O ÚLTIMO NATAL DE MARIA

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Texto de ficção apoiado nos relatos da Bíblia

Sentada à porta da sua casa, seus dedos hábeis teciam uma nova túnica para seu filho. Sua mente estava longe, bem longe, nos fatos ocorridos quase trinta anos antes.

Ela ainda era uma garota, com apenas quatorze anos. Todos diziam que era bonita e por isso já estava até noiva de José, homem bom, temente a Deus e respeitado na sua comunidade.

Inesperadamente uma figura parecida com um homem, usando trajes resplandecentes, lhe apareceu e disse  chamar-se Gabriel. Era um mensageiro do Deus Altíssimo que ali estava para trazer-lhe uma notícia maravilhosa: ela seria fecundada pela semente do próprio Deus e daria à luz um filho, que haveria de ser o tão esperado Messias.

Quando percebeu que estava grávida, passou a enfrentar um grande problema: como explicar sua situação? Todos sabiam que seu noivo ainda não tinha estado com ela, seguindo o costume. Alegar que tinha sido fecundada pelo próprio Deus seria cair no ridículo. Ninguém iria acreditar nela. Alías ninguém acreditava mesmo no que as mulheres afirmavam.

Felizmente José veio em seu auxílio e evitou que fosse punida. Não somente aceitou a situação (falou algo a respeito de um sonho), escolheu o nome da criança, como defendeu sua noiva perante todos. E, o mais importante, casou-se com ela, tornando-se o pai de Jesus diante da Lei.

Mas as fofocas nunca cessaram totalmente e voltaram com mais força depois da morte do seu marido, pois ele não estava mais ali para defendê-la com a força da sua autoridade. Recentemente passaram a identificar seu filho apenas como “filho de Maria”, como se José não fosse seu pai legal. Ela sabia que no íntimo Jesus sofria com isso, mas nada podia fazer.

Seu pensamento voltou para o final da sua gravidez, quando chegou a terrível notícia do recenseamento e da necessidade de irem até Belém da Judeia para se cadastrar. Ela estava pesada e não tinha mais posição para dormir. Não seria fácil viajar de Nazaré até Belém por estradas esburacadas e enlameadas. José fez o melhor que pode, arrumando emprestado um burrico, para que ela viajasse sentada, sem precisar caminhar.

Foram vários dias de viagem num terrível desconforto. Ela não sabia como Jesus não nascera durante o trajeto. Quando chegaram a Belém, ela estava morta de cansaço, tinha fome e frio. E a dorzinha no ventre, que vinha sentindo nas últimas horas, aumentara bastante.

Precisavam conseguir logo um lugar para ficar. José saiu perguntando para todos. Qualquer lugar serviria. Mas não encontraram nada, pois as hospedarias estavam todas ocupadas pelos viajantes que tinham vindo a Belém por causa do recenseamento.

Afinal, um dono de hospedaria, com pena dela, permitiu que ficassem no estábulo, junto com os animais. O lugar era escuro, muito sujo e o cheiro horrível. Mas não havia o que fazer. Pelo menos não ficariam ao relento, na noite fria.

As dores começaram a vir em intervalos regulares. Parecia que seu ventre ia rasgar. E ela entendeu que a hora chegara. Seu coração tinha uma ponta de tristeza por saber que seu filho viria ao mundo naquele lugar tão feio. Ele merecia coisa melhor, muito melhor.

Não havia nenhuma parteira disponível e José teve que ajudar. Os partos eram arriscados e as mulheres sempre corriam risco de vida. Muita coisa podia dar errado, tanto com ela como com o bebê. Mas ela não tinha medo, pois confiava cegamente no Deus Altíssimo.

Perto da meia noite o bebê enfim nasceu. Foi um parto difícil, mas não dos piores. O bebê estava bem e era saudável.

Esgotada pela viagem e pelo parto, ela mal tinha forças para abrir os olhos. Mas pegou o bebê, enrolou-o em faixas, como era tradição, e o colocou no cocho onde os animais comiam. Não era um bom lugar, mas era o melhor que tinham.

Como por milagre, os animais ficaram imediatamente quietos e não reclamaram de perder seu lugar de comer. E ela e o bebê puderam dormir por umas poucas horas.

Quando acordou, José lhe contou que havia uma estrela nova no céu, que estava exatamente sobre Belém. Era um fato extraordinário e todos estavam dizendo que um rei havia nascido.

Logo depois chegaram uns pastores. Contaram que tinham recebido uma mensagem vinda do Deus Altíssimo, que o Messias estaria ali, deitado num cocho. Entraram no estábulo, mas nem se atreveram a chegar perto. E adoraram o menino de longe mesmo.

José ficou muito confuso com aquilo, pois não era adequado para um judeu adorar outro ser humano, muito menos um simples bebê. Já ela disfarçou um sorriso, tendo a mensagem do anjo Gabriel ainda bem viva na sua mente.

Quando os pastores saíram, ela aconchegou seu flho ao seio e lhe deu alimento pela primeira vez. O bebê comeu gulosamente e depois voltou a dormir em paz. Ela nunca esqueceria aquele momento, quando ela e Jesus dividiram uma intimidade somente reservado às mães e seus filhos.

Seus pensamentos voltaram ao presente, quase trinta anos depois. Os dedos teciam automaticamente e a túnica já estava quase pronta. Era uma túnica especial, pois não teria qualquer costura, já que fora tecida como peça única. Decidira tecê-la pouco dias antes, por causa do aniversário de Jesus. Seria seu presente para Ele.

Sabia que Ele iria partir em breve, chamado pelo Deus Altíssimo para desenvolver sua missão. E a túnica que ela tecia iria sempre envolvê-lo com seu amor de mãe. Iria aquecê-lo no inverno e mantê-lo sempre bem apresentável. Era feita da melhor lã e iria durar bastante, mesmo com uso diário.

A comemoração do aniversário seria dali há dois dias. O último aniversário comemorado em família. Por isso precisaria ser especial. Dando um suspiro, afastou aqueles pensamentos da mente. Tinha muito serviço para fazer. Queria ainda preparar a comida que Ele mais gostava. Era seu papel de mulher e de mãe.

Com carinho

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