LEMBRANDO DOS ESQUECIDOS

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A vida é cheia de exemplos de pessoas que parecem viver apenas nos bastidores – cumprem seu papel de forma competente, mas são outros(as) que brilham.

O filme “Os dois filhos de Francisco” conta a vida de dois famosos cantores sertanejos brasileiros sob o ponto do pai deles, Francisco. Foi ele quem deu aos filhos condições para vencerem na vida artística – é comovente a cena do filme que mostra como ele ficou fazendo inúmeras ligações de um orelhão para votar na música dos filhos e fazê-la subir nas paradas de sucesso. O filme vale a pena.

A fama veio para os filhos e não para o pai – são eles que estão na mídia e ganharam muito dinheiro. Pelo que sei, o pai ficou plenamente satisfeito em ter servido de “escada” para os filhos subirem na vida. 

O problema é que o papel desempenhando por essas pessoas dedicadas e humildes nem sempre acaba sendo reconhecido, muitas vezes nem pelas pessoas que se beneficiaram dos seus esforços. Infelizmente, assim é a vida.

O exemplo do pai adotivo de Jesus

Há vários exemplos na Bíblia de pessoas que atuaram mais nos bastidores e não são muito lembradas hoje em dia: Miriam (irmã de Moisés), Tamar (a prostituta à beira da estrada), Tiago (o irmão de Jesus) e Barnabé (o file companheiro de Paulo).

E há ainda um exemplo de grande importância e significado: José, o pai adotivo de Jesus. Infelizmente, José é pouco lembrado – há muito poucas pregações sobre ele, a não ser no Natal, fora daí quase nada.

E não é assim apenas nos tempos atuais: os primeiros sermões sobre José aparecem nos registros históricos da igreja cristã cerca de 800 anos após a ressurreição de Jesus. A própria Igreja Católica somente veio a dar para José um papel de maior destaque no final do século XIX, quando José foi proclamado “patrono” da Igreja. 

A Bíblia também fala pouco sobre José – não sabemos quando nasceu e muito menos quando morreu. Sabemos apenas que foi obediente a Deus, excelente cidadão e homem muito corajoso. E essa coragem ficou patente quando ele aceitou receber Maria, mesmo grávida, como sua esposa e adotou (perfilhou) o filho dela, Jesus, pagando alto preço por isso – certamente foi olhado com reservas pela sua família, vizinhos e amigos (a sociedade da sua época era extremamente moralista). 

Se José não tivesse tido essa coragem, Jesus teria sido frontalmente rejeitado pela sociedade judaica, por ser bastardo, e nunca poderia ter exercido seu ministério. Simples assim. Não há como negar, portanto, que José viabilizou o ministério de Jesus.

Se José foi tão importante assim na história do cristianismo, por que é tão pouco valorizado? O teólogo católico Leonardo Boff deu  a seguinte resposta para essa questão:

[José] é um representante da “gente boa”, da “gente humilde”, sepultados em seu dia-a-dia cinzento, ganhando a vida com muito trabalho e levando honradamente suas famílias pelos caminhos da honestidade. Orientam-se mais pelo sentimento profundo de Deus que por doutrinas teológicas… Foi neste ambiente que Jesus cresceu. Sua relação com José a quem chamava de pai, deve ter sido tão íntima que serviu de base para Jesus sentir Deus como “Paizinho querido”(Abba) e nos transmitir essa experiência libertadora.

Quando relembro minha experiência na igreja cristã, percebo ter conhecido muitos exemplos como o de José – pessoas que muito fizeram e nunca foram devidamente reconhecidas pelos seus esforços. 

Vou citar aqui apenas três dentre eles: Isabel Pinho, que todos os domingos levantava-se bem cedo para comprar flores e ornamentar a Igreja Metodista do Catete, igreja que nossa família frequentava. Foram os arranjos de flores mais bonitos que já vi e nem por isso seu trabalho foi reconhecido como merecia. Raul Rezende, que dedicou sua vida ao orfanato metodista Ana Gonzaga e recebeu como “recompensa” um voto de desconfiança do Conselho dessa Entidade, sem dúvida uma injustiça. E minha tia Elzira, que por anos a fio mandou dezenas de exemplares da revista Cenáculo para pessoas de todo o Brasil, personalizando cada um deles com uma mensagem pessoal. Muitas pessoas tiveram suas vidas transformadas pelas mensagens que receberam mas quase ninguém lembra disso.

O mundo pode não notar. A igreja cristã, como organização humana que é, pode até esquecer. Mas tenho certeza que Deus nota e sempre se lembra. Ele guarda com enorme carinho tudo o que cada uma dessas pessoas fez pela sua obra. E elas terão sua recompensa na vida eterna. Amém.

Com carinho

 

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