QUAL O CONTEÚDO VERDADEIRO DO NOVO TESTAMENTO?

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O “mercado” de livros sobre a Bíblia está cheio de relatos alegando que existem outros evangelhos, além dos quatro incluídos no Novo Testamento, e, ainda mais, dizendo que se eles tivessem feito parte do cânone bíblico, a história e a doutrina do cristianismo seriam totalmente diferentes.

Por trás disso tudo, além de enormes interesses comerciais, pois livros que criticam o cristianismo vendem muitíssimo bem, existem também algumas questões que precisam ser consideradas com seriedade.

Os críticos do cristianismo alegam que a relação de livros incluídos no Novo Testamento somente foi definida pouco mais de dois séculos depois do ultimo livro (Apocalipse) ter sido escrito. E como o processo de escolha foi demorado, teria sofrido muitas influências (inclusive políticas, devidas ao Imperador romano Constantino), que distorceram o resultado final.

Alegam esses estudiosos que por causa dessas influências indevidas, teriam sido deixados de fora do Novo Testamento textos muito importantes, como o Evangelho de Tiago ou o Evangelho de Judas.

Mas será que isso aconteceu mesmo? E se não foi assim, quem fez a escolha sobre o que seria incluído?

A autoridade apostólica

A resposta cristã tradicional para essas perguntas é afirmar que o Espírito Santo guiou as pessoas que fizeram essa escolha, garantindo que a Bíblia tivesse exatamente o conteúdo determinado por Deus.

Eu acredito nisso, mas essa não é uma boa resposta para aqueles que não são cristãos. Afinal, há aí um raciocínio circular, uma falha de lógica: sabemos que a Bíblia foi inspirada pelo Espírito Santo porque isso está escrito nela. Em outras palavras, usamos o que está escrito na Bíblia para validá-la, o que é incoerente. É preciso encontrar uma resposta melhor, que não fuja à lógica. E essa resposta felizmente existe.

No final do primeiro século da nossa era, quando o último livro do Novo Testamento foi escrito, as pessoas tinham acesso, nas suas igrejas locais, aos textos mais populares do Novo Testamento, como os quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) e algumas cartas de Paulo (como Romanos, 1 Tessalonicenses,  Gálatas ou 1 Coríntios). Mas também estavam disponíveis outros textos, que hoje nem estão no Novo Testamento, como o “Pastor de Hermas”.

Como ainda não havia uma relação canônica de quais livros integravam de fato o Novo Testamento, havia risco do ensino de doutrinas conflitantes e heresias, coisa que de fato aconteceu.

Mas quem então tirava a dúvida das pessoas sobre qual era a doutrina certa? A resposta tem a ver com a chamada “autoridade apostólica”. Os apóstolos tinham recebido seu ensinamento diretamente de Jesus e tinham autoridade espiritual inconteste no meio cristão por causa disso. A autoridade especial atribuída pelos cristãos aos apóstolos pode ser percebida no Atos dos Apóstolos (capítulo 1 versículos 21 a 26 e capítulo 15), em 1 Coríntios (capítulos 4 e 5) ou ainda em Gálatas (capítulo 1, versículos 1 a 12). 

Quando os apóstolos morreram, ficaram no seu lugar seus discípulos diretos, chamados de “Pais da Igreja”. E a autoridade dessa segunda geração de líderes cristãos vinha dos seus mestres, os apóstolos, pois tinham aprendido com eles a doutrina verdadeira.

Coube aos Pais da Igreja ensinar e guiar os cada vez mais numerosos cristãos na direção certa e foram eles que lideraram o processo de escolha de quais livros seriam ou não incluídos no Novo Testamento.

O critério para inclusão

O critério usado pelos Pais da Igreja para incluir um texto no Novo Testamento foi sua relação direta com algum apóstolo. Quando era possível definir que o texto tinha sido escrito por algum deles ou por um de seus discípulos reconhecidos, ele tinha o “selo” dessa autoridade e era incluído. Caso contrário, não.

E é importante lembrar que Paulo sempre foi considerado como um apóstolo, mesmo não tendo convivido com Jesus, pelo fato de ter sido convertido numa visão que teve do nosso Salvador. Assim, o entendimento geral era que Paulo tinha sido instruído diretamente por Jesus. O próprio apóstolo Pedro, num dos seus textos, reconheceu que os escritos de Paulo, embora difíceis de entender, eram parte da Bíblia (2 Pedro capítulo 3, versículos 15 e 16).

Vários textos foram imediatamente aceitos por toda a comunidade cristã como canônicos (parte do Novo Testamento). Esse é o caso, por exemplo, dos quatro evangelhos, atribuídos a apóstolos (Mateus e João) ou a discípulos muito chegados a eles (João Marcos e Lucas). O mesmo podemos dizer de Atos dos Apóstolos, Romanos, Gálatas, 1 Coríntios e vários outros textos.

Em outras palavras, a controvérsia entre o que deveria ter sido ou não incluído no Novo Testamento não foi tão grande como os críticos do cristianismo querem fazer crer. A discussão ficou restrita a poucos livros, como por exemplo, o Apocalipse e a carta de Judas (que entraram), e o Pastor de Hermas e a Didaque (que não entraram).

Na discussão sobre se um texto era canônico ou não, o critério da origem apostólica sempre foi invocado. Veja o que um dos líderes da igreja, falou por volta do ano 150, sobre o “Pastor de Hermas”:

[O autor] Hermas escreveu bem recentemente, na nossa época, na cidade de Roma… Logo, embora o texto deva ser lido, sem dúvida ele não deve ser lido publicamente para o povo da igreja pois não pode ser contado entre os profetas (seu número já está completo) nem entre os apóstolos (pois já passou o tempo deles).

Outro líder da igreja, Serapião, disse por volta do ano 200:

Nós, irmãos e irmãs, recebemos Pedro e os demais apóstolos como teríamos recebido o próprio Cristo. Mas aqueles escritos que são falsamente atribuídos aos seus nomes, nós somos cuidadosos em rejeitar, sabendo que nenhum desses escritos deveria ter sido passados para nós.

A questão debatida não era se o conteúdo de determinado texto incomodava essa ou aquela pessoa. Se determinado texto tinha ou não apoio do Imperador Romano. Nada disso – os críticos do cristianismo estão errados ao afirmar isso. A preocupação sempre foi a mesma: saber se o texto em questão tinha sido escrito por quem tinha autoridade espiritual, evitando fraudes. Só isso.

E foi por essa causa que os chamados “evangelhos” de Tiago e Judas ficaram de fora: eram fraudes – foram escritos muito mais tarde e não podiam ser atribuídos aos próprios apóstolos ou aos seus discípulos diretos. E o mesmo aconteceu com o Pastor de Hermas, a Didaque e alguns outros textos.

Eu não tenho espaço aqui para discutir a história de cada livro incluído no Novo Testamento – explicar quem escreveu, quando e dar as razões pelas quais foi aceito no Novo Testamento. Mas há excelentes textos didáticos que fazem exatamente isso – se você estiver interessado, me escreva que eu terei prazer em passar as referências.

O que importa aqui é que você saiba haver razões de sobra para que cada um dos livros incluídos no Novo Testamento estejam ali, mesmo aqueles que foram alvo de alguma controvérsia, como o Apocalipse.

É claro que acreditamos que todo esse processo foi inspirado e dirigido pelo Espírito Santo, e isso nos traz ainda maior certeza quanto à correção do que foi feito. Mas não é preciso acreditar nisso para justificar o Novo Testamento, conforme expliquei acima.

Portanto, pode confiar na sua Bíblia: ela é a verdadeira Palavra de Deus. E você tem em mãos o texto que precisava ter, nem mais e nem menos.

Com carinho

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