O SÁBADO E O QUARTO MANDAMENTO

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Lembra do dia do sábado para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o shabbat do Senhor teu Deus… Êxodo capítulo 20, versículos 8 a 10

A santificação do sábado é a ordenança de Deus que provavelmente mais gera discussões dentre os Dez Mandamentos. E há duas questões diferentes envolvidas nesses debates: i) qual é o dia da semana que precisa ser preservado e ii) qual é o significado de “santificar” o sábado. 

A qual dia da semana o mandamento se aplica?
O livro do Gênesis no capítulo 1 diz que o mundo foi criado em seis dias e que no sétimo dia Deus descansou. Por causa disso, o último dia da semana foi considerado santo (separado) por Ele.

Agora, não se pode esquecer que, quando o Gênesis descreveu a criação do mundo, era natural que o texto usasse, para compor a narrativa, as referencias de tempo mais conhecidas, ou seja, o “dia” e a “semana”. Afinal, dias e semanas sempre foram facilmente observados pelo movimento do sol e pelas fases da lua. 

As interpretações mais aceitas do primeiro capítulo do Gênesis não consideram que esse texto fala realmente de sete dias de 24 horas. A referência feita nele seria simbólica. Portanto, a citação ao sábado feita no relato da criação não se refere ao dia que hoje conhecemos por esse nome. 

Portanto, a discussão para saber qual dia da semana melhor caracteriza aquele que Deus separou para ser santificado – por exemplo, sábado ou domingo – não faz muito sentido. A única coisa que o relato do Gênesis permite mesmo mesmo afirmar é que Deus estabeleceu um dia da semana para ser santificado. Nada mais.

E os judeus não estão errados em seguir o mandamento contando os seus sábados com o mesmo critério que vêm usando desde tempos imemoriais – o sábado judaico começa ao cair do sol da nossa sexta feira e termina ao cair do sol do dia seguinte. Como também não estão errados os cristãos, ao considerar o domingo santificado, como homenagem ao dia da semana em que Jesus ressuscitou (ver Atos capítulo 20, versículo 7). 

A escolha por um dia ou outro é essencialmente uma questão de tradição e acredito que cada um pode seguir a tradição que preferir, sem violar o mandamento de Deus. 

O que é santificar o sábado?
A palavra hebraica “shabbat” quer dizer “dia separado para descanso”. E esse foi o objetivo de Deus: estabelecer um dia no qual as pessoas não trabalhassem, para que não se transformassem em verdadeiros animais de carga, trabalhando todos os dias do ano.

Deus estabeleceu a necessidade de haver um tempo para conviver em família, criar arte, conversar e, sobretudo, para se relacionar com Ele. E, para que esse dia de descanso fosse respeitado, Ele estabeleceu isso num mandamento – essa foi a razão para o quarto dentre os Dez Mandamentos. 

E a prescrição de um dia para descanso acabou migrando da prática religiosa para a legislação civil e, hoje, as leis trabalhistas de quase todos os países civilizados estabelecem pelo menos um dia de descanso por semana. 

Agora, o mandamento original dizia que não se podia trabalhar no dia santificado (separado). E aí surgiu uma discussão entre os judeus sobre qual seria o significado de “trabalho” nessa situação. Cozinhar seria trabalhar? Afinal, para a mulher que passava a semana cozinhando, certamente seria sim trabalho. E nasceu aí a proibição dos judeus cozinharem nesse dia.

Mas, e caminhar, seria isso trabalho? É claro que andar dentro de casa não seria trabalhar, mas andar entre uma cidade e outra talvez fosse. E aí passou a ser proibido caminhar mais do que determinada distância no sábado. 

E assim, pouco ao pouco, os judeus foram estabelecendo leis que passaram a regular tudo o que se poderia ou não fazer no sábado. E, para piorar as coisas, surgiram as chamadas “leis de cerca”, regras que tornaram as exigências ainda maiores para trazer garantia absoluta que o mandamento não fosse violado.

Por exemplo, se a distância limite que se poderia andar no sábado tivesse sido, digamos, estabelecida em 2 km, a lei de “cerca de cerca” cortaria a distância permitida à metade, para que o mandamento não fosse violado, mesmo que alguém se atrapalhasse ao medir a distância caminhada nesse dia da semana. 

E, ao longo dessas discussões constantes, os judeus criaram cerca de 60 leis caracterizando aquilo que era ou não permitido fazer no sábado. E esse dia da semana acabou se tornando um motivo de ansiedade, ao invés de um período para relaxamento. Foi aí que Jesus interveio e alertou para o erro cometido, quando disse, em Marcos capítulo 2, versículo 27:

o sábado foi estabelecido por causa do homem e não o homem por causa do sábado.

Em outras palavras, o sábado foi feito para preservar a dignidade das pessoas, impedindo que elas só trabalhassem. O sábado foi estabelecido principalmente para dar-lhes condição de manter um relacionamento criativo com Deus. Mas, definitivamente, o sábado não foi estabelecido para se tornar um fim em si mesmo e escravizar as pessoas num emaranhado de regras. 

Santificar o sábado é reservar um dia da semana para aproveitar a vida em família, relaxar e, sobretudo, para estar na presença de Deus – louvando, ouvindo sua Palavra e orando. O que passar disso, foge do espírito do mandamento.

Com carinho

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