O DESEJO DE VINGANÇA

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A mim pertence a vingança e a retribuição. No devido tempo…Gênesis capítulo 32, versículo 35

Tempos atrás a sociedade brasileira foi surpreendida com a revelação que um grupo de homens infectados com o HIV (o vírus da AIDS), buscou propositalmente contaminar outros homens. Fizeram isso como forma de vingança, por estarem revoltados por terem sido contaminados. 

O recente desastre relacionado com o rompimento da barragem da Vale do Rio Doce, em Brumadinho, também despertou muitos chamados de vingança.

E esse é um sentimento comum entre os seres humanos. Vingança é a vontade de retribuir o mal com ações que também venham a causar mal a quem causou o problema. Mas, às vezes, o sentimento de revolta é tão grande que a retribuição nem precisa ser dirigida contra quem causou o mal. Vale também atingir qualquer outra pessoa, como uma forma de desabafo. E foi isso que aconteceu no caso dos homens contaminados com HIV. 

Debatendo essa questão com um amigo, ele me fez uma pergunta interessante: não seria o mandamento “olho por olho, dente por dente” (Deuteronômio capítulo 21, versículo 24), uma forma de vingança? Em outras palavras, não estaria a Bíblia sancionando a vingança?

Acredito que não. Na verdade, o mandamento “olho por olho” precisa tem outra interpretação. E, para fazer isso, precisamos examinar o contexto em que esse mandamento foi dado, ou seja, no início do Velho Testamento.

Naquela época, na maioria das sociedades, não havia ainda governo central organizado para garantir a aplicação da justiça. O que prevalecia era basicamente a lei do mais forte. Cada tribo e família, enfim cada grupo social, precisava se fazer respeitar, caso contrário vidas e propriedades dos seus membros corriam risco, ao atraírem a cobiça de grupos rivais. Só o medo da retaliação costumava trazer alguma segurança.  

Por causa disso, os grupos sociais, sempre que eram atingidos por algum mal causado por terceiros, costumavam retribuir de forma excessiva – por exemplo, se um membro de uma tribo era morto por pessoa de outro grupo social, a tribo ofendida, se pudesse, matava cinco pessoas da tribo do agressor. O respeito era imposto simplesmente pelo terror. 

É nesse contexto que o mandamento “olho por olho” precisa ser analisado: trata-se de uma orientação para retribuir o mal de forma justa, ou seja, de maneira proporcional à ofensa sofrida.

Além disso, a retaliação tipo “olho por olho” precisava atingir apenas quem praticou o mal original. Portanto, a ação dos homens HIV positivos, que eu citei acima, nunca seria sancionada, pois ela trouxe revanche em quem não tinha causado mal aos homens contaminados. 

Na prática, o mandamento bíblico do “olho por olho” já foi um grande avanço em relação à prática social anterior. E isso nada tem a ver com sancionar a vingança – o objetivo foi avançar, estabelecendo uma prática social mais justa. 

Com a evolução das sociedades, a humanidade tornou-se preparada para evoluir além do “olho por olho“. E, pouco mais de mil anos depois, Jesus trouxe abordagem inteiramente nova para a questão da retribuição do mal, baseada no perdão e na misericórdia (Mateus capítulo 5, versículos 38 a 42). 

Isso não quer dizer que todos os cristãos concordem e pratiquem esse ensinamento de Jesus. Mas esse passou a ser o caminho orientado por Deus. E nada mais distante da vingança do que a misericórdia e o perdão. 

Portanto, o cristão não pode pensar em vingança. Pode, e deve, se proteger contra as más ações das outras pessoas, ou seja, prevenir o mal, mas nunca pensar em retribuir o mal recebido, mesmo que fosse na mesma proporção.

Agora, é preciso entender que todo o mal será reconhecido e punido por Deus. É sobre isso que fala o versículo que abriu esta postagem. A retribuição divina virá, não há qualquer dúvida, e pode vir ainda nesta vida ou mais adiante, quando do julgamento final. Disso você pode ter certeza.

Com carinho       

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