PRESTE ATENÇÃO NAS PREMISSAS OCULTAS

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Os cristãos discordam muito entre si quanto ao que é certo ou errado, mesmo tendo a mesma Bíblia como fonte de referência para a verdade. Por exemplo, uns pensam que é pecado divorciar, enquanto outros acham que não é. Uns defendem que o batismo tem que ser feito por imersão (e somente para adultos), enquanto outros batizam por aspersão (e incluem crianças). Uns acreditam que as pessoas são predestinadas, enquanto outros discordam totalmente disso. E assim por diante.

Mas por que as pessoas leem a mesma Bíblia e chegam a conclusões tão diferentes? Será que o problema é a má intenção – uma vontade deliberada de distorcer o que a Bíblia diz -, ou se trata simplesmente de falta de entendimento do que foi lido?

Na verdade, na maioria das vezes não é uma coisa e nem outra – normalmente as pessoas que pensam diferente são igualmente sinceras e capazes. As diferenças de opinião se devem às premissas distintas que as pessoas usam para construir suas conclusões.

Premissas são ideias consideradas como verdadeiras que servem como ponto de partida, ou seja, como base, para determinado raciocínio. Por exemplo, tenho como premissas para minha vida, assim com a maioria dos cristãos, que Jesus é Deus encarnado e veio ao mundo para nos salvar. Tudo o que penso sobre religião vai partir dessas duas ideias. Já um ateu vai raciocinar partindo de duas premissas totalmente diferentes: não há nada além do mundo natural (o mundo físico) e Deus não existe, é uma simples ficção.

Um fator que complica bastante as coisas é que a maioria das premissas usadas são “ocultas” muitas vezes até para quem as usa.

Identificando as premissas ocultas

Vou explicar melhor o que quero dizer com um exemplo: a discussão sobre o aborto. A maioria dos cristãos (dentre os quais me incluo) considera o aborto um pecado, por violar o mandamento de não matar. Já aqueles que aceitam o aborto, sejam cristãos ou não, entendem que a mulher tem o direito de escolher como vai usar seu próprio corpo.

A premissa oculta aqui é a definição de quando o feto se torna um ser humano, passando a gozar de todos os direitos que os demais seres humanos têm. Aqueles que são contra o aborto entendem que já na concepção existe um ser humano presente. Os que são a favor do aborto entendem que somente haverá um ser humano num estágio mais avançado da gravidez e, portanto, abortar antes não é pecado – haveria como uma “janela de oportunidade” para praticar o aborto sem problema.

O interessante é que nos debates sobre o aborto quase nunca se fala sobre essa premissa oculta. Discute-se muito, por exemplo, se a mulher tem ou não direito sobre seu próprio corpo – é claro que a mulher tem esse direito, mas se existe a vida de outro ser humano em jogo, há limites no exercício desse direito.  Ora, como não se discute de fato sobre a premissa oculta – quando a vida verdadeiramente começa – a discussão rola e nunca se chega a conclusão nenhuma.

Mais dois exemplos de premissas ocultas

Acho que todos conhecem a declaração que Jesus sobre o casamento: “aqueles que Deus juntou, não os separe o homem“. Nos comentários ao texto que escrevi aqui no site sobre o divórcio (veja mais), várias pessoas usaram esse versículo para tentar derrubar meus argumentos, alegando que o divórcio, exceto por infidelidade, é pecado e torna-se equivalente ao adultério.

Ora, quem argumenta assim está partindo da seguinte premissa oculta: quando o casamento for feito numa igreja, a união foi feita por Deus. Essa é, por exemplo, a posição da Igreja Católica e de várias denominações evangélicas.

Mas não há suporte bíblico para essa premissa. É claro que o casamento feito na igreja e o casamento sancionado por Deus podem até ser a mesma coisa e eu diria até que isso acontece com frequência. Mas não é possível concluir que isso sempre acontece.

Pense num casamento onde as pessoas não têm qualquer vínculo com a igreja onde vão se casar e simplesmente participam daquele ato para dar uma satisfação para a sociedade – conheço casos em que um dos noivos era até ateu. Esse tipo de situação é muito frequente. Onde está a garantia que Deus abençoou a união de quem nem acredita n´Ele?

Portanto, quando as pessoas estão discutindo o divórcio, na verdade partem, sem nem perceber, da premissa que o casamento na igreja equivale ao casamento sancionado por Deus.

E quando a pessoa se casou na igreja e Deus não sancionou seu casamento (digamos que ela fosse ateia)? Seria então viável o divórcio? E quem vai determinar em que casos o casamento foi sancionado por Deus ou não? O pastor? Mas será que ele tem esse mandato dado por Deus? Repare que quando a premissa oculta é exposta, a discussão muda completamente de figura.

Outro exemplo interessante é o que trata da autoridade espiritual. Certa vez ouvi uma pessoa defender a tese que, segundo a Bíblia, precisamos ser submissos às autoridades espirituais que Deus coloca no nosso caminho. E concluiu afirmando que, numa igreja, as pessoas precisam ser submissas aos seus pastores e aos demais líderes locais que legalmente instituídos, porque essas pessoas têm autoridade espiritual sobre os/as frequentadores/as da igreja.

É certo que está escrito na Bíblia que precisamos ser submissos às autoridades espirituais. Mas a quem são as autoridades espirituais na nossa vida? A pessoa que citei acima usou a premissa oculta que toda pessoa apontada para cargo de liderança numa igreja, seguindo seus princípios institucionais (canônicos) legais, é automaticamente uma autoridade espiritual. Mas onde isto está escrito na Bíblia?

Será que um padre legalmente apontado pela Igreja Católica para uma paróquia, mas que abusa de crianças, tem autoridade espiritual? Ou será que tem autoridade um pastor que desvia os dízimos da sua igreja? Duvido muito.

Pessoas podem até ter sido legalmente apontadas para uma posição de liderança na sua igreja, mas isso lhes garante apenas autoridade institucional não autoridade espiritual. E essas duas coisas são bem diferentes. A autoridade institucional vem dos homens e a espiritual de Deus. É por isso que os profetas do Velho Testamento não tinham qualquer autoridade institucional – um deles era pastor de cabras e ovelhas -, mas tinham grande autoridade espiritual.

Por confundir autoridade institucional com espiritual, muitos membros de igrejas ficam à mercê de lideranças religiosas desqualificadas e não encontram forças para reagir e vemos isso acontecer toda hora.

Concluindo, quando for discutir temas controvertidos, procure sempre por aquilo que está oculto por trás de declarações como “tal coisa é pecado” ou “a Bíblia manda fazer tal coisa”. Você pode se surpreender com as descobertas que fará.

Com carinho

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