O MEDO QUE PARALISA

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Há um tipo de medo que paralisa. Ele acontece quando a pessoa se sente intimidada por outras pessoas e fica inibida, sem ação. Meio que “congela” e não consegue fazer nada. Esse medo paralisa mesmo.

Um bom exemplo é o profeta Elias, quando foi intimidado pela rainha Jezebel. O mais interessante nesse caso é que a intimidação de Elias aconteceu depois que ele realizou seu maior milagre, ao enfrentar sozinho 400 profetas de Baal, no monte Carmelo, quando desceu fogo do céu para consumir seu sacrifício. Logo após esse milagre, a rainha Jezebel ficou inconformada com a derrota dos profetas de Baal e ameaçou Elias – veja 1 Reis 9:2-10:

Por isso Jezabel mandou um mensageiro a Elias para dizer-lhe: “Que os deuses me castiguem com todo o rigor, caso amanhã nesta hora eu não faça com a sua vida o que você fez com a deles”. Elias teve medo e fugiu para salvar a vida… e entrou no deserto, caminhando um dia. Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. “Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados.” Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu. De repente um anjo tocou nele e disse: “Levante-se e coma”.

Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeça, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo. O anjo do Senhor voltou, tocou nele e disse: “Levante-se e coma, pois a sua viagem será muito longa”. Então ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida, viajou quarenta dias e quarenta noites, até que chegou a Horebe, o monte de Deus. Ali entrou numa caverna e passou a noite. E a palavra do Senhor veio a ele: “O que você está fazendo aqui, Elias?” Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

Elias era um homem espiritualmente poderoso e não deveria ter dado muita bola para a ameaça de Jezebel. Mas, surpreendentemente, o profeta intimidou-se com a ameaça e entrou em pânico. Esqueceu-se de tudo que já tinha feito, ficou deprimido e fugiu para salvar a vida. Nesse processo, Elias teve o medo que paralisa, perdeu sua visão ministerial e sua autoridade espiritual. Foi preciso que Deus lhe mandasse ajuda, através do profeta Eliseu.

 Pedro também se deixou intimidar. Isso ocorreu quando o apóstolo estava sentado junto ao fogo, no pátio da casa do sumo-sacerdote, na noite em que Jesus foi preso – veja Lucas 22:54 a 62:

Então, prendendo Jesus, levaram-no para a casa do sumo sacerdote. Pedro os seguia à distância. Mas, quando acenderam um fogo no meio do pátio e se sentaram ao redor dele, Pedro sentou-se com eles. Uma criada o viu sentado ali à luz do fogo. Olhou fixamente para ele e disse: “Este homem estava com ele”. Mas ele negou: “Mulher, não o conheço”. Pouco depois, um homem o viu e disse: “Você também é um deles”. “Homem, não sou! “, respondeu Pedro. Cerca de uma hora mais tarde, outro afirmou: “Certamente este homem estava com ele, pois é galileu”. Pedro respondeu: “Homem, não sei do que você está falando! ” Falava ele ainda, quando o galo cantou. O Senhor voltou-se e olhou diretamente para Pedro. Então Pedro se lembrou da palavra que o Senhor lhe tinha dito: “Antes que o galo cante hoje, você me negará três vezes”. Saindo dali, chorou amargamente.

A intimidação, nesse segundo caso, foi velada. Não foi uma ameaça direta pois não havia nada de concreto contra Pedro. Mas, mesmo assim, o apóstolo também teve o medo que e fez algo muito ruim: negou Jesus para afastar a ameaça, esquecendo-se de todas as promessas que tinha feito de ter lealdade irrestrita a seu Mestre. Mais tarde, quando percebeu o que tinha feito, Pedro chorou amargamente. Ele precisou de tempo para poder recuperar seu ministério. Elias já não teve a mesma sorte, pois seu ministério nunca se recuperou de todo.

O apóstolo Paulo estava bem ciente do perigo que representa o medo que paralisa. E escreveu para Timóteo, seu filho na fé, para alertá-lo sobre isso. Timóteo era jovem, ainda pouco experiente no ministério, mas já tinha importantes tarefas a desempenhar na obra de Deus: pregar o Evangelho e pastorear igrejas. Veja o texto de 2 Timóteo 1:6-8:

Por essa razão, torno a lembrar-lhe que mantenha viva a chama do dom de Deus que está em você mediante a imposição das minhas mãos. Pois Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio. Portanto, não se envergonhe de testemunhar do Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro dele, mas suporte comigo os sofrimentos pelo evangelho, segundo o poder de Deus…

Paulo explicou que um dom espiritual não usado, acaba se apagando. Assim como um membro do corpo, quando fica sem uso, acaba se atrofiando. O medo que paralisa impede que a pessoa faça aquilo que sabe e pode fazer, inclusive na obra de Deus. Esse tipo de medo torna a pessoa covarde. Tira a coragem dela.

Repare que Paulo usou na sua carta a Timóteo a palavra “armadilha”, que tem o significado de “laço”. Esse era um recurso usado para aprisionar animais. Paulo estava alertando que se deixar intimidar é como cair num laço que aprisiona a própria vida.

Dons precisam ser usados com frequência e liberdade. Quando são postos à serviço de boas causas e ajudam a implantar o reino de Deus aqui na terra, eles frutificam e crescem. 

As táticas da intimidação
Você precisa aprender a reconhecer as táticas de intimidação. Aquelas que levam ao medo que paralisa. Elas são muito usadas no trabalho, nas relações sociais e até na família – conheci um chefe de família que vivia ameaçando a mulher e os filhos de abandoná-los, deixando-os em situação financeira difícil.

Há casos em que a ameaça não é tão clara assim, sendo feita de forma sutil. Uma abordagem comum é alegar que a pessoa sendo intimidada precisa deixar de fazer isso ou aquilo para seu “próprio bem”, ou seja, para evitar consequências ruins para sua vida.

São duas as táticas muito usadas para intimidar. Uma delas é ameaçar alguma retaliação, conforme o fazia o chefe de família ao qual me referi acima. Trata-se de chamar a atenção da pessoa que se quer intimidar para a possibilidade de ocorrer algo desagradável na vida delas, se não mudar seu comportamento. Foi isso que a rainha Jezebel fez com Elias.

Outra forma de intimidação é a confrontação. Boa parte das pessoas tem medo de ser questionada. Não gostam que lhes seja pedido justificativas para aquilo que pensam ou para suas ações. Por isso é muito comum as pessoas evitarem ter certas conversas dolorosas. Fogem até de tratar os problemas familiares abertamente

Já vi cristãos engasgarem quando questionados e serem chamados de otários por darem o dízimo, não conseguindo articular uma resposta. Bateu neles o medo que paralisa. E é importante lembrar que a Bíblia nos manda estar preparados para responder aos questionamentos sobre nossa fé – veja 1 Pedro 3:15:

…Estejam sempre preparados para responder a qualquer um que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.

A falta de fé em Deus não é a única razão para as pessoas se deixarem intimidar. E talvez você se surpreenda quando afirmo isso. É claro que esse é um fator importante e foi ele que causou a fuga de Elias e Pedro. Mas existem dois outros fatores de muito peso, que também levam ao medo que paralisa.

Um desses fatores é dar importância demasiada ao que as outras pessoas pensam, isto é, não querer ser criticado/a e/ou temer a rejeição. Aí é mais fácil ficar calado quando se é questionado.

O outro fator é a falta de convicção, a incerteza da pessoa de estar no caminho certo. Em outras palavras, ela não estabelece uma identidade cristã forte, em termos de ideias, valores e comportamentos abraçados. Quem não tem essa identidade forte, ao ser questionado/a, fica com dúvida se a eventual crítica não está correta. É isso que acontece, por exemplo, com os cristãos que não conseguem responder às críticas quanto ao dízimo.

Repare que esses fatores estão interligados. Quando se quer agradar os homens, geralmente não se consegue agradar a Deus. Quando não se tem certeza da própria relação com Deus, não é possível desenvolver fé e conseguir nele de forma absoluta. E por aí vai.

O ensinamento da Bíblia é que o importante mesmo é focar em Deus e procurar agradá-lo. Veja o Salmo 118:6: O Senhor está comigo, não temerei. O que me podem fazer os homens?

Foi assim que agiram Pedro e João, quando o Sinédrio tentou intimidá-los. Foi assim que eles enfrentaram o medo que paralisa. Veja (Atos 4:1-20):

Enquanto Pedro e João falavam ao povo, chegaram os sacerdotes, o capitão da guarda do templo e os saduceus. Eles estavam muito perturbados porque os apóstolos estavam ensinando o povo e proclamando em Jesus a ressurreição dos mortos. Agarraram Pedro e João e, como já estava anoitecendo, os colocaram na prisão até o dia seguinte…No dia seguinte, as autoridades, os líderes religiosos e os mestres da lei reuniram-se em Jerusalém. Estavam ali Anás, o sumo sacerdote, bem como Caifás, João, Alexandre e todos os que eram da família do sumo sacerdote.

Mandaram trazer Pedro e João diante deles e começaram a interrogá-los: “Com que poder ou em nome de quem vocês fizeram isso?” Então Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes: “Autoridades e líderes do povo! Visto que hoje somos chamados para prestar contas de um ato de bondade em favor de um aleijado, sendo interrogados acerca de como ele foi curado, saibam os senhores e todo o povo de Israel que por meio do nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem os senhores crucificaram, mas a quem Deus ressuscitou dos mortos, este homem está aí curado diante dos senhores. Este Jesus é ‘a pedra que vocês, construtores, rejeitaram, e que se tornou a pedra angular’. Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos”.

Vendo a coragem de Pedro e de João, e percebendo que eram homens comuns e sem instrução, ficaram admirados e reconheceram que eles haviam estado com Jesus. E como podiam ver ali com eles o homem que fora curado, nada podiam dizer contra eles. Assim, ordenaram que se retirassem do Sinédrio e começaram a discutir, perguntando: “Que faremos com esses homens? Todos os que moram em Jerusalém sabem que eles realizaram um milagre notório que não podemos negar. Todavia, para impedir que isso se espalhe ainda mais entre o povo, precisamos adverti-los de que não falem mais com ninguém sobre esse nome”. Então, chamando-os novamente, ordenaram-lhes que não falassem nem ensinassem em nome de Jesus. Mas Pedro e João responderam: “Julguem os senhores mesmos se é justo aos olhos de Deus obedecer aos senhores e não a Deus. Pois não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos”.

A intimidação que Pedro recebeu no pátio da casa do sumo-sacerdote foi menor do que essa outra. Mas, agora, Pedro não se deixou intimidar. Ele passou a ter certeza do seu lugar reino de Deus e não mais se preocupava com o que as pessoas pensavam dele. Assim, já não dava bola para ameaças. Tinha certeza de estar debaixo da proteção de Deus e sabia ter sido revestido de poder, depois da chegada do Espírito Santo (no Pentecoste).

A atitude dos apóstolos, nesse caso, ensina uma coisa outra importante. A forma de enfrentar uma tentativa de intimidação não é fugir. É fazer justamente o contrário: ir na direção da fonte da intimidação, na origem do medo que paralisa. Pedro e João enfrentaram o Sinédrio e explicaram abertamente que, para eles, era mais importante obedecer a Deus do que obedecer aos homens.

E essa é uma grande lição de vida para nós. Assim como os apóstolos, você também pode aprender a enfrentar o medo que paralisa.

Com carinho

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