O MEDO DE PERDER O CONTROLE

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O medo de perder o controle sobre a própria vida é muito comum. E existe um lado saudável no esforço de manter as coisas sob controle, pois isso as pessoas a anteciparem problemas, planejarem o que vão fazer, cuidarem dos detalhes da execução e assim por diante. Ou seja, esse esforço leva à minimização de problemas e à maximização de resultados obtidos.

Mas, com muita frequência, o medo de perder o controle se torna prejudicial e gera consequências nocivas, como a mania de perfeição e o desconforto com mudanças não previstas. E, como as circunstâncias da vida nunca se submetem ao tipo de controle que as pessoas gostariam de ter, os problemas acabam por aparecer e isso gera medo e sofrimento.

Com efeito, as pessoas fazem planos de vida e veem esses planos frustrados inesperadamente e e por razões totalmente fora do seu controle. Outro dia eu li a história de um americano aposentado e com boa situação financeira na vida. Ele deu um depoimento para um canal de televisão dizendo que sua vida estava boa e que se sentia recompensado pelos esforços feitos para atingir aquela situação. E pretendia aproveitar longos anos de aposentadoria, curtindo sua família e o tipo de lazer que gostava. Uma semana depois desse depoimento, um furacão matou toda a família do seu filho e a vida desse homem mudou radicalmente. O seu planejamento se frustrou apesar de todo o seu esforço.

Jesus também falou sobre falta de controle sobre a vida (Lucas 12:16-20):

Então lhes contou esta parábola: “A terra de certo homem rico produziu muito bem. Ele pensou consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde armazenar minha colheita’. “Então disse: ‘Já sei o que vou fazer. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros maiores, e ali guardarei toda a minha safra e todos os meus bens. E direi a mim mesmo: Você tem grande quantidade de bens, armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e alegre-se’. “Contudo, Deus lhe disse: ‘Insensato! Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida. Então, quem ficará com o que você preparou?

As mudanças inesperadas geram medo de perder o controle e sofrimento. É interessante observar que o problema não são as mudanças em si e sim o fato delas serem inesperadas. Afinal, as pessoas não costumam ter problema com mudanças que já esperam. Um bom exemplo é a mudança de estações. Sabemos que vamos sentir frio numa época e calor em outra. Numa época vai chover e na outra haverá seca. E ninguém se sente ameaçado por isso. O problema são as mudanças imprevisíveis, que pegam as pessoas totalmente de surpresa.

Existe um excelente exemplo desse tipo de situação na vida dos apóstolos de Jesus.  Seu mestre, nos últimos dias da sua, vida terrena, estava no auge da popularidade. Tanto era assim que, no domingo que abriu a última semana de vida de Jesus, apelidado de Domingo de Ramos, Ele entrou em Jerusalém e foi saudado por uma multidão como o libertador de Israel. O povo via Jesus como o Messias tão esperado, aquele que viria libertá-los do jugo Romano. E os apóstolos estavam tão convencidos disso que já disputavam entre si qual viria a ser o mais importante e iria ocupar o lugar de honra junto a Jesus no novo reino. Vejam o relato bíblico em Marcos 10:35-38:

Nisso Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se dele e disseram: “Mestre, queremos que nos faças o que vamos te pedir”. “O que vocês querem que eu lhes faça? “, perguntou ele. Eles responderam: “Permite que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda”. Disse-lhes Jesus: “Vocês não sabem o que estão pedindo…

Poucos dias depois, na quinta-feira, Jesus participou da ceia da Páscoa com seus discípulos. E naquela oportunidade Ele instituiu a santa ceia. Depois, Ele surpreendeu seus discípulos com uma declaração totalmente inesperada (João 14:1-4):

“Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar. E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver. Vocês conhecem o caminho para onde vou”.

Jesus declarou que iria partir para o Pai e todos os planos dos discípulos desmoronaram. E eles perceberam que não tinham qualquer controle sobre os acontecimentos. A maior prova do incômodo dos discípulos foi a resposta exasperada que Tomé deu a Jesus (João 14:5):

“Senhor, não sabemos para onde vais; como então podemos saber o caminho? “

Jesus contou aos discípulos que iria embora e a vida deles entraria num novo capítulo. Muita coisa iria mudar para eles e isso assustou e trouxe medo para os discípulos. E não foi por acaso, portanto, que quase todos eles abandonaram Jesus depois da sua prisão.

Os discípulos não prestaram atenção numa outra coisa que Jesus lhes contou, tão importante quanto o anúncio da sua partida iminente. Ele disse também que a presença de Deus na vida deles continuaria uma constante. Até ali, coubera ao próprio Jesus cumprir esse papel. E depois da sua partida, o Espírito Santo iria assumir esse papel (João 14:16-18):

E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro para estar com vocês para sempre, o Espírito da verdade. O mundo não pode recebê-lo, porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e estará em vocês. Não os deixarei órfãos; voltarei para vocês.

E há aí um grande ensinamento. Não há razão para ter medo de perder o controle, pois uma coisa nunca muda: a presença de Deus. Portanto, a perda do controle é bem menos importante do que parece. Temos uma outra garantia que é absolutamente segura: a presença de Deus nas nossas vidas vai se manter.

E digo mais, o inesperado muitas vezes é parte da estratégia de Deus na vida das pessoas. Basta ver os relatos da Bíblia, onde são constantes as mudanças nas vidas das pessoas. Por exemplo, Gideão passou de agricultor a general dos judeus; Maria foi de adolescente comum, morando numa vila esquecida da Galileia, a mãe de Jesus; Davi passou de pastor de ovelhas a rei de Israel; José mudou de adolescente mimado para escravo e depois para primeiro ministro do Egito; Paulo passou de fabricante de tendas a apóstolo encarregado de levar o Evangelho aos gentios; e Pedro, mudou de simples pescador para líder da igreja cristã.

Você poderia argumentar que mudanças como a que aconteceu com o americano aposentado citado acima não parecem fazer qualquer sentido. Como também seria o caso de uma doença grave inesperada ou a perda de um bom emprego. Situações como essa geram medo e sofrimento sem parecer haver sentido maior nelas.

Mas, muitos dos personagens bíblicos que citei também não entenderam aquilo que estavam passando. Imagine a situação de José, arrancado da casa do pai e vendido como escravo, quando menos esperava. Ou Maria, que se viu grávida de forma totalmente inusitada, atraindo comentários e fofocas na vila onde morava.

Posso garantir que existe sim sentido nessas coisas. Afinal, Deus nunca é surpreendido pelo acaso. O problema é que fica difícil entender todos os desdobramentos das mudanças que aparecem de repente. Elas parecem desnecessárias e injustas, simplesmente porque não temos perspectivas para entender os acontecimentos.

Um exemplo ajuda a explicar bem isso. O feto vive no útero da mãe e dela depende para viver. Ele não precisa de mais nada além da sua mãe, durante seu período de gestação. Mas, seu corpo passa por constantes mudanças – nariz e boca são formados, braços e pernas aparecem e assim por diante. E essas mudanças são totalmente desnecessárias para a vida do feto no útero materno. E, se o feto pudesse refletir sobre sua situação, ele talvez questionasse o propósito dessas mudanças. E todos sabemos como essas mudanças serão fundamentais para sua vida futura.

Alguns capítulos na vida da pessoa parecem tão inúteis como a boca é para um feto e sua importância somente será percebida mais adiante. Veja o que Paulo ensinou em 2 Coríntios 4:17:

…pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno.

Essa declaração precisa ser entendida dentro do contexto das enormes dificuldades que Paulo enfrentou ao longo do seu ministério: foi preso, torturado, passou por naufrágio e passou fome, e assim por diante. Mas, ele aprendeu a considerar tudo isso como “sofrimentos leves e momentâneos”. E isso foi possível porque Paulo aprendeu a focar naquilo que estava por vir: a vida eterna. Seu sofrimento nesta terra foi transitório, mas o bem-estar que o espera no final dos tempos irá durar para sempre.

Pensar como Paulo não é fácil – poucas pessoas chegam a esse grau de desenvolvimento espiritual. Mas, seu exemplo prova que é possível sim progredir espiritualmente.  E você sempre terá Deus presente na sua vida, tanto nos momentos bons, como nos ruins, se decidir caminhar nessa direção. E a Bíblia ensina que o Espírito Santo vai ajudar você em todas as instâncias (Salmo 32:8):

Eu o instruirei e o ensinarei no caminho que você deve seguir; eu o aconselharei e cuidarei de você.

Lembre-se sempre disso quando o medo de perder o controle bater às portas.

Com carinho

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