MAS ONDE ESTAVA O ADÚLTERO?

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O Evangelho de João relata um fato na vida de Jesus que acho ter grande aplicação hoje em dia, pois trata da questão da justiça. Refiro-me ao caso da mulher que foi pega adulterando e acabou levada por uma turba de homens até Jesus. 

Ora, a lei de Israel determinava que, no caso de adultério, o/a adúltero/a deveria ser morto/a por apedrejamento. Por isso, os homens que levaram a mulher pecadora até Jesus, sedentos de sangue, só esperavam que Ele confirmasse a sentença para apedrejar aquela mulher. 

A reação de Jesus foi inesperada pois disse para aqueles homens o seguinte: “aquele dentre vós que estiver sem pecado, seja o primeiro que lhe atire pedra”. Os homens se entreolharam e percebendo que não tinham autoridade moral para executar a mulher pecadora, pois suas vidas também eram cheias de pecados. Envergonhados, foram embora, um a um, deixando a mulher em paz (João capítulo 8, versículos 1 a 11). 

O ensinamento tradicional desse texto se relaciona com a hipocrisia – os acusadores da mulher pecadora não tinham moral para passar qualquer tipo de julgamento pois também eram pecadores, talvez até maiores do que ela. Sua postura, portanto era hipócrita.  

Mas eu queria aqui lembrar de outro ensinamento que pode ser colhido nessa mesma passagem da Bíblia, que se refere à questão da justiça. E começo perguntando: onde estava o adúltero? O texto bíblico conta que apenas a mulher foi pega em flagrante delito, mas a mulher certamente não adulterou sozinha. Por que então o adúltero não foi massacrado junto com elaPor que ela teve que suportar sozinha toda a vergonha do ato de adultério?

A razão para isso me parece simples: naquela época, o homem era sempre a parte forte de qualquer história, pois a sociedade era muito machista. A corda simplesmente arrebentou do lado mais fraco: a mulher foi execrada publicamente enquanto o pecador nada sofreu. Provavelmente, aqueles homens atribuíram a ela toda a culpa pelo que aconteceu.

E continuamos a ver esse mesmo tipo de injustiça – quando o mais fraco acaba sendo penalizado de forma desproporcional –  até os dias de hoje. Por exemplo, o ladrão de galinhas é pego rapidamente, preso e condenado, enquanto políticos e empresários corruptos, protegidos por legiões de advogados caríssimos, poucas vezes pagam pelos seus crimes. 

Uns 20 anos atrás, conheci o caso da esposa de um homem importante, que era muito apaixonada por seu marido, tendo inclusive deixado sua carreira de modelo para acompanhá-lo aonde ele ia. Ao se ver às voltas com a traição dele, desesperada, sem esperanças de recuperar o homem amado, ela se matou. E a imprensa da época noticiou apenas o desequilíbrio emocional dela – o que certamente era um fato – mas nunca citou o adultério que tinha detonado a tragédia. Meses depois, o viúvo se casou com a amante e continuou a viver muito bem por muito tempo, sempre presente nas colunas sociais dos jornais. 

Quando enchentes causam deslizamentos nas encostas dos morros, as pessoas pobres que moram ali são muitas vezes apresentadas pela mídia como irresponsáveis. A mídia aponta que ninguém deveria morar num lugar sabidamente perigoso. Não deixa de haver alguma verdade nessa declaração, mas o que não é apontado é que as pessoas moram em local perigoso pois não têm recursos para morar em outro local. Enquanto isso, as autoridades públicas, que deixam de usar as verbas de combate a enchentes para diminuir o risco das encostas, e gastam milhões com propaganda dos seus próprios governos, continuam vivendo como se nada tivessem que ver com essas tragédias. E tudo continua igual, até a próxima enchente. 

Infelizmente isso não acontece só no mundo secular. É possível ver o mesmo problema em muitas igrejas cristãs. Por exemplo, tempos atrás, uma moça, nova convertida, escreveu para o site para contar sua experiência. Ela cometeu adultério com o pastor da sua igreja, que a estava “discipulando”. Depois de cometido o ato, o pastor disse para a moça que ela era a “tentação que Satanás tinha enviado para desencaminhá-lo”. A moça entrou em surto e desesperada escreveu para pedir socorro.

Sem dúvida a moça errou, mas o pastor – homem que tinha obrigação de manter um comportamento correto, pelo ministério que desempenha – errou ainda mais. E ele nunca poderia, para se justificar, jogar toda a culpa na moça, abusando da sua autoridade espiritual. 

Há pastores que só pensam em tirar proveito material da sua posição, mas não podem ser criticados porque são “ungidos” do Senhor. Já conheci muitas beatas fofoqueiras que eram desculpadas porque prestavam serviços à obra de Deus e tinham “bom coração”. E há muitos outros exemplos, como padres pedófilos protegidos pela hierarquia da Igreja Católica ou os/as “voluntários/as” que trabalham em instituições de assistência social não para ajudar o próximo e sim para ajudar a si mesmos/as. 

Nós, cristãos/ãs, não podemos entrar nesse tipo de “jogo”, onde os erros das pessoas mais fracas são expostos, enquanto as pessoas poderosas têm caminho livre. Portanto, quando perceber algo errado, posicione-se contra o mal feito com clareza, não importa quem esteja por trás desse ato. Foi assim que Jesus agiu quando criticou inclusive os poderosos do seu tempo e defendeu as pessoas mais fracas. Vamos seguir o exemplo de Jesus.

Com carinho

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