POR QUE AS PESSOAS SAEM DA IGREJA?

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Já vi muitas pessoas afirmarem que não gostam de ir à igreja. Não conseguem se encontrar em nenhuma das comunidades cristãs que já conheceram.

Até tentaram, testando locais que seguem diferentes orientações ideológicas (mais rígidas ou mais liberais, mais tradicionais na visão dos dons do Espírito Santo ou mais carismáticas), formas diversas de ser e praticar a fé cristã, etc, mas não se sentiram em casa em lugar nenhum. 

Em muitos desses casos, o problema real está nas próprias pessoas – na sua falta de compromisso com o Evangelho de Cristo. Falo sobre isso em diversas postagens aqui no site (por exemplo, aqui e aqui). 

Mas, conheço muitos casos de pessoas feridas pelas comunidades cristãs que frequentaram ou que não conseguiram efetivamente se encontrar em nenhum lugar. Nesta postagem, portanto, vou falar do “outro lado da moeda”: os problemas que afastam as pessoas das igrejas cristãs.

Muitas delas simplesmente não conseguem cumprir sua missão adequadamente, pois não dão às pessoas o que elas de fato precisam para exercer bem sua fé cristã. Vamos ver alguns dos problemas que são comuns por aí: 

A geração de ansiedade
Hoje em dia ficou difícil viajar de avião para o exterior, principalmente para os Estados Unidos. Os incômodos tornaram-se enormes, por causa das regras de segurança impostas aos passageiros nos aeroportos.
Viajar para o exterior de avião – uma coisa que deveria ser boa – virou motivo de ansiedade. E há aí um ponto de semelhança com algumas igrejas.
Elas também geram ansiedade nas pessoas que as frequentam e fazem isso por duas razões. Primeiro, porque estabelecem um monte de regras de conduta e acusam de pecadoras todas as pessoas que não as seguem – há pastores/as que ameaçam as pessoas com o inferno com a maior facilidade.
Pior ainda, é frequente existir nas igrejas pessoas que se auto-elegem “vigilantes da moral e dos bons costumes” e ficam permanentemente fiscalizando as outras. E não é fácil enfrentar essas pessoas acusadoras, especialmente se surge algum problema.
Era exatamente assim que agiam os fariseus no tempo de Jesus: eles transformaram a religião judaica numa coisa legalista, tornando pecado até curar um doente no sábado. E os fariseus ficavam vigiando todo mundo à sua volta, apontando o dedo acusador para quem entendiam estar em pecado.
Jesus travou uma longa batalha de ideias contra os fariseus, mostrando que essa religião estava alienando as pessoas, afastando-as de Deus e, de certa forma, incentivando-as a serem hipócritas. E é exatamente isso que se deve dizer a respeito das igrejas cristãs que se tornam legalistas e fiscalizadoras da vida dos frequentadores/as.
O tratamento de “rebanho”
Outra questão que torna os aeroportos tão desagradáveis hoje em dia é que as pessoas são tratadas ali como um “rebanho”, tangido daqui para ali. Todo mundo tem que passar pelos mesmos controles, esperar nos mesmos lugares e entrar na mesma hora, com exceção de alguns pequenos privilégios para gestantes, crianças e idosos. 
Seres humanos não gostam de ser tratados assim. Elas preferem ver suas individualidades e necessidades específicas levadas em conta.

Infelizmente, a maioria das igrejas atua da mesma forma que os aeroportos: tudo nelas é pré-estabelecido e rígido, até os momentos de oração. Existe uma programação para ser cumprida e todo mundo precisa segui-la, não importa suas necessidades individuais.

Já conversei com lideranças de diferentes igrejas sobre essa questão e sempre ouvi que não é possível fazer as coisas de forma diferente, pois os recursos são limitados. Mas preste atenção: Há um tipo de organização que consegue individualizar o tratamento dado às pessoas, mesmo com recursos limitados. Refiro-me aos hospitais.

Não faria sentido uma médica aparecer na emergência de um hospital particular e dizer para todos/as os/as pacientes esperando por atendimento ali: “Dentro de meia hora vamos começar a dar a mesma medicação para todo mundo“. Ninguém aceitaria porque o atendimento hospitalar, por definição, precisa ser individualizado. 

Por que, então, aceitamos tratamento impessoal nas igrejas? Afinal, todo domingo, há em qualquer comunidade cristã algumas pessoas “doentes” espiritual e/ou emocionalmente, que precisam de atenção individual e não conseguem receber.

E a forma de resolver essa questão não é tão difícil como parece. Começa por decidir que o atendimento personalizado é uma prioridade e as atividades devem ser organizadas com esse objetivo em mente. Pode existir um “pronto socorro” espiritual para atender emergências e devem ser treinadas lideranças leigas para auxiliar os/as pastores/as, seguindo o exemplo de Jesus, que preparou diversos discípulos. E há várias outras providencias nessa mesma linha.

A exigência de adesão completa
Outro problema muito comum é a exigência de que as pessoas adotem integralmente o “pacote” doutrinário pregado pela denominação à qual pertencem, sob pena de serem rejeitadas.
Um tipo de organização que também lida com a questão da fidelidade às ideias é o partido político – se você se filia num deles é porque, em princípio, acredita e apoia as ideias defendidas ali. 
Agora, mesmo nos partidos políticos, o que é cobrado na prática não é a adesão total às ideias e sim a fidelidade às decisões partidárias. Por exemplo, se houver orientação partidária para os/as deputados/as da bancada na Câmara Federal votarem de determinada forma, todos/as precisam seguir essa determinação.
Mas, repare, é preservado o direito desses/as deputados/as de discordar e lutar pelos seus pontos de vista dentro do partido, durante o debate político que precede cada votação.
E porque as igrejas não podem agir de forma semelhante, preservando algum espaço para ideias divergentes? Por que uns poucos “luminares” podem decidir por todas as demais pessoas e quem discordar torna-se rebelde e/ou pecador/a?
Certa vez uma denominação evangélica perdeu seu líder e fundador. E assumiu seu lugar o filho do líder morto, o que já não me parece uma coisa boa. Mas, deixando isso de lado, o novo líder decidiu, seguindo sua própria convicção teológica, que a denominação não podia mais ter pastoras ordenadas. E isso gerou um enorme problema para várias mulheres que vinham servindo a Deus naquela denominação.
Evidentemente precisa haver uma disciplina doutrinária dentro das igrejas, pois se cada pessoa praticar livremente o que lhe der na mente, vira bagunça. Mas é preciso haver espaço para discutir ideias e para acomodar pessoas que pensem de forma um pouco diferente. 
O desvio do foco
Uma lâmpada gera tanto calor quanto luz. O calor é indesejado, mas acaba aparecendo no processo de gerar a luz. As lâmpadas mais eficientes (p. ex. as frias) são aquelas que transformam a maior parte da energia elétrica em luz, minimizando o calor.
Há organizações que são pouco eficientes, pois geram mais “calor” do que “luz”. Um bom exemplo é, de forma geral, o serviço público no Brasil – uma parte importante dos recursos se perde na ineficiência da máquina por falta de treinamento das pessoas, infraestrutura inadequada, desinteresse, corrupção, etc. Gasta-se muito dinheiro para se obter resultado final pouco expressivo.
Existem igrejas que também são assim: Tornam-se ineficientes por causa da sua estrutura complexa, burocracia excessiva, concentração de poder, etc. Acabam desperdiçando seu “capital espiritual”.
Um exemplo clássico é a igreja católica, com a enorme burocracia e os problemas de comportamento da Cúria Romana, instalada no Vaticano. Mas há diversas denominações evangélicas que sofrem do mesmo mal, no afã de ter controle de tudo e fazer tudo certinho e acabam produzindo pouco resultado em termos de vida salvas, no atendimento de pessoas necessitadas, etc.
Nunca podemos esquecer que Jesus conseguiu resultados fantásticos usando estrutura muito simples (um punhado de discípulos/as). O mesmo aconteceu com o apóstolo Paulo.  
Palavras finais
Igrejas acolhedoras e produtivas não podem gerar ansiedade, precisam tratar adequadamente a individualidade dos/as frequentadores/as, não podem exigir adesão ideológica completa à sua visão teológica, porque seria a única forma de ir para o céu e muito menos gastar boa parte dos seus recursos e tempo em questões burocráticas e internas. 
Se sua igreja sofre de um ou mais desses problemas, você precisa olhar com atenção se está frequentando o lugar certo. Se você ainda não tem igreja, e procura uma, preste atenção nesses sinais, antes de escolher. E nunca desanime de procurar, pois certamente há comunidades que conseguem lidar bem com a maioria dessas questões, tornando-se fonte de luz para o mundo.

Com carinho    

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