OS MOTORES DA VIDA CRISTÃ

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O tema hoje fala dos motores da vida cristão. E vou começar lembrando que o cristianismo é definido e movido pela graça de Deus. E a graça de Deus se faz presente porque o amor dele por nós é incondicional e esse amor tem relação direta com a própria natureza divina e não com o que fazemos ou deixamos de fazer. O amor de Deus por nós não é uma retribuição ao nosso amor por Ele. O amor de Deus simplesmente existe…

Agora, infelizmente, na prática não é a percepção da graça de Deus que costuma mover as práticas religiosas diárias da maioria dos cristãos. A graça deveria ser o motor da vida cristã, mas, na prática, não é isso que costuma acontecer. 

Os motores reais da vida cristã costumam ser coisas como, por exemplo, o medo. As pessoas sentem culpa por terem agido de forma errada (terem pecado) e ficam com medo de serem punidas por Deus. Aí tentam encontrar uma forma de “aplacar” Deus para evitar a justa punição. E fazem qualquer coisa que lhes pareça estar contribuindo para esse objetivo: penitência, jejum, retiro, etc.

Elas se esquecem que não é assim que Deus quer se relacionar com o pecador. Ele espera do pecador arrependimento verdadeiro e um coração humilde. Quer ver no pecador uma tentativa real de mudança de vida, para não reincidir nos pecados. E para quem se arrepende de fato, Deus oferece sua graça e seu perdão incondicional.

É interessante perceber que a grande maioria dos cristãos nunca consegue superar esse medo infantil de Deus. Nunca vão além da percepção que Deus fica vigiando e controlando continuamente todo mundo, como se a humanidade vivesse num grande programa do tipo “Big Brother Brasil”.

Ao invés de se sentir assim, as pessoas deveriam caminhar pela vida aliviadas e agradecidas pelo que Deus já fez por nós, através da morte de Jesus Cristo, na cruz. 

Outro dos motores das práticas religiosas cristãs costuma ser o legalismo, ou seja, a exigência de obediência cega a determinadas regras de vida impostas pela liderança religiosa. Essa a religião do “não” (“não pode fazer isso ou aquilo“). E ela também costuma fazer uso do “motor” do medo: quem não se comporta como é estabelecido, é passível de crítica e ameaçado com o castigo divino. A maior parte das perguntas e comentários que recebo neste site tem o legalismo e o medo como pontos de partida.

Esse tipo de religião acaba submetendo as pessoas a um grande esquema de controle. No topo desse esquema ficam os líderes religiosos – pastores/as e outras pessoas – e abaixo os fiéis. E era exatamente assim que a religião judaica fazia no tempo de Jesus: ficavam no topo os sacerdotes, os escribas e os fariseus, enquanto mais baixo vinha a população. 

Jesus criticou muito o legalismo pois sabia o mal que ele causava à saúde espiritual das pessoas. Quando as pessoas procuravam Jesus para lhe perguntar como deviam agir no seu dia-a-dia, Ele não ditava normas de comportamento. Jesus contava parábolas, como a do “bom samaritano” (Lucas capítulo 10 versículos 25 a 37), apresentando os princípios práticos para uma vida santa e justa. E chamava as pessoas para refletirem sobre si mesmas e mudarem seu interior. 

E a razão para isso é simples: quando a mensagem cristã muda o interior da pessoas, ela pessoa passa automaticamente a fazer a vontade de Deus e não precisa de mais regras impostas sobre sua vida. Ela não precisa se tornar prisioneira do legalismo. 

Um terceiro dentre os motores que costuma estar presente na vida religiosa das pessoas é a necessidade. As pessoas buscam Deus para conseguir aquilo de que precisam: saúde, emprego, relacionamento emocional, bens materiais, etc. E quanto mais precisam, maior costuma ser sua dedicação a Deus. 

Aproximar-se de Deus para conseguir bençãos é subverter o caminho da graça. Na verdade, Deus até nos incentiva a busca bênçãos, mas essa não pode ser a razão para estabelecer um relacionamento com Ele, ou seja, a religião não pode ter como base o interesse. 

As bençãos virão e Deus se alegra em distribui-las. Afinal, qual é o Pai que não se alegra de presentear os filhos. Mas a busca pelas bênçãos nunca pode ser o “motor” do relacionamento com Deus.  

Vale a pena citar ainda um último motor que costuma estra presente nas práticas religiosas: a busca por mérito. Muitas pessoas buscam fazer boas obras para acumular mérito junto a Deus e acabarem recompensadas por conta disso.

Esse é um caminho parecido com o anterior, só que aqui a pessoa tenta “comprar” a benção através do mérito acumulado. É como se elas abrissem uma conta de poupança no céu, cujo saldo reverterá em bençãos.

Essa é a base da chamada Teologia da Prosperidade, que pode ser resumida de forma simples: “é dando que se recebe“. É essa a lógica que está por trás de muitos propósitos que as pessoas fazem – se privam de algo para “ativar” a graça de Deus. Não estou aqui dizendo que propósitos sejam errados em si mesmos e sim que fazê-los com o objetivo de receber algo não tem qualquer respaldo bíblico.

Se Deus aceitasse a troca – mérito por bençãos – estaria reconhecendo que sua graça depende do merecimento das pessoas. E se a graça tivesse um preço, já não seria mais algo que Deus dá livremente. 

As pessoas podem e devem sim fazer obras no Reino de Deus mas nunca visando receber pagamento por elas. Sua motivação precisa ser a gratidão pelo que Deus já fez, através de Jesus, e em reconhecimento do amor dele. Afinal, é um privilégio ser usado como instrumento por Deus para levar adiante sua obra. 

Medo, legalismo, necessidade e busca por mérito são os motores que costumam mover as práticas religiosas das pessoas. Basta olhar ao seu redor, na igreja que você frequenta, e vai perceber isso com clareza. Não deveria ser assim, mas essa é a realidade.

Que Deus, na sua misericórdia, perdoe quando qualquer um/a de nós tentar seguir por esses caminhos. E que Ele transforme nossos corações para aprendermos a viver apenas motivados pela sua graça, que é plenamente suficiente.

Com carinho

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