QUANDO A CÂMARA DOS DEPUTADOS FALOU

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Domingo passado o Brasil parou para acompanhar a votação para autorização do início do processo de impeachment da atual Presidente pela Câmara dos Deputados.

Foram quase cinco horas de votação nominal de cada um(a) dos(as) 513 deputados(as) federais – aproximavam-se do microfone e diante das câmaras de televisão diziam “sim” ou “não”.

Há um lado meu que fica feliz em ver a democracia funcionando, pois por ter vivido a ditadura sei muito bem como era diferente 50 anos atrás – os generais davam as ordens e o país obedecia.

Por outro lado, as manifestações dos(as) parlamentares diante do microfone foram um verdadeiro show de horrores. Teve gente que falou em nome de Deus, lembrou da própria família (um deputado até quis que o filho votasse) ou defendeu causas totalmente estranhas ao escopo da votação (como a segurança de Jerusalém). Poucos falaram do que estava sendo votado.

O clima foi o de Carnaval e não aquele adequado a uma situação grave – o possível afastamento de uma Presidente. É claro que se deve dar o desconto para o fato do povo brasileiro ser muito informal, mas mesmo assim foi exagerado, além da conta

No dia seguinte ao da votação, muitas pessoas que conheço demonstraram decepção com o baixo nível daquilo que presenciaram. Eu confesso que não me surpreendi.

Penso que a Câmara de Deputados reflete exatamente a realidade do nosso povo. Não estou dizendo que nosso povo tem baixo nível e sim que não foi educado como deveria e por isso tem dificuldade de escolher as melhores pessoas para representá-lo – deixa-se enganar por técnicas de marketing baratas, deixa-se impressionar por candidatos(as) que tenham fama e acredita em promessas populistas.

O nosso povo escolhe mal e a Câmara de Deputados que vimos em ação no domingo é o resultado e a prova viva disso. Mas isso não significa que a Câmara seja ilegítima.

Agora, se olharmos as coisas pelo ponto de vista dos(as) deputados(as) fica mais fácil entender algumas manifestações feitas na frente do microfone, como àquelas de amor à própria cidade e à família ou de apoio a causas que parecem estranhas.

São muitos(as) deputados(as) e a maioria deles(as) luta para se tornar conhecido(a). Estão sempre em busca de algum espaço na mídia e o momento da votação era uma oportunidade única, que não podia ser desperdiçada. Afinal, milhões de pessoas estavam assistindo. Dai´muitos(as) deles(as) fazerem enorme esforço para aparacer.

Além disso, os segundos na frente daquele microfone foram gravados e serão usados na propaganda eleitoral gratuita da campanha de 2018. E esse material vale ouro, o que explica o circo armado.

Isso não quer dizer que aprovo o tal circo, mas apenas explicando que nosso sistema político leva a isso. Ou seja, não aprovo, mas compreendo porque o circo existe.

Não posso deixar de reconhecer também que houve manifestações indesculpáveis – como a homenagem feita a um famoso torturador da época da ditadura ou a troca de cusparadas entre deputados. São agressões morais injustificáveis.

Como também não aceito aqueles(as) que falaram em nome de Deus ou disseram que estavam fazendo aquilo por causa d´Ele.

Ninguém pode usar o nome de Deus dessa forma. Aliás, isso é proibido pelo mandamento que nos impede de tomar o nome de Deus em vão. Ele nada tinha com o que estava acontecendo ali e se as pessoas quisessem mesmo fazer a vontade d´Ele, não haveria corrupção, traições, acordos escusos, etc.

Eu aceito melhor as referencias à família. Esse é um valor ainda muito forte para o povo brasileiro, daí ser importante passar a imagem de homem(mulher) de família – os(as) eleitores(as) valorizam isso.

Mas sei também que a maioria daquelas pessoas não valoriza a família tanto assim e muito menos vive de acordo com a vontade de Deus. Portanto, boa parte das suas manifestações foi pura hipocrisia, o que é lamentável. 

Resumindo, pecados importantes, como tomar o nome de Deus em vão, hipocrisia, mentira, agressão moral, etc, foram cometidos diante do povo brasileiro. Isso sim é um show de horrores e não a aparente indisciplina, informalidade ou falta de cultura demonstrada pelos(as) deputados(as). Mas desses pecados não ouvi ninguém falar.

Achei que era importante fazer esse registro.

Com carinho  

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