O DIVÓRCIO É PECADO?

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Esse é um tema muito, mas muito controvertido, entre os cristãos. Hesitei um pouco em me pronunciar sobre ele pois, como sou divorciado, poderia não ter a necessária isenção para tratar dele. Mas, pensando melhor, acho que não posso me furtar a dizer o que penso, mesmo que seja criticado por isso – os leitores deste blog merecem isso de mim.

E quero deixar bem claro, desde o início, que o divórcio não é uma boa saída para os problemas conjugais. Pode ser até a única saída disponível, em determinados casos, mas o divórcio sempre traz sofrimento, tanto para o casal, como para os filhos. E sempre deixará atrás de si a sensação de fracasso, pois o divórcio é exatamente isso – o fracasso de manter uma relação muito importante. Portanto, todo esforço deve ser feito para preservar os casamentos, sempre que possível.

Mas ainda assim é preciso ter uma resposta para as inúmeras pessoas cristãs, como foi meu caso, que se vêem ante o divórcio. Divorciar-se é pecado? Divorciar-se e casar de novo é adultério?

Uma discussão apropriada do tema, em todas as usas nuances, seria muito longa para o espaço que tenho aqui. Assim, poderei apenas esboçar os principais argumentos para tentar tirar o peso que muitas vezes é jogado sobre os ombros das pessoas, que já sofrem com a separação em si, quando esse ato é rotulado de “pecado” grave.

O que Jesus disse
A base dessa discussão está em dois textos bíblicos, um de Jesus e outro do apóstolo Paulo e vou começar pelo que Jesus disse.

Antes de tudo, é preciso entender o pano de fundo para o pronunciamento de Jesus. Em Deuteronômio capítulo 24, versículo 1, a lei que diz que o marido podia se divorciar da mulher no caso de “coisa indecente” praticada por ela. A questão que havia, então, era como definir “coisa indecente” – é importante perceber que a discussão é sempre dos direitos do homem quanto a pedir o divórcio, pois a mulher nunca podia tomar essa iniciativa.

Havia duas escolas rabínicas que competiam entre si: a de Hillel e a de Shamai. Hillel sempre interpretava as leis de forma mais liberal e, quase sempre, Jesus concordava com suas abordagens. E na controvérsia sobre o divórcio, Shamai interpretou a lei dizendo que o divórcio somente poderia ser possível se a esposa fosse infiel ou se deixasse de prover cuidado emocional e material ao marido (Êxodo capítulo 21, versículos 10 e 11). Já Hillel, entendeu que “coisa indecente” se aplicava a muitas situações e, portanto, um homem podia se divorciar até por não gostar da comida da esposa ou por ela ter envelhecido.

Jesus foi pressionado pelos fariseus a se pronunciar sobre essa controvérsia e ele respondeu da seguinte forma:

“Quem repudiar sua mulher, não sendo por relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério (e o que casar com a repudiada comete adultério”.  Mateus capítulo 19, versículo 9

Em outras palavras, Jesus disse que, nesse caso, Ele apoiava a interpretação mais restritiva de Shamai, limitando as razões válidas para divórcio. E a razão foi simples: a posição mais rígida era a que melhor defendia a mulher, a parte mais fraca no casamento.

Infelizmente há muitos que olham para as palavras de Jesus e as tomam ao pé da letra: entendem que Ele proibiu o divórcio, em qualquer situação, exceto em caso de adultério. Mas essa interpretação é muito problemática, pois se levarmos o texto ao pé da letra, a proibição se aplicaria apenas ao divórcio por iniciativa dos homens e as mulheres estariam livres para se divorciar sem restrição, pois elas não foram citadas por Jesus.

Mas é claro que Jesus não se referiu às mulheres porque elas não podiam pedir divórcio e certamente o ensinamento se aplica também a elas. Ora, para chegar a essa conclusão é preciso considerar as circunstâncias em que o ensinamento foi dada e aí a interpretação não é mais apenas ao pé da letra.

E, se vamos levar em conta as circunstâncias, é preciso considerar a questão entre Hillel e Shamais, que mencionei acima e que Shamais, com quem Jesus concordou, também como válidas, para fins de divórcio, a negação de cuidados físicos e emocionais.

Portanto, a melhor leitura do ensinamento de Jesus é: o divórcio não pode ser fator de injstiça, quer contra o homem, como contra a mulher. Quando isso ocorre, o divórcio é pecado. E a injustiça está sempre presente quando não motivo aceitável: infidelidade e negação de cuidados físicos ou emocionais.

O que Paulo disse                                                       

O marido conceda à esposa o que lhe é devido e também semelhantemente a esposa a seu marido…Ora, aos casados, ordeno, não eu mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido (se, porém, ela vier a separar-se que não se case, ou que se reconcilie com seu marido); e que o marido não se aparte da sua mulher … Mas, se o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos não fica sujeito à servidão, nem o irmão, nem a irmã; Deus vos tem chamAdo à paz.”  1 Coríntios capítulo 7, versículos 3 a 15 

Paulo começa por dizer que os esposos devem conceder um ao outro o que lhe é devido. E não detalha o que é isso, exceto no que tange aos direitos relacionados com o direito ao sexo. Isso porque todos os leitores daquela época conheciam os textos de Êxodo e Deuteronômio que citei acima, que se referem à fidelidade e obrigação de cuidados físicos e emocionais.

A seguir Paulo usa palavras fortes proibindo o divórcio. Mas, pela ordem do texto, onde ele colocou antes a obrigação e depois a proibição, fica claro, a meu ver, que a proibição se aplica desde que a obrigação tenha sido cumprida. Ou seja, se a esposa (ou o marido) cumprir for fiel, der apoio moral e material ao seu marido, é proibido divorciar-se dela.

O que vemos aqui é Paulo falando mais ou menos o que Jesus já tinha dito: o divórcio por motivos fúteis, é pecado.

Mais adiante, Paulo dá uma outra possibilidade que pode ser alegada para pedir divórcio: o abandono de um cônjuge pelo outro. E faz todo sentido, porque um cônjuge abandonado não pode receber apoio material e emocional.

Ao final, Paulo diz ainda algo de grande importância: Deus nos chama para termos paz! Ou seja, aparece aí um qualificador para o casamento, que permite entender melhor quando é possível pedir divórcio, de forma lícita: onde não há mais esperança de haver paz.

Palavras finais
Assim, situações onde um dos cônjuges nega ao outro amor, comete abusos emocionais e físicos, trai repetidamente ou abandona, dentre outras, podem caracterizar uma quebra de confiança irrecuperável dentro do casamento. E aí a paz conjugal não mais poderá ser re-estabelecida.

Abre-se, então, espaço para o divórcio, sem que haja pecado, bem como para reconstrução da vida daquele/a que se divorciou com outro/a parceiro/a.

Concluindo, o divórcio em si não é pecado, desde que haja razões justas para ele. Pecado é aquilo que antecede e justifica o divórcio: desamor, falta de tolerância, quebra da confiança, e assim por diante.

Com carinho

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