, a razão desse sofrimento é a existência de alguma raiz de pecado na vida de quem sofre. Às vezes, essa acusação é até feita diretamente, mas, em outros casos, esse julgamento cruel fica sendo sussurrado pelos cantos. E essa situação aumenta ainda mais o sofrimento de quem passa um momento difícil na sua vida – não basta enfrentar o problema e/ou a tragédia em si, é preciso ainda lidar com essa situação absurda.

Um bom exemplo disso aconteceu na ocasião do atentado às Torres Gêmeas em Nova Iorque. Alguns evangelistas americanos falaram que Deus estava passando julgamento nos Estados Unidos porque o país tinha se desviado nos seus caminhos e muita gente aqui no Brasil concordou. Esse sofrimento todo teria sido causado pelo pecado e, portanto, uma justa punição de Deus. O que esses novos fariseus não explicaram é porque exatamente aquelas pessoas precisaram pagar pelo pecado de tantas outras – afinal, em meio aos mortos havia cristãos/ãs sinceros/as. Nunca vi uma resposta para esse tipo de questionamento.

É interessante perceber que também era assim que muitos judeus pensavam na época de Jesus. Para essas pessoas, o sofrimento sempre tinha origem nas ações pecaminosas da própria pessoa ou até mesmo de seus pais. Veja o que os discípulos de Jesus perguntaram e a resposta que receberam a respeito dessa questão (João 9:1-3):

Ao passar, Jesus viu um cego de nascença. Seus discípulos lhe perguntaram: “Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?” Disse Jesus: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele”.

As causas para esse tipo de julgamento absurdo
Quando coisas ruins acontecem, as pessoas querem entender e encontrar razões para o sofrimento que estão vendo. E costumam perguntar: Por que comigo? Por que agora? Por que está acontecendo dessa forma?

E atribuir tudo ao pecado é uma explicação simples, que parece lógica, mas ela não está certa. E basta ver o que Jesus disse nos versículos acima para comprovar isso. Há sim sofrimento fruto do pecado sim – por exemplo, os vícios causam problemas sérios. O adultério destrói famílias. E assim por diante. Mas nem todo sofrimento é fruto dos erros das pessoas e muitos outros fatores intervêm nesse processo. E foi isso que Jesus testemunhou para os discípulos.

Um bom exemplo de sofrimento não causado pelo pecado é Jó. O livro da Bíblia que conta a história desse homem relata como seu sofrimento se deveu à ação de Satanás. E os amigos de Jó tinham certeza que ele estava escondendo algum pecado, pois essa obrigatoriamente tinha que ser a explicação para seu sofrimento.

Mas o texto bíblico deixa claro que Jó não tinha pecado e ele se recusou a aceitar tal tipo de acusação. No final, as coisas se esclareceram, mas o sofrimento de Jó aumentou mais ainda com as acusações que enfrentou.

Portanto, quando você olhar para o sofrimento humano – seja seu, ou de outras pessoas – cuidado com o que faz. Resista à tentação de atribuir tudo ao pecado, pois isso pode ser uma grande injustiça. E procure se lembrar de 3 coisas:

Deus não responderá todas as perguntas dos seres humanos

Naquela ocasião, alguns dos que estavam presentes contaram a Jesus que Pilatos misturara o sangue de alguns galileus com os sacrifícios deles. Jesus respondeu: “Vocês pensam que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros, por terem sofrido dessa maneira? Eu lhes digo que não! Mas se não se arrependerem, todos vocês também perecerão. Ou vocês pensam que aqueles dezoito que morreram, quando caiu sobre eles a torre de Siloé, eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu lhes digo que não! Mas se não se arrependerem, todos vocês também perecerão”. Lucas 13:1-5

Nessa passagem, os discípulos procuraram Jesus para encontrar uma explicação para o sofrimento de algumas pessoas. Eles se referiam a alguns homens da Galileia que se revoltaram contra o domínio romano e foram trucidados por Pôncio Pilatos. Por que isso aconteceu? Será que se tratava de pecadores?

Os discípulos procuraram Jesus para encontrar uma explicação para o sofrimento de algumas pessoas. Eles se referiam a alguns homens da Galileia que se revoltaram contra o domínio romano e foram trucidados por Pôncio Pilatos. Por que isso aconteceu? Será que se tratava de pecadores?

E a resposta de Jesus surpreendeu. Ele inclusive tornou sua resposta mais difícil, lembrando do caso de dezoito pessoas inocentes que morreram no desmoronamento de uma torre em Jerusalém:

  • Ele não citou qualquer pecado como causa dessas tragédias.
  • Também não disse que foi a vontade de Deus (outra resposta muito comum nessas horas).
  • E não culpou Satanás, que também costuma levar a culpa nesse tipo de situação.
  • Finalmente, não propôs nenhuma resposta teológica rebuscada, mostrando, de forma indireta, que certas coisas estão fora do nosso alcance.

E se Jesus não foi por nenhum desses caminhos, porque deveríamos tentar andar por eles? O que Jesus disse mesmo foi que problemas e tragédias nos fazem perceber a fragilidade da vida humana e ressaltam a necessidade de mantermos uma relação próxima com Deus. Nesse sentido, eles servem como sinais de alerta para todos/as.

Sinceramente, não acredito que os interlocutores de Jesus tenham ficado satisfeitos com essa resposta, embora o texto não aprofunde essa questão. Assim como acredito que a maioria das pessoas que hoje em dia querem conhecer as razões para o sofrimento humano, também não ficaria satisfeita com essa resposta. Mas essa é uma realidade que precisamos aprender a aceitar com humildade e fé.

O mundo jaz no Maligno
A segunda coisa que precisamos ter em mente ao lidar com o sofrimento humano é que o mundo jaz no Maligno (1 João 5:9). Isso significa que os seres humanos cometem erros e fazem coisas erradas todo o tempo. São capazes de atos lindos e também de atitudes horríveis. Alguns desses pecados não geram muitas consequências, mas muitas vezes o impacto deles é terrível. E também não podemos esquecer o sofrimento gerado por coisas sobre as quais não temos controle, como terremotos, furacões ou até mesmo doenças inesperadas.

E a única forma de explicar tudo isso é usando o ensinamento da Bíblia: esse mundo está debaixo do domínio do mal e isso ocorre desde que o pecado entrou na vida dos seres humanos. Veja o que Paulo diz sobre isso (Romanos 8:22-23):

Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo.

Nosso mundo não é como deveria ser – o pecado o distorceu de tal forma que muitas vezes fica difícil ver nele a beleza da criação de Deus. E nosso mundo não é o paraíso que nos foi prometido. A Bíblia fala de uma restauração – um novo céu e uma nova terra (Apocalipse 21:1-4):

Então vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia. Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu marido. Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: “Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou”.

Portanto, o sofrimento é parte da vida neste mundo. E somente no final dos tempos, depois da volta de Jesus, tudo será restaurado e não haverá mais sofrimento. Até lá essa é a realidade que precisamos aceitar.

Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus

E sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Romanos 8:28

Esse texto traz uma promessa que nos deve trazer grande consolo no meio ao sofrimento.  Deus afirmou que tudo – aí incluído até o sofrimento – colabora para o bem do/a cristão/ã verdadeiro/a.  Mas cuidado: o bem, nessa promessa, não se refere ao conforto material, ao sucesso, à segurança, etc. Deus pode até nos dar tudo isso e, muitas vezes, é exatamente isso que Ele faz. E não porque tenha prometido agir sempre assim e sim por causa da sua Graça maravilhosa.

A promessa embutida nessa passagem, o “bem” do qual Paulo está falando, é o próprio Deus. Afinal, Ele é a fonte de tudo que é bom. Portanto, Deus prometeu que tudo vai colaborar para aproximar o/a crente verdadeiro/a d´Ele. Não importa quais sejam as dificuldades, tudo acabará cooperando para esse fim maravilhoso.

Isso nos permite olhar para o sofrimento com outros olhos- embora, sei bem disso, que não atenue a dor. Mas fica a esperança que o sofrimento não cria uma barreira entre nós e Deus, como os fariseus pensavam ocorrer, no tempo de Jesus. Pelo contrário, Deus usa essas dificuldades para se aproximar, para aprofundar o relacionamento com seus filhos/as.

Conclusão
Nunca passe julgamento sobre as pessoas que você vir passando dificuldades e/ou enfrentando tragédias. Não estabeleça jamais a correlação: “problemas aparecem sempre onde o pecado se faz presente”. Esse não é um ensinamento bíblico.

E, além de não ter suporte bíblico, é um julgamento injusto. E Jesus nos alertou fortemente contra o erro de julgar as outras pessoas dessa forma (Mateus 7:1-3):

Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês. “Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho?

Com carinho

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Dirceu P.Nascimento
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Dirceu P.Nascimento

Achei muito proveitosa esta reflexão . Parabens que deus o abençõe e o Espirito Santo o ilumine sempre.

Dirceu P.;Nascimento – Itajai – SC.

Cleide
Visitante
Cleide

Abençoada palavra para os nossos dias. Deus falou muito ao meu coração.