CRISTÃOS CONTAMINADOS PELA INJUSTIÇA

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Vivemos hoje no Brasil sob uma democracia que funciona razoavelmente, embora tenha muitas e graves distorções – um excelente exemplo é a corrupção terrível dos políticos que vem sendo desnudada pela operação Lava Jato.

Acredito que a principal distorção da sociedade brasileira ainda seja a injustiça social  – pobreza, desamparo, falta de segurança, etc -, presente em nosso meio desde os tempos do Brasil colônia de Portugal. 

O fato é que os(as) cristãos(ãs) que vivem num ambiente injusto, como o nosso, correm o sério risco de se “contaminar” com essa situação iníqua, deixando de se incomodar com o que ocorre ao seu redor. Passam a considerar natural que haja pessoas desabrigadas, com fome, passando frio, presas por engano e assim por diante. Sei bem disso, porque já fui assim, quando mais jovem.

A ciência mostrou que o processo de contaminação pelas injustiça do meio onde se vive é mais perigoso do que a gente consegue se dar conta. Há um famoso estudo, conduzido pelo pesquisador norte-americano Philip Zimbardo, da Universidade de Stanford, que comprovou isso muito bem.

Esse cientista construiu, num porão de um prédio dessa Universidade, um ambiente simulando uma cadeia. Alunos foram convocados a participar do experimento, sendo que alguns deles representaram o papel de “preso” e os demais de “guarda” – a escolha foi feita por sorteio. 

O sistema prisional simulado no experimento era propositadamente injusto e iníquo, exatamente como acontece na maioria das cadeias da vida real.

No princípio da experiência, os alunos comportaram-se de forma parecida, pois todos vinham da mesma matriz. Mas após uma semana apenas encarnando os diferentes papéis, as pessoas começaram  a mudar: os “guardas” foram ficando arbitrários e violentos, enquanto os “prisioneiros” tornaram-se dissimulados e revoltados contra os maus tratos sofridos.

O mal espalhou-se rapidamente. A contaminação das pessoas, que pareciam boas  e esclarecidas, foi muito mais fácil e rápida do que os pesquisadores previram. Tanto assim, que o estudo precisou ser interrompido antes do prazo previsto (três semanas), pois a situação fugiu totalmente ao controle.

Um outro exemplo desse tipo de contaminação pelo mal é o da comunidade dirigida pelo pastor Jim Jones. No início, tratava-se de comunidade cristã normal, caracterizada pelo fervor extremo e a liderança incontestada do pastor Jones. Mas como não havia qualquer esquema de controle externo, o grupo rapidamente transformou-se num ambiente demoníaco, com final trágico (suicídio coletivo).

A contaminação pelo mal, levando as pessoas a achar que as coisas são assim mesmo, acaba por perpetuar a injustiça. Lembro que, quando era garoto, minha avó tinha duas empregadas domésticas que moravam na casa dela. E era um enorme conforto jantar aos domingos uma comida excelente preparada por essas pessoas.

Só muitos anos depois me dei conta que aquele conforto se dava às custas de uma situação injusta, onde pessoas pobres e negras não tinham direitos trabalhistas reconhecidos (não havia lei protegendo as empregadas domésticas naquela época). Isso mudou, e para melhor, provando sim que é possível tornar as coisas mais justas, desde que haja vontade social para fazer isso (e contrariar os privilégios já adquiridos).

A verdade é que compramos roupas baratas sem nos preocupar se elas foram fabricadas em pequenas fábricas que exploram a mão de obra semi-escrava de imigrantes ilegais – tempos atrás uma confecção evangélica foi pega fazendo exatamente isso.

Também não nos preocupamos como deveríamos quando as escolas de periferia dão ensino de péssima qualidade. Ou ainda quando os hospitais públicos não têm vagas suficientes e deixam pacientes no corredor, às vezes até no chão. Ou também quando o transporte coletivo atendem mal a milhões de pessoas.

É fácil se deixar contaminar e passar a aceitar como normais as injustiças de uma sociedade como a nossa. E ao fazer isso, sem perceber, estamos contribuindo para a perpetuação desse mal. 

Mas o que o cristão pode fazer para evitar cair nessa “armadilha”? Vejamos algumas recomendações simples:

Em primeiro lugar e o mais importante: aprenda a tratar o próximo como gostaria de ser tratado(a)Sempre que analisar a situação de outra pessoa, coloque-se no lugar dela e veja como gostaria de ser tratado e tente fazer com ela dessa forma. Isso significa, na prática, dentre outras coisas, reconhecer para as demais pessoas os mesmos direitos e vantagens que você quer para si mesmo(a).

Significa também nunca demonizar quem pensa diferente. É comum que os evangélicos(as) acusem de serem agentes de Satanás todos(as) aqueles(as) que pregam e vivem com base em idéias diferentes das deles(as). Idéias erradas podem e devem ser combatidas, mas com ideias melhores e mais adequadas (e temos certeza que a doutrina cristã defende as melhores idéias).

Em segundo lugar, procure sempre pensar pela sua própria cabeça e acostume-se a verificar as coisas que lhe são ditas usando as referências da Bíblia. Lembre-se que os grupos sociais onde você está inserido(a), inclusive a igreja que frequenta, têm poder para acabar dirigindo sua vidas em direções que não são boas e até lhe fazer apoiar coisas absurdas.

Por exemplo, tempos atrás, o teto de um templo evangélico caiu sobre a cabeça de pessoas, matando algumas. Os dirigentes dessa denominação, ao invés de assumirem sua culpa (o problema foi fruto da má manutenção do prédio), preferiram culpar Satanás e a mídia e, infelizmente, grande parte dos seguidores engoliu essa explicação sem questionar. 

Em terceiro lugar, cuidado para não se deixar contaminar um pouquinho a cada dia. Há um experimento interessante que demonstra bem esse perigo:  a rã, quando jogada numa panela de água fervendo, pula e se salva. Mas quando é colocada numa panela de água fria, aquecida depois até a fervura, não sente o perigo e acaba morrendo.

Os seres humanos se parecem com as rãs no sentido que não percebem o perigo que chega aos poucos. O mal que se espalha passo a passo – foi assim que o nazismo dominou a Alemanha, país culto e desenvolvido. Portanto, é preciso orar e vigiar continuamente, denunciando qualquer desvio dos ensinamentos de Jesus.

Finalmente, lembre-se que os fins nunca justificam o uso de meios errados. Justificar a prática do mal como ferramenta para alcançar um resultado bom (fazer o bem) não está certo. Por exemplo, explodir centros médicos que fazem aborto (como aconteceu nos Estados Unidos várias vezes) ou invadir centros de religião afro e destruir tudo (como já aconteceu no Brasil), não é aceitável aos olhos de Deus. O bem nunca pode ser construído em cima do mal.

Concluindo, cada um(a) é responsável por lutar para não se deixar contaminar pelo mal que causa a injustiça na sociedade onde se vive. É como diz o velho ditado: “não podemos evitar que um pássaro pouse em nossa cabeça, mas podemos evitar que ali faça o seu ninho ali”. Foi exatamente isso que o apóstolo Paulo ensinou em Romanos capítulo 12 versículo 2): “e não vos conformeis com este mundo” .

Com carinho

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Vinicius MouraAna Carolina Santos Consani Recent comment authors
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Ana Carolina Santos Consani
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Ana Carolina Santos Consani

Nossa muita grata por encontrar esta pagina para ler e dividir minhas reflexões como crista, pois temo muito a vida crista que prende de forma idolatra e sem raciocínio próprio, este seu texto sobre “Cristãos contaminados pelo mundo”‘ é exatamente a ideia que tenho como crista. Sou crista a um ano e me apaixonei pela biblia, tenho algumas filosofias de vida mas que nao me impedem de ser fiel a Jesus e a biblia. Obrigado, pretendo ler sempre este blog e poder dialogar sobre minhas ideias. Obrigado Jesus por me levar aos caminhos que meu coração busca.