JESUS E O JUDAISMO

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Jesus foi um homem judeu que viveu dentro da cultura e das circunstâncias (políticas, sociais e econômicas) relacionadas com seu povo e sua época. Mas ao longo da história dos estudos bíblicos, esse fato foi frequentemente esquecido, talvez porque muitas pessoas se sentiam desconfortáveis com essa realidade. Na verdade, somente nos últimos 40 anos esse panorama mudou e o judaísmo de Jesus passou a ser um fator importante nos estudos bíblicos.

Ora, não há dúvida que nenhum(a) homem(mulher) pode ser entendido(a) verdadeiramente sem levar em conta as circunstâncias em que viveu. O conhecido filósofo Ortega Gasset estava pensando exatamente nisso quando cunhou a célebre frase: “eu sou eu, e a minhas circunstâncias“. 

As atitudes que uma determinada pessoa toma ao longo da sua vida, as escolhas que fez, as prioridades que elegeu e os resultados que obteve, tudo isso dependeu, em boa parte, de circunstâncias fora do seu controle. E não foi diferente com Jesus.

Começo lembrando que Jesus veio ao mundo como homem e aí já está sua primeira circunstância. E sendo homem, havia coisas que Ele podia ou devia fazer, na sociedade em que viveu, e outras que não podia ou devia fazer. Por exemplo, só os homens trabalhavam fora e por isso eles eram os responsáveis pelo sustento das suas famílias. E o filho mais velho devia assumir essa responsabilidade em lugar do seu pai, quando esse último morria. E foi exatamente isso que aconteceu com Jesus, quando José morreu.

Jesus cresceu num ambiente semi-rural, filho de um artesão/operário da construção civil. Assim, todas as suas experiências de vida se desenvolveram nesse ambiente. E foi ali que fez amigos e discípulos. Não é por acaso, portanto, que quase todas as suas parábolas têm como cenário a vida rural (p. ex. o semeador ou o dono da vinha) ou a vida simples dos vilarejos da Galileia (p. ex. a pesca no mar da Galileia ou a dona de casa cuidando das suas tarefas). 

Sua vida, assim como a de todo judeu, foi pautada pelas festas religiosas – Páscoa, Yom Kippur, Tendas, etc – que muitas vezes o levaram em peregrinação até Jerusalém. E essa cidade era o centro da vida religiosa de todos, por causa do Templo. Não foi por acaso que Jesus foi crucificado em Jerusalém. E ali teve os debates teológicos mais acalorados, justamente com a elite religiosa da época.

Jesus precisou submeter-se à dominação romana, assim como todos os demais judeus. E não por acaso, esse tema foi uma constante nos debates que manteve, como quando foi perguntado se o judeu devia pagar impostos ao Império romano.

Os exemplos são intermináveis, mas acho que já ficou claro que Jesus somente pode ser entendido de fato em relação à sua realidade judaica. Sendo assim, é preciso dedicar tempo para conhecer o meio ambiente onde Ele viveu e operou. 

Não estou dizendo que alguém irá perder sua salvação se não dominar esses conceitos – afinal, para se converter, isso  não é necessário. Estou afirmando que esse conhecimento é necessário para crescer no entendimento dos seus ensinamentos e para poder aplicá-los corretamente no dia-a-dia. 

Vou dar abaixo dois exemplos mais detalhados de situações onde as circunstâncias da vida na sociedade judaica dão um significado aos fatos totalmente diferente do que uma leitura superficial do texto bíblico daria a entender. 


A unção de Jesus

O primeiro exemplo se refere à ocasião em que Jesus, já no final da sua vida, teve seu corpo ungido por uma mulher chamada Maria (provavelmente a irmã de Lázaro e Marta). Veja os relatos da Bíblia:

Então Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu [a cabeça e] os pés de Jesus.”                                                              João capítulo 12, versículos 1 a 8

 “…derramando este perfume sobre o meu corpo, ela o fez para meu sepultamento.”                          Mateus capítulo 26 versículos 6 a 13 

Maria gastou uma parte importante do seu dote – um vidro de perfume absurdamente caro – para demonstrar seu amor por Jesus e, de forma profética, preparou seu corpo para os eventos que estavam por vir (sua morte).

O que passa despercebido numa leitura superficial do texto é que a palavra “Messias” em hebraico quer dizer “Ungido”, portanto, um ato como aquele significou que Maria estava publicamente apontando Jesus como o Enviado de Deus.

O conceito de “unção” era muito importante em Israel: por exemplo, os reis não eram coroados mas ungidos. Nesse ato era derramado sobre o homem escolhido certa quantidade de óleo consagrado (azeite de oliva misturado com ervas aromáticas extremamente caras). Tal óleo deixava a pessoa com um perfume maravilhoso, o cheiro de um rei. E naquela época, os reis se diferenciavam das pessoas comuns tanto pelas suas roupas como pelo seu cheiro (p. ex. Salmo 45, versículos 7 e 8; Cantares capítulo 3, versículos 6 e 7). 

Quando Jesus foi ungido por Maria, passou a levar consigo o cheiro que o identificava como Messias e Rei. E essa “marca” esteve presente até seu sacrifício final. 

A conversa com a mulher samaritana

Certo dia, quando de viagem da Galileia (norte) para a Judeia (sul), Jesus passou pela Samaria. Aproximando-se de um poço, pediu água para uma mulher que ali estava. Conversou com ela e a converteu. E ela saiu dali anunciando o Evangelho para todos na sua cidade e converteu a alguns (João capítulo 4, versículos 39 a 42).

Foi uma ação simples – conversa com uma mulher -, sem maior significado aparente. Mas quando os acontecimentos são vistos pela “lente” dos costumes judaicos, os fatos se tornam surpreendentes.

Começo por lembrar que homens judeus, especialmente sozinhos, nunca se dirigiam diretamente a mulheres desacompanhadas. Só por esse aspecto, a atitude de Jesus já seria motivo de espanto.

Mais ainda, como aquela mulher era considerada pecadora, pois tinha histórico de manter relacionamentos considerados ilícitos, mais inapropriado ainda seria dirigir-se a ela.  E não é possível argumentar que Jesus desconhecia a história daquela mulher, pois Ele fez referencia  seu passado durante o diálogo (João capítulo 4, versículos 17 e 18).

Finalmente, a mulher era samaritana. Ora, os judeus consideravam os samaritanos hereges e impuros (por terem sangue israelita misturado com gentios). Por conta disso, esses dois grupos nem se falavam (João capítulo 4, versículo 9). 

Assim, é absolutamente surpreendente que Jesus tenha falado com aquela mulher. Agora, é claro que Ele fez isso de forma deliberada: através da sua atitude, passou para nós a mensagem fundamental que a preocupação deve ser sempre com a salvação da pessoa e não com seu gênero, sua situação social, seu comportamento moral, etc. Não devem ser impostas barreiras para quem alguém entrar no Reino de Deus.

Concluindo, o judaísmo de Jesus é inseparável de sua mensagem – está presente em tudo que Ele fez e disse. Se você quer entendê-lo de fato, precisa levar isso sempre em conta. Simples assim.

Com carinho   

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António Jesus Batalha
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Estive a ver e ler algumas coisas, não li muito, porque espero voltar mais algumas vezes, mas deu para ver a sua dedicação e sempre a prendemos ao ler blogs como o seu.
Gostei de tudo o que vi e li.
Vim também desejar muita paz,saúde e grandes vitórias.
São os votos do Peregrino E Servo.
António