LUTANDO CONTRA A VONTADE DE MENTIR

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O tema de hoje é difícil: a luta contra a mentira. Isso é muito importante porque, na realidade, todo mundo mente, uns mais, outros menos, mas todos já cometeram esse pecado. 

A “escala” da mentira

A revista Christianity Today publicou um artigo muito interessante (edição de junho/2011, autora Sarah Sumner), onde descreveu os diferentes níveis de tolerância à mentira que as pessoa podem ter. Trata-se de uma verdadeira “escala” da mentira, sendo que os níveis mais altos dela indicam uma convivência maior com a mentira.

O fato é que as pessoas, ao longo das suas vidas, sobem e descem nessa escala, conforme sua vida espiritual e emocional vá pior ou melhor. Portanto, qualquer avaliação que seja construída comparando o comportamento de qualquer pessoa com o que está descrito nesse modelo, será apenas um “retrato”, um instantâneo da situação, que pode mudar para melhor ou pior, conforme a pessoa venha a se comportar no futuro.  

Assim, quem perceber que está mal na tal escala não deve desanimar e sim sentir-se incentivado(a) a corrigir as próprias deficiências e melhorar – sempre há espaço para isso. Da mesma forma, quem estiver bem vai precisar se esforçar para não perder o que já conquistou.

Nível 1: Mentira ocasional

Quem está nesse nível mente pouco, de forma ocasional, num descuido, num momento infeliz, etc. Infelizmente, há poucas pessoas nesse nível.

Nível 2: Mentira como hábito

Nesse nível as mentiras deixam de ser ocasionais e tornam-se frequentes, parte da vida – afinal, é mais fácil mentir do que assumir um erro ou reconhecer uma fraqueza. A mentira também é bastante usada para evitar situações que podem se tornar embaraçosas – por exemplo, a pessoa se atrasou porque saiu tarde de casa e culpa o trânsito para não admitir seu erro.

Nível 3: Auto-engano

Nesse nível a pessoa passa a aceitar como verdade as mentiras que conta. Mente de forma tão eficaz que acaba enganando a si mesma também. Por exemplo, a pessoa que cria caso com um monte de gente convence a si mesma que sempre tem as melhores intenções, quer o bem de todo mundo, procura fazer a vontade de Deus, etc. 

Esse é o ponto da escala onde a grande maioria das pessoas (mesmo as que se dizem cristãs) está, conforme os estudos. E não é fácil “descer” na escala pois o auto-engano é uma coisa muito confortável, quase como um vício, um recurso sem o qual se torna muito difícil viver. 

Nível 4: Racionalização

Nesse estágio não somente a pessoa acredita que suas mentiras são verdades, como encontra justificativa para tudo que faz. Nesse nível, por incrível que pareça, a mentira passa a ser uma virtude! Por exemplo, a pessoa mente porque essa é uma necessidade, pensa ela, para conseguir progredir no emprego. 

É esse tipo de pensamento que permite aos políticos(as) adotar a corrupção como prática de vida e conseguir ficar em paz com suas consciência. Usam o dinheiro escuso para conseguir pagar as contas da última campanha ou para serem adequadamente recompensados(as) pelos “sacrifícios” pessoais que pensam estar fazendo. É o mesmo tipo de comportamento que permite a um homem adulterar para “conseguir” manter seu casamento vivo.

Nas igrejas, isso acontece, por exemplo, quando pastores justificam a construção de templos luxuosos ou adotarem um padrão de vida nababesco como “homenagem” a Deus. 

Nível 5: Compartimentalização

O truque aqui é trabalhar como se a vida fosse constituída de compartimentos. A pessoa ignora as coisas que disse ou fez num contexto e diz ou faz coisas diferentes quando está em outra situação. 

Também é fácil de encontrar esse tipo de situação na política, quando líderes montam um discurso adequado para cada tipo de auditório: falam uma coisa para empresários, outra para sindicalistas e outra para jovens. Essa também é a situação dos(as) cristãos(ãs) que são santos(as) no domingo e fazem qualquer coisa de segunda feira em diante. 

Nível 6: A mentira como dever

É o pior estágio: a pessoa perde completamente o controle sobre a mentira pois se convence que mentir é seu dever. Não mentir é que seria errado erro.

Por exemplo, o assessor de um líder político corrupto que pensa ser seu dever mentir para proteger seu chefe das trapalhadas que faz. Ou a secretária que acoberta as escapadas adúlteras dele, mentindo para sua esposa. 

São pessoas nesse nível da escala de mentiras que apedrejaram os profetas bíblicos, quando esses falaram verdades inconvenientes (por exemplo, João capítulo 16, versículo 2).

É interessante perceber que pessoas assim costumam ficar bravas quando são criticadas por mentir, pois pensam estar sendo impedidas de cumprir com seu dever. Por exemplo, a mãe que conta mentiras para esconder os problemas do marido com drogas e pensa fazer isso para “proteger” sua família. 

O que pode ser feito?

Mentir é pecado e a Bíblia é muito clara a esse respeito. E a razão é simples: se todos mentissem todo o tempo, o caos seria instalado. A confiança desapareceria e não mais seria possível viver em sociedade (e Deus não nos criou para vivermos isolados). 

Quando mentimos, violamos nossa conexão com as outras pessoas e também com o próprio Deus. E por isso nos sentimos mal. É por isso que precisamos minimizar o impacto da mentira racionalizando (nível 4) ou mesmo pensando estar cumprindo um dever (nível 6).

Como disse no começo deste texto, a mentira é coisa muito presente na sociedade, mas é preciso lutar para não deixá-la tomar conta. Há um ditado popular que explica isso bem: “não podemos impedir que o pássaro pouse na nossa cabeça, mas podemos sim impedir que ele faça ninho ali“. 

Ou seja, a fraqueza que leva a uma mentira eventual é parte da natureza humana, sendo quase impossível de evitar. Mas não podemos permitir que a mentira se torne uma forma de vida. 

Como fazer isso? Primeiro, tendo consciência do problema, coisa que você está fazendo ao ler este texto (se já não tinha percebido isso antes).

Depois, pedindo ajuda a Deus. Por exemplo, Davi sempre pedia que Deus sondasse seu interior e lhe revelasse aquilo que ele mesmo não conseguia ver (por exemplo, Salmo 139, versículos 23 e 24). E Deus atendia: por exemplo, quando Davi adulterou com Bate-Seba, Deus mandou o profeta Natã falar com ele as verdades incômodas que precisava ouvir.

Terceiro, mantendo-se o mais próximo(a) a Deus que conseguir. Percebo, pela minha própria experiência de vida, que quando me afasto d´Ele, fico mais vulnerável, não só à mentira como a outras tentações. 

Finalmente, adquirindo o hábito de confessar suas dificuldades para irmãos(ãs) na fé em quem você confie – isso é muito eficaz, por exemplo, contra o auto-engano (nível 3) e a racionalização (nível 4). Não se trata de coisa fácil pois é preciso antes deixar de lado o orgulho, mas pode ajudar muito. 

Com carinho

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