“NÓS”, EM LUGAR DO “EU”

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Vivemos numa sociedade caracterizada pela competição e pelo individualismo. Somos ensinados desde pequenos(as) a sermos competitivos, por exemplo, nos jogos esportivos, onde o bom é ganhar. Depois, a competição continua a ser incentivada: nos concursos (passam aqueles com melhores notas), na vida profissional (os melhores ganham mais) e no mundo empresarial (as melhores empresas sobrevivem enquanto as demais morrem).

Ora, competição e individualismo andam de braços dados. E o individualismo excessivo – a predominância sempre das necessidades e desejos pessoais (“o que eu quero”, “o que eu mereço”, etc) – só gera coisas ruins, como egoísmo e insensibilidade às necessidades das outras pessoas. Não é por acaso, portanto, que vivemos num mundo injusto e cruel, especialmente com as pessoas mais fracas.

Li nesses dias um artigo no jornal “New York Times” que discutiu os novos princípios de administração implantados, principalmente nos Estados Unidos, em empresas de informática de ponta. A tese ali é privilegiar ao máximo a eficiência e a competição – somente as melhores pessoas, ou seja aquelas que contribuem mais para o lucro, sobrevivem no emprego. As demais são demitidas sem dó nem piedade. As ferramentas usadas para conseguir fazer isso incluem monitoramento constante das pessoas, incentivo para que elas denunciem o que estiver errado (inclusive os(as) colegas de trabalho) e assim por diante – eu não desejaria trabalhar num lugar assim.

A ideia de uma sociedade individualista e competitiva é mais comum justamente nos países que dominam o cenário econômico e político mundial, como os da Europa Ocidental e América do Norte. Assim, acaba havendo incentivo para que todos sigam a mesma receita, especialmente aqueles que anseiam por melhorar seu padrão de vida.

Mas isso não é verdade: há outras formas de organizar a sociedade e desenvolver-se, como os exemplos de alguns poucos países, como os nórdicos, tem comprovado. É possível sim desenvolver-se e prosperar incentivando valores mais saudáveis, como a solidariedade, e promovendo a justiça social.

Recentemente, ouvi um relato que reflete exatamente sobre essas alternativas mais saudáveis: colocaram um grupo de crianças de uma tribo africana numa linha de largada e, distante delas, embaixo de uma árvore, um cesto com alguns poucos doces. E foi dito às crianças que ao sinal dado, elas deveriam correr até a árvore e as que chegassem primeiro poderiam pegar os doces.

O resultado desse experimento foi surpreendente: ao ser dado o sinal, as crianças espontaneamente deram-se as mãos e caminharam juntas. Chegaram no cesto e dividiram os doces entre todas elas.

Essas tribos africanas vivem pelo conceito chamado “umbuntu”, no qual o coletivo tem sempre preferencia sobre o individual. A competição e o individualismo não são incentivados.

Agora, talvez você ainda não saiba mas a ideia que o grupo deve prevalecer sobre o indivíduo também é a base do cristianismo. Por exemplo, quando Jesus mandou que seus seguidores tratassem o próximo como a si mesmos(as), estava ensinando exatamente isso, embora com palavras diferentes.

Esse conceito também fica evidente na oração do “Pai Nosso” (Mateus capítulo 6, versículos 9 a 13), que está toda no plural, ou seja é dirigida para a coletividade e não para o indivíduo :

Pai nosso, que estás nos céus. Santificado seja o teu nome. Venha a nós o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus. O pão nosso de cada dia dai-nos hoje. E perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos os nossos devedores. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal

Isso quer dizer que as coisas de Deus são preferencialmente dirigidas para a comunidade da fé. É ela que nos ajuda a resistir às tentações e é também nela que o reino de Deus se instala.

No tempo de Jesus, as pessoas entenderam essa mensagem perfeitamente pois a regra de vida no judaísmo sempre foi a mesma. E esse princípio continua presente até hoje nessa religião: por exemplo, algumas orações judaicas somente podem ser feitas por um grupo de homens (quatro ou mais).

Não é de surpreender, portanto, que os(as) primeiros(as) cristãos tenham aceitado tão bem essa mensagem, tanto assim que acabaram por constituir um grupo onde as pessoas tinham seus bens em comum e cada um(a) contribuía com o que podia e recebia o que precisava (Atos dos Apóstolos capítulo 4, versículos 32 a 35).

É uma pena que essa noção de solidariedade e espírito coletivo tenha se perdido ao longo do tempo, por diversas razões, que não tenho espaço para discutir aqui. E acabamos nesse ambiente individualista e competitivo.

Mas é possível sim viver na sociedade atual de forma diferente, privilegiando o “nós” no lugar do “eu”. Preocupando-se mais com as outras pessoas. Exatamente como Jesus ensinou. Basta querer.

Com carinho

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Dennis Sousa

"É uma pena que essa noção de solidariedade e espírito coletivo tenha se perdido ao longo do tempo, por diversas razões, que não tenho espaço para discutir aqui. E acabamos nesse ambiente individualista e competitivo." Faço minhas as suas palavras, essa competição da vida as vezes adoece as pessoas, umas se achando melhores que outras, outras se achando incompetentes e por ai vai.