RELATOS DIFERENTES

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Uma verdade bem conhecida é que relatos de diferentes pessoas a respeito de um mesmo fato tendem a divergir, nos detalhes. Tanto isso é verdade, que, quando duas testemunhas contam exatamente os mesmos detalhes sobre os  fatos, fica a desconfiança de ter havido combinação prévia dos depoimentos.

Isso ocorre porque pessoas diferentes observam o mesmo fato de maneira distinta. E há várias razões para que os testemunhos sejam diferentes entre si e vou apresentar apenas duas dessas razões, embora haja outras.

Primeiro, as testemunhas provavelmente estavam em lugares diferentes quando presenciaram o fato aconteceu. E assim não viram exatamente a mesma coisa. Por exemplo, uma arma pode ter ficado visível para uma testemunha e invisível para a outra.  Uma das testemunhas, por estar mais próxima, pode ter ouvido algo que a outra não conseguiu ouvir. E assim por diante.

A segunda razão é que as duas testemunhas usam diferentes “lentes” – convicções religiosas e políticas, experiências anteriores, etc – para ver as coisas e chegar a uma conclusão sobre o que viram. E não há como evitar isso.

Por exemplo, imagine que o fato presenciado fosse uma suposta agressão de um marido à sua mulher. E que uma das testemunhas soubesse que o homem já tinha agredido sua esposa antes. Quando essa pessoa presenciar o que parece ter sido uma agressão, ela vai “preencher” automaticamente na sua mente os eventuais vazios (coisas que não viu de fato) de acordo com suas impressões anteriores. E poderá acabar se convencendo ter visto mesmo uma agressão violenta do marido. Já outra testemunha, que não conhecesse o casal, poderá perceber as coisas de forma bem diferente.

Falo tudo isso porque os quatro Evangelhos da Bíblia – Mateus, Marcos, Lucas e João – dão testemunhos diferentes dos eventos sobre a vida de Jesus. E seria mesmo de se esperar que os quatro relatos não fossem iguais nos seus detalhes, caso contrário seria de desconfiar.

O nascimento de Jesus, por exemplo, é relatado apenas por Mateus e Lucas. O primeiro foi um apóstolo, enquanto o segundo foi companheiro de Pedro e Paulo. E os dois autores certamente se basearam em fontes de informação (testemunhas) diferentes.

A “lente” para o relato de Mateus foi o ponto de vista de José, pai adotivo do nosso salvador. A genealogia que aparece em Mateus mostra como Jesus era descendente de Davi, através de José, por ser essa a  genealogia que os demais judeus iriam usar na prática. A genealogia por José era genealogia oficial, digamos assim.

Mateus (ver capítulos 1 e 2 desse Evangelho) não dá muitos detalhes sobre o que aconteceu. Cita apenas a concepção de Maria pelo Espírito Santo, a visita dos magos, a matança das crianças por Herodes, a fuga para o Egito e o retorno a Nazaré (local de origem da família).

O grosso das informações que temos sobre o nascimento de Jesus – o bebê na manjedoura, a aparição de anjos e a visita dos pastores – está no relato de Lucas (ver capítulos 1 e 2 desse Evangelho). E Lucas apresenta o ponto de vista de Maria e, não por acaso, traz detalhes sobre ela. Como a visita, já grávida, a sua prima Isabel, futura mãe de João Batista. Em Lucas está também a genealogia de Jesus pelo lado de Maria, que também passa por Davi. E essa é, digamos assim, sua genealogia genética.

É claro que a totalidade dos fatos que ocorreram no nascimento de Jesus é resultado da soma dos relatos de Mateus e Lucas, mais as muitas informações que ficaram de fora desses relatos por limitação de espaço e/ou por serem detalhes desconhecidos pelas testemunhas que  informaram Mateus e Lucas.

É importante que você tenha essas coisas em mente quando ler os Evangelhos e, principalmente, quando ouvir por aí que a Bíblia é cheia de contradições, o que não é verdade.

Com carinho

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