NÃO DEIXE O MEDO TOMAR CONTA

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O medo é parte da vida das pessoas. É um tipo de sentimento sempre presente. Mas, talvez você não tenha se dado conta ainda é como nossa sociedade construiu uma cultura em torno do medo. Uma cultura que valoriza excessivamente esse tipo de sentimento. Vou dar alguns exemplos disso.

A grande mídia adora explorar a sensação de medo. As manchetes quase sempre privilegiam temas como violência urbana, perigos para a saúde, crise econômica e outras coisas assim. As manchetes costumam ser propositadamente construídas para atrair a atenção das pessoas através do medo. Basta ver alguns programas de televisão, totalmente calcados em eventos policiais, que costumam ser transmitidos todas as tardes, para comprovar o que acabei de dizer.

Os terroristas construíram uma forma de atuação que apela para o medo coletivo. E tiveram grande sucesso, pois conseguiram mudar a forma de viver das pessoas. A maior prova disso são as rigorosas medidas de segurança adotadas nos aeroportos depois de 2001.  As pessoas passaram a ser obrigadas até a tirar os sapatos para provar que não portam armas ou substâncias perigosas.

Os políticos também frequentemente apelam para o sentimento de medo, acusando os candidatos que se opõem a eles de vir a gerar caos econômico e social, implantar ideologias estranhas e outras coisas assim. Anos atrás, numa eleição para presidente no Brasil, uma conhecida atriz estrelou um comercial político que se tornou famoso, cuja fala começava assim: “Tenho medo…”

O lazer está carregado de mecanismos que manipulam o medo das pessoas. Isso é evidente nos filmes de terror ou de suspense. O conhecido escritor de histórias de terror Stephen King, que vendeu dezenas de milhões de exemplares de livros, certa vez declarou que as pessoas adoram sentir medo. E parece que ele estava com a razão.

Os esportes radicais têm o mesmo tipo de efeito. Os jovens acham que quanto mais perigosos eles forem, mais divertidos ficam. Acredito que os jovens acabem viciados na descarga de adrenalina que seus corpos produzem, quando são expostos a situações de risco.

As pessoas adoram conversar sobre temas que falam de perigos eminentes, verdadeiros ou imaginários, como epidemias, quadrilhas que roubam órgãos de crianças e outros mais. Parece ser que o compartilhamento do medo com outras pessoas, obtendo a concordância delas para os perigos corridos, causa algum tipo de alívio.

A cultura do medo é uma realidade. As pessoas acabam ficando programadas para ter esse tipo de sentimento e tornam-se escravas dele.

A linguagem do medo
Admitir viver com medo, especialmente no caso dos homens, não costuma ser visto com bons olhos. Nas igrejas evangélicas, então, pega muito mal reconhecer isso, pois foi construído o mito que o cristão verdadeiro não sente medo. 

Por causa disso, as pessoas recorrem a diversos expedientes para evitar tomar contato direto com seus medos. Para não reconhecer o que está de fato acontecendo com elas. E a provavelmente a forma mais usada é o uso de uma linguagem codificada. As pessoas fogem da palavra “medo” e usam outras em seu lugar.

Esse tipo de atitude se parece muito com o que existia, quando eu era pequeno, em relação ao câncer. Essa palavra era evitada e as pessoas se referiam a ele como “aquela doença” ou outro eufemismo qualquer. De forma parecida, as pessoas hoje falam de seus medos citando que estão com angústia profunda, ansiedade, grande preocupação, muito estresse, bem como pânico ou fobia.

Como o mundo lida com o medo
O medo traz sofrimento. Gera sensações ruins e perda de foco. Por causa disso, as pessoas apelam para inúmeras estratégias para conseguir conviver com esse problema. Vou dar alguns exemplos:
  • Algumas pessoas tentam manipular as circunstâncias apelando para superstições. Imaginam que assim afastarão o azar e o mau olhado. E sabemos que isso é uma grande ilusão.
  • Outras tentam controlar tudo aquilo que possa vir a afetá-las (outras pessoas, coisas e circunstâncias). E imaginam que quanto mais controle, melhor será. Mas, essa é outra ilusão, pois a possibilidade de controle real é sempre muito limitada.
  • Há pessoas que lutam para acumular riquezas, achando que isso vai lhes proporcionar segurança. Trata-se de outra ilusão, pois acidentes, doenças e outras circunstâncias inesperadas não levam em conta o tamanho do saldo bancário.
  • Algumas pessoas recorrem às drogas para ganhar coragem. Mas o efeito delas passa depressa e a realidade retorna. E o ciclo volta a se repetir, o que acaba por destruir a saúde das pessoas.
  • Outras criam “muros de proteção”, imaginando ficar em situação mais confortável, por deixar os perigos do lado de fora. O problema é que os mesmos muros também aprisionam as pessoas. Por exemplo, alguém têm medo de ser rejeitado, afivela uma máscara para se mostrar mais “adequada” às demandas da sociedade. Mas, a pessoa acaba dependente da sua máscara, pois não vive mais sem ela, e manter a máscara afivelada requer grande esforço emocional.
  • Há quem procure se manter ocupado, trabalhando longas horas e fazendo várias coisas ao mesmo tempo. A ideia é tirar o foco de si mesmo e se escondem no turbilhão criado. Essa estratégia é bem aceita porque nossa sociedade valoriza quem trabalha muito e o padrão continua até que a pessoa chegue à exaustão ou fique doente.
  • Algumas pessoas fazem votos não saudáveis. Isto é, promessas para si mesmas visando reduzir riscos. Por exemplo, a mulher ferida nos seus sentimentos afirma: “nunca mais vou confiar em homem algum”. E o gerente inseguro alega: “a partir de agora vou fazer tudo eu mesmo, porque não dá para confiar em ninguém”. E esse tipo de iniciativa nada resolve de fato.
  • Finalmente, ainda há quem tente racionalizar os medos. Pensam que basta não pensar neles, ir em frente, aguentar sim e tudo vai acabar se resolvendo. Isso é uma armadilha: combater os medos com lógica, só faz com que eles mudem de lugar. Os medos simplesmente trocam de lugar, pois sempre há outra fragilidade a ser explorada. O medo é um alvo móvel e não fixo.
A sensibilidade de Deus para o medo humano
Deus sabe que sentimos medo. E é sensível a essa realidade. Tanto isso é verdade que o mandamento mais repetido na Bíblia (talvez você se surpreenda ao saber disso) é “não temas…”

A Bíblia cita isso repetidamente. Por exemplo, em Gênesis 15:1 (fala para Abraão), em Números 21:34 (para Moisés), em Josué 8:1 (para Josué), em Lucas 1:30 (para Maria) e em Atos 27:24 (para Paulo). E esse é um tema que Jesus abordou repetidas vezes. Por exemplo, em Mateus 6:25-26:

“Portanto eu lhes digo: não se preocupem com suas próprias vidas, quanto ao que comer ou beber; nem com seus próprios corpos, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante do que a comida, e o corpo mais importante do que a roupa? Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas? Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? “Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles.

Como o medo entrou no mundo
Para entender o tratamento que precisamos dar ao medo, para ter sucesso ao enfrentá-lo, ajuda muito saber relembrar como a Bíblia descreve a entrada desse tipo de sentimento na vida humana. Adão e Eva viviam no Jardim do Éden e não conheciam medo ou preocupações. Em dado momento, caíram em tentação e comeram o fruto proibido da árvore do bem e do mal. E isso levou ao aparecimento do medo – vejam como isso aconteceu segundo Gênesis 3:7-10:

Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de figueira para cobrir-se. Ouvindo o homem e sua mulher os passos do Senhor Deus que andava pelo jardim quando soprava a brisa do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim. Mas o Senhor Deus chamou o homem, perguntando: “Onde está você?” E ele respondeu: “Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo, porque estava nu…

Adão e Eva enfraqueceram seus vínculos com Deus, por causa do pecado. E deixaram de olhá-lo como sua fonte de amor e proteção. Passaram a perceber Deus como uma ameaça e aí o medo chegou.

Esse relato demonstra que nossa luta contra o medo vai além de simplesmente exercer nossa fé. Afinal, Adão e Eva sabiam que Deus existia e era todo poderoso. Não tinham dúvidas quanto a isso e ainda assim tiveram medo. Nossa luta envolve mais do que isso pois ela tem tudo a ver também com a qualidade da nossa conexão com Deus.

A forma cristã de lidar com medo
A Bíblia exemplifica o amor e o cuidado de Deus apresentando-o como nosso pai. E a palavra usada no texto – abba – reproduz a forma carinhosa como os filhos normalmente chamam quem os gerou e cuida deles, algo como “papai”.

É muito significativo que o Novo Testamento tenha liberado as pessoas para tratar Deus dessa forma íntima, que é muito diferente da maneira tradicional usada pelos judeus. A permissão dada para as pessoas se aproximarem de Deus como seu papai, gera a possibilidade delas criarem uma conexão especial com Ele, que apelido aqui de “conexão Abba”.

As pessoas podem construir uma relação onde Deus é seu papai amoroso, carinhoso e sempre presente. Podem construir uma “conexão Abba”. Adão e Eva perderam isso quando pecaram e aí passaram a sentir medo. E esse fato nos demonstra que a manutenção da “conexão Abba” é um poderoso antídoto contra o veneno do medo.

A palavra Abba, quando aplicada a Deus, é usada em três circunstâncias no Novo Testamento. E cada uma delas apresenta uma faceta diferente da “conexão Abba”. A primeira circunstância se deu quando Jesus estava sofrendo grande estresse, na expectativa da crucificação (Marcos 14:35-36):

Indo um pouco mais adiante, prostrou-se e orava para que, se possível, fosse afastada dele aquela hora. E dizia: “Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres”.

Jesus chamou Deus de papai num momento de desespero. E é isso que você precisa aprender a fazer. Usar a “conexão Abba” quando o medo forte bater às portas, para manter a certeza da proteção e do amor divinos. E é importante registrar aqui como as pessoas têm dificuldade prática de fazer isso. É muito mais fácil para elas construir uma conexão desse tipo com Jesus.
O segundo uso de Abba está em Romanos 8:15:

Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temer, mas receberam o Espírito que os adota como filhos, por meio do qual clamamos: “Aba, Pai”.

Paulo falou nesse texto da adoção dos crentes como filhos/as de Deus. Ora, o contrário de adoção é rejeição. E quando as pessoas imaginam estar sob risco de rejeição, pensam que vão precisar ganhar cada grama de amor e aprovação que precisarem. Mas, com Deus não é assim: você é adotado/a quando se converte a Cristo. E não precisa ganhar nada, pois sua adoção é um presente. Tanto é assim que você pode e deve descansar em Deus (1 Pedro 5:7):

Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês.

O terceiro uso de Abba está em Gálatas 4:6:

E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho aos seus corações, o qual clama: “Aba, Pai”.

Esse texto ensina que a garantia, ou o selo, da “conexão Abba” é a presença do Espírito Santo na sua vida. Afinal, essa presença transformadora muda tudo. Portanto, busque continuamente essa presença na sua vida, conforme a Bíblia ensina, em oração, estudo da Palavra, louvor e assim por diante.

Concluindo, lembre-se que a sociedade condiciona você a sentir medo e mudar esse estado de coisas não é simples. É um preciso um recondicionamento do seu modo de pensar e viver. É necessário ficar menos focado no que pode acontecer no futuro e aprender a viver mais o presente:

Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal”. Mateus 6:33-34

E, sobretudo, explore sua “conexão Abba”. Aprender a ver Deus como o papai amoroso e protetor que Ele. Entenda e aceite sua adoção plena como filho/a. E, finalmente, explore de forma positiva a presença do Espírito Santo na sua vida.

Veja  mais sobre esse tema aqui.

Com carinho

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