O QUE PESA MAIS: CONVICÇÃO OU DESEJO?

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Convicção ou desejo? O que costuma pesar mais na vida? A verdade é que essas duas coisas costumam determinar os caminhos de qualquer pessoa. As convicções são baseadas naquilo que a pessoa acredita de fato, nas suas crenças verdadeiras. Por exemplo, convicções políticas e religiosas costumam ser muito fortes. 

Convicções costumam definir o caminho de uma pessoa porque estabelecem seus objetivos na vida e o que lhe é permitido (ou não) fazer. Por exemplo, ao tornar-se cristã, a pessoa adquire uma série de crenças (tais como, Jesus morreu é seu Salvador), mas também precisa assumir o compromisso de passar a agir com base nessas crenças. O amor ao próximo é um compromisso desse tipo.

Já os desejos têm a ver com aquilo que a pessoa acha que precisa e/ou quer. Desejos podem ter origem física (comida, abrigo ou sexo) ou serem gerados pelo ambiente social (p. ex. consumir ou ter status e poder). Assim, como as convicções, os desejos também definem, em boa parte, os objetivos e as ações da pessoa ao longo da sua vida. Por exemplo, o desejo de ter riqueza poderá fazer a pessoa colocar suas atividades profissionais antes de qualquer coisa e negligenciar a própria família. Ou ainda pior, deixar de lado sua consciência e embarcar em atos de corrupção, como aconteceu com tantos empresários no Brasil pegos pela operação Lava a Jato..

Desejos e convicções, operando em conjunto, acabam por definir como a pessoa conduz sua vida – onde ela investe seu tempo, o que faz na prática e até a medida pela qual se auto-avalia, como uma pessoa de sucesso ou uma fracassada. 

Agora, há uma tensão permanente entre convicções e desejos, pois nem sempre eles apontam na mesma direção. Por exemplo, a necessidade de ter dinheiro e status pode empurrar a pessoa para o egoismo, enquanto sua fé cristã vai lhe dizer para amar ao próximo e perdoar.

O fato é que frequentemente desejos e convicções entram em choque pois não podem ser ambos satisfeitas em igual medida. Torna-se necessário fazer escolhas dolorosas. Ou a pessoa segue suas convicções e deixa de lado seus desejos ou faz o contrário. Por exemplo, um cristão não pode se entregar livremente às suas vontades sexuais, pois há limites morais que ele precisa respeitar. O mesmo pode ser dito do desejo de ter poder, da vontade de consumir e de tantas outras coisas. A vida do/a cristão/ã significa sempre impor limites aos seus desejos. Simples assim.

O ensinamento da Bíblia não deixa nenhuma dúvida: o/a cristão/ã precisa colocar suas convicções na frente dos seus desejos. E também não deixa dúvida que, ao se deixar guiar pelas suas convicções, a pessoa precisará fazer sacrifícios. Por isso Jesus disse que o caminho para a salvação é estreito e difícil, enquanto a estrada para a perdição é larga e fácil. Em outras palavras, é sempre mais fácil e gostoso se deixar levar pelos desejos, satisfazer as próprias vontades. Privar-se daquilo que dá prazer, sempre significa sacrifício.

A luta do/a cristão/ã não é simples – é exatamente por isso que esse site se chama “o desafio de ser cristão”. A natureza humana empurra a pessoa para satisfazer seus desejos, enquanto o Espírito Santo lhe sopra no ouvido e incentiva a pessoa a privilegiar suas convicções cristãs. É uma luta diária – a pessoa vence num dia e perde no outro, aí se arrepende, é perdoada por Deus e volta a lutar.  

O grande perigo nessa luta aparece quando a pessoa se deixa auto-enganar: de alguma forma “cala” a sua consciência encontrando o que parecem ser “boas” desculpas tanto para o que faz, como para o que deixa de fazer.

Por exemplo, a pessoa se convence que é boa, pois não comete crimes graves, como matar ou roubar e considera seus desejos justos e/ou aceitáveis porque ela “merece”, ou “só vai fazer a coisa errada por pouco tempo“, ou ainda sua ação “não parece tão ruim assim“. 

A pessoa que age assim acaba sendo levada pelos desejos e vai deixando suas convicções cristãs pouco a pouco para trás. É assim que a pessoa se deixa dominar pelo egoísmo, pela indiferença quanto ao sofrimento do próximo, pela falta de comprometimento com a obra de Deus, etc.

Acho que todo mundo – e eu me incluo nesse rol já fez ou ainda faz isso em alguma medida. É um tipo de comportamento bem humano. E quanto mais a pessoa faz isso, mais vai se deixando dominar pelos próprios desejos e mais se afastando de Deus.

Há um fato histórico que exemplifica bem o dilema entre convicção e desejo. O rei Henrique VIII – aquele que teve seis mulheres e mandou matar várias delas – tinha um grande amigo de juventude, Thomas Becket. Como era amigo do rei, Becket ocupou vários cargos importantes, até ser nomeado Arcebispo de Canterbury (o cargo mais importante na igreja da Inglaterra). 

Quando Henrique quis se divorciar de sua esposa (Catarina) para se casar com uma mulher muito mais jovem (Ana Bolena), precisava anular o casamento anterior, pois na época não havia divórcio. E recorreu a todos os expedientes possíveis, para conseguir isso, muitos deles até criminosos. Em dado momento, o rei quis forçar seu amigo a tomar medidas que eram erradas, com base nas convicções que Becket tinha. E o amigo se recusou a obedecer. Resistiu e acabou assassinado por ordem do rei – morreu na escadaria da Catedral onde era arcebispo.

Becket entrou para a história como um homem que não se deixou corromper e até hoje é considerado como um exemplo a ser seguido – quem tiver interesse nessa história, recomendo ver o filme “O homem que não vendeu sua alma“. 

Um outro exemplo interessante vem do Brasil: tempos atrás foi divulgado o relatório da “Comissão da Verdade”, que apurou os abusos contra os direitos humanos cometidos no tempo da Ditadura Militar. Nesse documento são relatadas histórias impressionantes e me surpreendeu muito ler que padres, pastores e bispos denunciaram paroquianos seus como comunistas para ficar bem com o Governo Militar. Infelizmente, houve casos até dentro da igreja que frequento, a Metodista, para minha grande tristeza.

Esses homens traíram suas consciências e acabaram tendo seus erros expostos publicamente, passando a ter sua memória manchada para sempre. Escolheram deixar suas convicções cristãs de lado, fizeram outras pessoas sofrer e acabaram também pagando um preço muito caro por isso.

Com carinho  

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