NOVOS TEMPOS, NOVAS PRIORIDADES

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Vou falar hoje sobre as prioridades da vida. Falar sobre isso agora faz sentido porque a história ensina que as prioridades mudam muito durante as grandes crises.

Por exemplo, muitas centenas de milhares de jovens norte-americanos foram convocados para servir nas Forças Armadas e nas fábricas de material bélico durante a Segunda Guerra Mundial. Por causa disso, milhares de postos de trabalho ficaram vagos nas demais indústrias, no comércio e nos escritórios. Aí as mulheres foram chamadas para preencher esse espaço vazio. Ora, a prioridade das famílias americanas, até então, tinha sido manter as mulheres em casa tomando conta da família. Repentinamente, a prioridade mudou totalmente e as mulheres foram para o mercado de trabalho. E depois do fim da guerra, boa parte delas continuou trabalhando, o que gerou profundas mudanças socioeconômicas nos Estados Unidos. E já começamos a perceber mudanças nas prioridades também no Brasil, por conta da crise atual: a longa quarentena priorizou as vidas humanas, mesmo prejudicando a atividade econômica.

Quais, então, devem ser suas prioridades de vida daqui para frente? O que passar a orientar sua vida? É o que vamos discutir a seguir, tomando, como sempre, a Bíblia como referência.

O conceito de prioridade
Definir prioridades é essencialmente escolher aquilo que vem antes, aquilo que tem preferência. Essas escolhas precisam ser feitas porque os recursos humanos, como tempo e dinheiro, são sempre escassos. Nunca há o suficiente para se fazer tudo o que seria desejado.

Por exemplo, a capacidade financeira de uma empresa é limitada e ela precisa priorizar os seus investimentos. Se a escolha for a de priorizar a qualidade dos seus produtos, a empresa vai dar preferência em investir na melhoria dos seus processos de fabricação. Agora, se a empresa escolher priorizar a conquista de novos mercados, vai precisar investir mais em marketing e no desenvolvimento de novos produtos. Pode ser ainda que ela decida fazer um pouco de cada coisa, mas aí não vai extrair o máximo de nenhuma das duas opções, ou seja, não vai melhorar ao máximo seus produtos, como também não vai conquistar todos os novos mercados possíveis.

Para as pessoas, o recurso mais escasso costuma ser o tempo – só temos 24 horas por dia e nunca teríamos tempo para fazer tudo que gostaríamos. Todos os dias precisamos desenvolver algumas obrigatórias: dormir, comer, cuidar da higiene pessoal, deslocar-se daqui para lá, cuidar da casa e ganhar o sustento. O tempo que sobra é o que se chama tempo livre e somente nesse período é possível fazer livremente aquilo que se deseja.  

Os estudos indicam que morador de uma grande cidade costuma ter entre 2 a 4 horas de tempo livre por dia, tendo um pouco mais de folga no sábado e no domingo. Isso é pouco, algo entre 15 e 25% do tempo total. Por isso existe a necessidade de priorizar bem o uso desse tempo que sobra. Em outras palavras, torna-se preciso escolher o quê fazer e o quê deixar de fazer.

Essas são escolhas difíceis e até dolorosas. É melhor estudar mais ou ter mais lazer, é melhor dar mais atenção à família ou dedicar mais tempo ao trabalho? E assim por diante.

Deus reconheceu a limitação do tempo útil do ser humano quando nos deu o mandamento para descansar um dia por semana, conforme estabelecido no livro do Êxodo capítulo 28, versículos 8 a 10. Através desse mandamento, Deus nos ensinou que é necessário ter tempo livre para fazer coisas importantes como descanso, lazer e, sobretudo, manter convivência com Ele.

Outra coisa a ter em mente é que as prioridades da vida seguem uma escala de importância: há prioridades mais importantes do que outras. E duas prioridades nunca serão igualmente importantes, pois, quando for preciso escolher, uma delas acabará tendo a preferência.

Por exemplo, a preservação da vida humana e a garantia da liberdade são duas prioridades fundamentais da sociedade e ambas constam da Declaração dos Direitos Humanos da ONU. E elas parecem ser igualmente importantes. Mas, durante a Segunda Guerra Mundial, a sociedade deu prioridade ao resgate da liberdade, o que gerou a necessidade de sacrificar centenas de milhares de vidas na luta contra o nazismo. Já na crise atual, cedemos parte da nossa liberdade, ao ficarmos retidos em casa, em prol de salvar vidas humanas. Nesses dois momentos foi preciso escolher qual prioridade iria comandar os acontecimentos. E é interessante perceber que as escolhas foram diferentes nos dois momentos históricos.

E aqui cabe uma terceira observação interessante: Tanto as prioridades, como sua importância relativa, mudam ao longo do tempo. Cerca de 80 anos atrás, a preservação da liberdade foi a prioridade maior, já na crise atual o que pesou mais foi a preservação de vidas humanas.

A minha própria vida fornece um outro exemplo interessante. Quando eu era jovem, minha maior prioridade era alcançar a estabilidade financeira para minha família. Hoje, décadas depois, minhas prioridades são bem diferentes: Ter paz de espírito e ajudar as outras pessoas. 

Como você determina suas prioridades?
Você estabelece suas prioridades a partir da sua visão de mundo, ou seja, com base na perspectiva que você tem para sua própria vida. Por exemplo, quando eu era jovem, minha visão do mundo estava muito ligada às coisas materiais. E essa perspectiva da vida guiou as escolhas que fiz, determinou minhas prioridades.

Sua visão de mundo estabelece aquilo que você considera bom ou ruim, fornece a métrica com a qual você avalia seu sucesso ou fracasso e determina os objetivos para sua vida. E é a partir disso tudo que você faz suas escolhas e organiza suas prioridades. Portanto, visões de mundo diferentes levam a prioridades de vida distintas.

Li, recentemente, um texto do pastor John Piper, intitulado “Não desperdice o seu tempo”. Nele, o autor contrasta a história de vida de dois grupos de pessoas. O primeiro grupo era composto por duas missionárias. Essas mulheres decidiram, após se aposentar, passar a dedicar suas vidas ao trabalho missionário na África, em meio a populações muito carentes. E fizeram isso por muitos anos, até que um acidente de carro as matou.

O outro grupo de pessoas era formado por um casal, sem filhos, que estabeleceu como sua prioridade curtir a vida após a aposentadoria. E alcançaram seu objetivo: ele se aposentou por volta dos 60 anos e ela com mais ou menos 55. Mudaram-se para a Flórida, local de clima quente e cheio de condomínios para pessoas ricas. Compraram um veleiro de 10 metros de comprimento e passaram muitos anos curtindo sua vida, até o fim dos seus dias. Em paralelo, montaram uma enorme coleção de conchas.

O pastor Piper fez no seu texto uma pergunta muito relevante: Qual das duas histórias de vida é marcada por um sucesso e qual é marcada por uma tragédia? Se olharmos para essas histórias pela óptica tradicional do mundo mais comum, a tragédia marcou a vida das duas missionárias, enquanto o casal de aposentados é um caso de sucesso.

Aí Piper fez uma observação decisiva. No dia do Julgamento Final, todos seremos reunidos perante Deus, para prestarmos contas.  E quando Deus pedir às missionárias para dizerem o que fizeram com seus talentos, elas terão algo relevante para mostrar. Vão poder apontar para os trabalhos que desenvolveram em meio a um povo muito sofrido e alegar que ajudaram muita gente. Já quando Deus pedir para o casal de aposentados mostrar o que fez com seus grandes talentos, tudo o que eles terão para mostrar será uma grande coleção de conchas…

Onde está o sucesso e onde está a tragédia agora? Sem dúvida, a avaliação torna-se totalmente diferente, quando é feita com base em outra visão do mundo, levando em conta a óptica de Deus. 

E Jesus falou exatamente sobre essa questão na parábola dos talentos (Mateus 25:14-30):

…um homem… partindo para fora da terra, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe… [O] que recebera cinco talentos negociou com eles e granjeou outros cinco talentos. Da mesma sorte, o que recebera dois, granjeou também outros dois. Mas o que recebera um, foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.

E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e pediu que os servos prestassem contas. Então aproximou-se o que recebera cinco talentos e trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que granjeei com eles. E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. E, chegando também o que tinha recebido dois talentos, disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; eis que com eles granjeei outros dois talentos. Disse-lhe o seu senhor: Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste. E, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo… Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos…Lançai, pois, o servo inútil nas trevas; ali haverá pranto e ranger de dentes.

O ensinamento dessa parábola é muito claro. O servo que recebeu um talento nada fez com ele – agiu exatamente igual ao casal de aposentados. O que muda entre os dois casos é a motivação para a falta de ação: No caso do servo, ela foi fruto do medo de errar; já no caso do casal de aposentados, ela foi fruto do egoísmo. Mas, o resultado foi exatamente igual: uma vida estéril.
Suas novas prioridades
A crise atual está gerando um empuxo para que as pessoas mudem suas prioridades. Por exemplo, a importância do consumo desenfreado e da luta para conseguir mais status está em baixa, enquanto a importância de passar mais tempo com a família está em alta.

Use você também essa experiência toda para refletir sobre sua própria vida. Para escolher quais devem ser suas prioridades a partir de agora. E, se você for sincero/a com você mesmo/a, acho que há mudanças à vista.

Penso que essa crise comprovou que a vida humana é um valor fundamental: Tudo perde importância e empalidece quando coloca em risco a vida. Portanto, você precisa viver de forma mais saudável, sem correr tanto, sem se preocupar com tantas coisas. Sem sofrer tanto desnecessariamente. Cuidando mais de você mesmo/a e dos seus entes queridos.

E para que sua vida de fato floresça, é preciso uma coisa fundamental: Deus no centro de tudo. Foi exatamente isso que Jesus nos ensinou através do mandamento que está registrado em Marcos capítulo 12, versículo 30, que diz:

Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento.

Jesus nos disse que o relacionamento com Deus deve ser a prioridade. Portanto, Ele precisa vir antes de tudo (família, carreira profissional ou lazer). E isso não é uma coisa fácil de fazer – não era fácil no tempo de Jesus e continua sendo difícil hoje em dia. O apóstolo Pedro era casado e deixou sua família para seguir Jesus. E sempre me pergunto sobre as pressões que deve ter sofrido quando mudou sua prioridade de vida. Certamente não foram poucas.

Deus como a prioridade maior não significa sair do mundo, não significa abandonar tudo. Afinal, precisamos continuar a ser o “sal da terra”. Significa de fato que as coisas materiais não podem mais colocar obstáculos na sua relação com Deus. Você nunca pode alegar falta de tempo para estar na sua presença ou fazer sua obra. Amém.

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