LIBERDADE AINDA QUE TARDIA

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Jesus, na sua primeira pregação em público, feita na sinagoga de Nazaré, estabeleceu com clareza o objetivo da sua missão aqui na terra: libertar os cativos (Lucas capítulo 4, versículos 16 a 21). 

Quando a gente analisa essa declaração, uma pergunta aparece de imediato: quem são os cativos que Ele veio libertar? A resposta é simples: cada um(a) de nós. Todos(as) somos cativos. A missão de Jesus vale para toda a humanidade.

A outra dúvida importante é: libertar de quê? A resposta tradicional fala em libertar do pecado que escraviza todo ser humano. Mas a missão de Jesus vai muito além disse: também liberta o ser humano da desesperança, da insegurança, da ansiedade, da solidão, da tristeza, etc. Ou seja, de inúmeros males da alma e do espírito.

Sendo assim, podemos afirmar que o cristianismo deveria ser uma religião libertadora. Agora, seja sincero(a) comigo: quando você olha em torno, para as igrejas evangélicas de forma geral, esse é o panorama que você vê? Elas são libertadoras? Acredito que não. 

Infelizmente, o cristianismo atual tornou-se em boa parte uma religião que faz exatamente o contrário: aprisiona as pessoas num enorme conjunto de regras, obrigações e controles de comportamento. Nas igrejas cristãs as pessoas costumam ser continuamente ameaçadas de perder a salvação por causa disso ou daquilo. 

Não é de se estranhar, portanto, que as denominações cristãs estejam encontrando dificuldade crescente para reter as pessoas, principalmente os(as) mais jovens. E boa parte daqueles(as) que permanecem dentro das igrejas experimentam vidas espirituais medíocres, pois acabam perdendo a maior parte do seu tempo em cumprir regras desnecessárias.

Lembro a você que a igreja dos apóstolos, descrita na Bíblia no livro de Atos, não era controladora assim, muito ao contrário. Basta lembrar o que aconteceu no Primeiro Concílio, em Jerusalém.

Logo no início da vida da Igreja, todos os cristãos eram também judeus e, portanto, circuncidados e seguidores das práticas de restrição alimentar. Quando cristianismo começou a apelar para os não judeus, criou-se um impasse: deveria ser exigido dos novos convertidos circuncidar-se e abster-se de diversos alimentos? 

O problema estava no fato que essas exigências não eram fáceis de serem cumpridas – por exemplo, a circuncisão  de um adulto é operação dolorosa e, naquela época, relativamente arriscada.

Os líderes da igreja se reuniram (Atos dos Apóstolos capítulo 15) e decidiram abolir tais regras. Entenderam que era mais importante a “circuncisão” do coração – a aceitação de Jesus como Salvador – do que essas práticas tradicionais. Em outras palavras, os líderes cristãos daquela época libertaram o povo de práticas que estavam dificultando sua vida. E aí o cristianismo pode crescer rapidamente.

Esse exemplo não é seguido hoje em dia. Mais e mais líderes religiosos evangélicos estabelecem regras de fé e de comportamento que deixam as pessoas confusas e aprisionadas. Há quem proíba  o uso de árvores e outros símbolos de Natal, quem afirme que crente não pode ouvir música secular, quem diga que se não pode dançar, quem proíba maquiagem  e por aí vai. Há uma denominação bem conhecida que até estabeleceu um “cronograma” de como os(as) jovens podem e devem namorar. 

Todo dia encontro uma proibição nova – outro dia um leitor aqui do site me contou sobre a proibição de chamar Jesus por outro nome que não seja Yeshua ou Yehoshua. Durma-se com um barulho desses…

Gostaria de fazer um parêntesis para responder o argumento mais usado para estabelecer esse tipo de regra: a Bíblia diz de fato que o(a) cristão(ã) deve fugir da aparência do mal (1 Tessalonicenses capítulo 5:22). Assim, se determinada coisa, mesmo não sendo um mal em si, parece ser, o(a) cristão precisa se afastar dela. 

Ora, levado ao extremo, quase tudo nas nossas vidas poderia ser proibido com base nesse versículo. E evidentemente não foi essa a intenção da Bíblia.

O que os(as) líderes que defendem tal postura não explicam é quem determina o que é o mal, de cuja aparência devemos todos fugir. Na prática, eles(as) pensam deter esse direito, daí proíbem um monte de coisas. Eu penso diferente: mal é aquilo claramente estabelecido na Bíblia. Se não estiver clara tal proibição, não me cabe ou a quem quer que for vedar a prática. 

Por exemplo, a Bíblia não proíbe ouvir música secular, então esse tipo de proibição não pode ser feita. Alguém poderia argumentar que há músicas que pregam drogas, satanismo, promiscuidade, etc. É claro que essas músicas devem ser evitadas por conta do seu conteúdo deletério e o mesmo acontece com alguns programas de televisão, filmes e livros. Mas a proibição não pode ser estendida para todas as músicas seculares, filmes e livros. Simples assim. 

E o mesmo vale para outras coisas, como a dança, o uso de maquiagem ou os enfeites de Natal. Podem parecer coisas más para alguns, mas não são definidas assim na Bíblia, portanto, não há base para proibi-las.

Agora, são tantas as proibições e os controles estabelecidos pelas igrejas evangélicas e  tantas as ameaças de punições para quem descumpri-los, que a maior parte dos emails e comentários que recebo aqui trata dessa questão. As pessoas querem ter certeza que se fizerem isso ou aquilo não vão acabar perdendo a salvação.

Infelizmente, as proibições sem sentido acabam por desviar a atenção das pessoas daquilo que interessa de fato no cristianismo: como seguir verdadeiramente a Jesus. Quase nunca recebo perguntas de quem queira discutir isso e a culpa não é dos(as) fiéis e sim de quem fica enchendo a cabeça dessas pessoas com proibições e ameças inúteis, que somente servem para aprisionar.  

Jesus não gastou seu tempo aqui na terra impondo regras de vida – basta ler os Evangelhos que isso fica muito claro. Ele estabeleceu princípios fundamentais de comportamento – amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo -, que definem a forma correta de nos relacionarmos tanto com Ele como com as demais pessoas.

E se concentrou nas questões realmente básicas. Assim, condenou o legalismo dos fariseus (reproduzida hoje pela maioria das denominações evangélicas ), ensinou o perdão, criticou a hipocrisia e a falta de compromisso com o Reino de Deus. E sobretudo ensinou as pessoas a pensarem e a tomarem decisões corretas por si mesmas.

O povo de Deus precisa ser libertado dessa situação absurda que vive hoje. Basta de imposições excessivamente moralistas e esquemas de controle que escravizam as pessoas. Precisamos voltar ao espírito original do cristianismo: a libertação do ser humano. 

Com carinho

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