O CRISTÃO NÃO DEVE JULGAR NEM POLÍTICO CORRUPTO?

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O noticiário na mídia é um show de horrores. Esquema após esquema de corrupção é desvendado e mais e mais pessoas – políticos (muitos deles evangélicos), empresários, funcionários públicos, diretores de estatais, etc – aparecem envolvidas. 

Tudo isso causa enorme indignação a quem é cristão(ã) verdadeiro(a) pois essa corrupção viola vários mandamentos de Deus, como aqueles que estabelecem ser proibido roubar, cobiçar o que pertence ao próximo ou dar falso testemunho. E em consequência são feitas críticas pesadas a quem tal tipo de procedimento errado. 

Mas, por outro lado, Jesus advertiu que é pecado julgar o próximo (Mateus capítulo 7, versículos 1 a 5). Como então reconciliar essas duas situações – as denúncias comprovadas de práticas pecaminosas com o mandamento para não julgar? Será que cristão(ã) não pode nem julgar políticos corruptos

E esse dilema fica ainda pior quando quem age errado é pastor(a). Aí junta-se à mistura o mandamento de não se tocar nos(as) ungidos(as) por Deus e fica quase impossível criticar quem quer que seja, não importa o que tenha feito.

Quando caiu o teto de uma igreja evangélica, matando várias pessoas ali reunidas em culto, eu critiquei, durante uma aula na escola dominical da minha igreja, os pastores responsáveis pela administração da igreja pelo seu descaso. E uma senhora mostrou-se inconformada com meu comentário e usou os dois mandamento de Jesus que citei acima para concluir que eu tinha pecado. 

Temos aí mais um exemplo do mal causado por teologia errada. As consequências ruins nesse caso são levar os(as) cristãos(ãs) a se calar, não levantar suas vozes contra o que acontece errado. Como prova do que acabei de falar, lembro que poucos líderes cristãos se levantaram para criticar o Presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha, acusado de práticas de corrupção. 

Garanto a você que não é pecado criticar político corrupto, como também não o é apontar erros éticos cometidos por pastores(as). Fazer tal tipo de crítica em nada contraria os mandamentos para não julgar ou não tocar nos(as) ungidos(as) por Deus. E eu me explico.

O apóstolo Paulo ensinou que o(a) cristão(ã) deve julgar todas as coisas e reter o que é bom (1 Tessalonicenses capítulo 5, versículo 21).
Ora, nessa única frase ele abordou três coisas. Primeiro, o(a) cristão(ã) deve colher informações sobre os fatos (as “coisas”), até porque não se pode avaliar algo sobre o qual nada se sabe. 

Depois, ele(a) precisa construir um juízo de valor (“julgar”) o que aconteceu com base nas informações colhidas. 

Finalmente, o(a) cristão(ã) deve manter (concordar com) aquilo que for considerado bom e lançar fora (rejeitar) aquilo que não passar nesse teste.  

Paulo, portanto, incentivou o(a) cristão(ã) a julgar sim, mas fatos concretos. E Jesus disse a mesma coisa quando comentou que as pessoas devem ser avaliadas pelos seus frutos, ou seja, os resultados dos seus atos (Mateus capítulo 7, versículos 16 a 20). 

Então, o(a) cristão(ã) precisa avaliar as pessoas com base naquilo que fazem e nos resultados que obtém. E não há qualquer pecado em fazer isso. E isso também se aplica ao caso das pessoas “ungidas” por Deus, como pastores(as). 

O que Jesus quis dizer, quando nos proibiu julgar o próximo, foi fazer avaliações quando não há fatos concretos – por exemplo, quando uma pessoa julga as intenções de outra com base apenas nas suas percepções pessoais. Jesus alertou que as pessoas não conseguem conhecer de fato o que vai no coração umas das outras – as aparências sempre enganam. 

Voltando ao exemplo da igreja onde o telhado caiu, eu teria pecado se tivesse afirmado que o descaso demonstrado pelos pastores(as) deveu-se ao fato que eles(as) se importavam mais com o dinheiro do que com a vida dos frequentadores(as), coisa que não fiz. Afinal, não havia dados concretos para fazer esse tipo de avaliação- tudo poderia ter acontecido simplesmente por incompetência. Era possível afirmar que houve descaso porque a direção da igreja não seguiu a legislação pertinente, o que teria evitado a queda do teto e as mortes – esse era um fato concreto. Mas atribuir aos(às) pastores(as) tal ou qual motivação já ia além dos fatos e isso não poderia ter sido feito.  

Um outro exemplo interessante tem a ver com o depoimento do bicheiro Carlinhos Cachoeira numa CPI do Senado, cerca de 3 anos atrás. Ele declarou que somente estava falando ali porque tinha se arrependido, ao se converter a Jesus. As provas levantadas permitiam afirmar que aquele homem infringiu a lei e era um criminoso. Mas não era possível dizer que ele estava mentindo sobre sua possível conversão para conseguir leniência da justiça, como muita gente afirmou naquela época. Isso seria fazer o que Jesus proibiu.

Essa argumentação vale para todos os casos que temos visto na realidade brasileira atual. Vale para todo mundo envolvido nessas questões. Precisamos nos ater aos fatos e julgar as ações erradas das pessoas com rigor, à luz dos mandamentos da Bíblia. Mas devemos deixar a avaliação de intenções e outras coisas que escapam nosso conhecimento para Deus, pois Ele sim conhece o interior de cada ser humano.

Finalmente, gostaria de voltar à questão de não tocar nos ungidos de Deus. Quem disse que um(a) pastor desonesto(a), que não mostra respeito pelo seu rebanho, é ungido(a)? Só porque foi ordenado(a) pastor(a)? Pensar assim é confundir duas coisas: a ordenação, como ato administrativo conduzido pela direção de uma denominação cristã qualquer, com a unção de Deus. São coisas bem diferentes.

Um(a) pastor(a) ordenado pode ser ungido por Deus e acredito que muitos dentre eles(as) o sejam. Mas nem todos são – muitos(as) não têm condições morais para cumprir tal tipo de ministério. É uma pena, mas essa é a verdade nua e crua.

Líderes cristãos que se apresentam como ungidos(as) de Deus, e em paralelo agem de forma reprovável, estão na verdade se apossando de uma unção que não foi derramada de fato sobre eles(as). Simples assim.  

Com carinho

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