O LIVRO DE JÓ FALA MESMO É DA GRAÇA

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O livro de Jó é um dos textos mais interessantes da Bíblia e também um dos menos conhecidos. Jó é normalmente visto como uma parábola que discute o sofrimento humano e ensina as pessoas a enfrentarem suas dificuldades. Por isso é sempre recomendado dentro das igrejas: “faça como Jó, fique firme e tenha paciência, que a crise passa“.

Mas Jó não é uma parábola sobre o sofrimento humano e sim um ensinamento muito importante sobre a Graça de Deus e a forma como o mundo espiritual funciona. E sendo assim, é um texto crucial para nosso crescimento – se você quiser estudar sobre o sofrimento humano, há outros textos apropriados para isso na Bíblia, como “Lamentações de Jeremias” ou mesmo diversos salmos.

A parábola fala de um homem muito rico e temente a Deus, Jó,  que é assolado por Satanás e perde tudo: família, bens e até a saúde. E a ação de Satanás foi permitida por Deus como um teste para provar a fidelidade de Jó.

Jó tem alguns amigos sinceros que o visitam e procuram consolá-lo, mas agem de forma desastrada, demonstrando que a boa intenção nunca é garantia de bom resultado. Eles têm certeza que Jó pecou e sofre punição justa de Deus. Assim, insistem com Jó para que ele se arrependa e peça perdão.

Mas Jó estava consciente de que não tinha pecado e se recusou a fazer o que os amigos lhe pediam. E aguentou firme, embora perplexo, pois não entendia as razões para sua tragédia pessoal.

Ao fim do relato, Deus reestabeleceu a sorte de Jó, dando-lhe de volta tudo que tinha perdido. E os amigos dele foram repreendidos por terem agido mal, quase levando Jó a se perder.

O livro de Jó traz muitos ensinamentos como, por exemplo, que pessoas bem intencionadas podem fazer o trabalho de Satanás mesmo sem perceberem. Mas vou me concentrar na questão da Graça de Deus.

A lei da causa e efeito

Estamos acostumados a procurar pela causa por trás de cada efeito que observamos no nosso dia-a-dia. Se a calçada está molhada, deve ter chovido. Se uma bola atingiu minha cabeça, imediatamente procuro pela criança que a lançou. Se as coisas vão mal no país, procuramos pelas causas na política do Governo e/ou na ação do mercado financeiro. Se engordo, é porque comi demais e aí eu “fecho a boca”. E assim por diante.

Desde cedo, nos acostumamos a viver de acordo com a lei da causa e efeito. Ela faz parte das nossas vidas. E funciona muito bem. Agora, o mesmo não acontece quando tentamos extrapolar essa mesma lei para o mundo espiritual – as coisas simplesmente deixam de funcionar.

A lei da causa e efeito no mundo espiritual

O uso extremo da lei da causa e efeito no mundo espiritual é a chamada “lei do karma”: cada pessoa paga na vida presente pelos pecados que cometeu no passado, inclusive em outras vidas. Diversas religiões, como hinduísmo e espiritismo, são baseadas no karma, que tem muito apelo porque parece explicar bem as causas do sofrimento humano.

Infelizmente, esse pensamento gera conformismo: o sofrimento humano é inescapável e até necessário, pois é preciso purgar os pecados do passado. Durante séculos, em países com a Índia, os menos favorecidos foram deixados à própria sorte por causa desse tipo de doutrina.

Mas o fato é que a lei da causa e efeito não funciona no mundo espiritual da mesma forma que no mundo físico. E a Bíblia está cheia de exemplos que comprovam isso. E um deles aconteceu com o próprio Jesus (João capítulo 9, versículos 1 a 3): havia um cego de nascença e os discípulos perguntaram a Jesus quem tinha pecado  – o deficiente físico ou os pais dele – para ter dado causa a tanto sofrimento. Jesus respondeu simplesmente que não havia pecado (causa) algum e tudo acontecera para Glória de Deus.

Continuamos a agir hoje em dia como os discípulos de Jesus fizeram dois mil anos atrás: quando há problemas espirituais, tentamos buscar as causas nos erros do passado. Sem perceber, aplicamos a mesma lógica que leva à lei do karma. Por exemplo, doenças são atribuídas a pecados de natureza sexual, à idolatria e/ou à falta de fé. Uma pessoa perde o emprego e tal problema é imediatamente atribuído ao fato dela não ser dizimista fiel. E assim vamos vivendo.

Nem sempre há uma causa da responsabilidade da própria pessoa para justificar o problema que está vivendo. Jó é a prova disso: não cometeu qualquer pecado e ainda assim sofreu muito. Agora, a maior e melhor prova de que a lei da causa e efeito não funciona no mundo espiritual é a Graça de Deus.

Através dela, recebemos algo – perdão dos nossos pecados, reconciliação com Deus e salvação – que não fizemos por merecer (não demos causa). E se Deus nos tratasse de acordo com nossas ações prévias, não teríamos qualquer esperança. Se a lei da causa e efeito funcionasse no mundo espiritual, estaríamos condenados. Simples assim.

Concluindo, a estória de Jó ensina muito sobre a Graça de Deus e sobre como o mundo espiritual de fato funciona. E merece ser estudada com muita atenção.

Com carinho

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