POR QUE É TÃO DIFÍCIL PERDOAR

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Post adaptado de um texto do psicanalista Luis Felipe de Melo Moura.

Existem muitos motivos que podem levar alguém a ter dificuldade em perdoar. Hoje vou abordar um motivo que é muito comum: a necessidade de nos cercarmos de pessoas a quem atribuímos características negativas.

Semana passada presenciei uma situação inusitada. Um senhor que, após conseguir brigar com a última pessoa com quem tinha amizade em seu ambiente de trabalho, afirmou não aguentar mais tanta gente ruim. É bastante claro que a maldade que esse senhor não aguenta, reside nele mesmo, e não nos outros.

O ser humano tem uma dualidade de sentimentos – todos nós sentimos amor e ódio. Nenhum ser humano é unicamente amoroso, assim como nenhum ser humano é apenas maligno.

Perdoar pode ser difícil porque frequentemente temos a necessidade de que alguém seja o vilão. O que seria do Batman sem o Curinga? O que faria o corintiano sem o palmeirense? A razão é simples de entender: se o outro é o vilão, então eu sou bom.

Quanto mais eu preciso ser bom, mais eu preciso que o outro seja ruim. Quem não se lembra de, nos tempos de escola, torcer para que a turma tirasse nota pior do que a sua? Quanto pior fossem os outros, melhor eu seria. Ou quem nunca sentiu uma pontinha de satisfação quando seu irmão esqueceu o aniversário da mãe, enquanto você ostentava, orgulhoso, um belo presente?

Quanto mais frágil emocionalmente estiver a pessoa, maior a necessidade de dividir o mundo em bom e ruim. Porque para uma pessoa fragilizada emocionalmente, a frustração de lidar com seu lado ruim é quase intolerável.

Em termos bem leigos, funciona da seguinte forma: eu não dou conta de olhar para aquilo que em mim mesmo eu considero ruim, mau, ameaçador. Tenho medo de que esse meu lado ruim venha a me dominar. Devido a isso, eu projeto essa maldade, esse lado ruim, em uma série de pessoas e circunstâncias. Assim, consigo me manter longe da ameaça do meu lado ruim.

Mas isso tem um preço: eu preciso de pessoas onde possa projetar esse sentimento ruim. Assim, não sou eu que sou agressivo, é o meu colega de trabalho. Não sou eu que sou falso, são as pessoas da minha comunidade. Não sou eu quem é severo e punitivo, é o meu chefe. E assim por diante.

É claro que as pessoas ao nosso redor não são perfeitas, e muitas vezes elas irão fazer algo que nos atinge. E isso se torna justamente o pretexto emocional ideal para que eu dê incío a esse processo contra o outro. Em outras palavras, se eu tenho um colega de trabalho que bate boca comigo, ele acaba justificando a minha agressividade contra ele.

Voltando à pergunta do título: Por que é tão difícil perdoar? Em muitos casos, é porque significa desistir de tomar o outro como mau.

Se tenho dificuldade de perdoar alguém, devo então me perguntar: O que é há nessa pessoa que tanto me incomoda? Se eu encontrar a resposta, e for capaz de lidar com ela, o perdão será muito mais fácil. Perdoar o outro passa por “perdoar”, ou aceitar, a mim mesmo.

Nem sempre é possível encontrar essa resposta sozinho, especialmente quando ela é dolorosa demais. Aí é preciso ajuda especializada. Mas, em outros casos mais simples, mesmo uma simples reflexão pode trazer as respostas necessárias.

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