IGREJA E TECNOLOGIA FAZEM UM BOM PAR?

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A igreja cristã e a tecnologia fazem um bom par? Creio que sim. E eu me explico.

Tempos atrás li um comentário que achei muito interessante. O autor lembrou que Moisés, o escritor dos primeiros cinco livros da Bíblia, viveu cerca de 3.500 anos atrás. Já o grande pregador John Wesley, fundador do metodismo, viveu cerca de 250 anos antes de nós. E o autor do comentário provou que Wesley, na sua forma de viver, estaria mais próximo de Moisés do que de nós. Em outras palavras, Wesley seria capaz de entender muito melhor o mundo em que Moisés viveu do que a sociedade atual, embora nós estejamos muito mais próximos dele no tempo do que Moisés.

Vivemos num mundo em que o avanço da tecnologia é cada vez mais veloz. Cerca de quarenta anos atrás, quando participei da construção da obra de Itaipu, ainda hoje uma das maiores do mundo, não tínhamos fax, computador pessoal e nem Internet. Os recursos tecnológicos com os quais contávamos eram essencialmente o telefone, o rádio e a calculadora de bolso.

Hoje a construção de uma obra desse porte seria feita de forma bem diferente, por exemplo, usando modelagem tridimensional para fazer os desenhos construtivos ou mesmo óculos de realidade aumentada. Sem contar que os grandes canteiros de obras contam com computadores muito poderosos. 

E a tecnologia transforma a nossa realidade e também a forma como nos comportamos. Por exemplo, experimente tirar de uma adolescente seu celular e ela vai se sentir excluída socialmente.  Enquanto isso, eu vivi minha adolescência contando apenas com uma única linha fixa de telefone na casa dos meus pais e nunca tive grandes problemas. 
 
Como é de esperar,  o impacto do avanço tecnológico sobre a vida das igrejas é enorme. Por exemplo, as pessoas somente começaram a ter exemplares pessoais da Bíblia nas primeiras décadas do século XX, pois antes disso esses livros eram muito caros e basicamente só estavam disponíveis nas igrejas e bibliotecas. No máximo, as pessoas tinham acesso a panfletos, contendo porções impressas do texto bíblico. Por causa disso, a prática das pessoas lerem a Bíblia em conjunto (uma pessoa lia o texto enquanto as outras apenas escutavam) foi a tradição da igreja cristã durante séculos, até que as coisas mudaram em meados do século passado.

Os exemplares individuais da Bíblia permitiram que as pessoas pudessem estudar o texto quando quisessem e isso tornou tudo mais fácil. Mas, o compartilhamento comunitário do texto bíblico passou a ser muito menos comum, gerando uma perda na convivência das pessoas nas suas comunidades cristãs. Hoje, há até quem ache que pode tocar sua vida espiritual sozinha, longe de qualquer comunidade cristã.

Atualmente, muitas pessoas nem têm mais exemplares em papel da Bíblia, trocados por aplicativos instalados nos celulares.  Eu mesmo, embora tenha muitas Bíblias em papel, não as levo mais para a igreja, pois fica mais fácil usar apenas o celular.

E esses aplicativos estão gerando hábitos novos nos cristãos. Por exemplo, são formados grupos de estudo à distância, com a participação de pessoas do mundo inteiro. E ficou fácil fazer estatísticas sobre quais versículos bíblicos são mais populares, quais temas preocupam mais as pessoas, quais são suas dúvidas mais comuns e assim por diante. E esse é um campo totalmente novo de estudo e atuação para pastores e teólogos.

Mas, as mudanças tecnológicas rápidas também causam receio nas pessoas, especialmente nas mais velhas. Nas igrejas cristãs, ambientes normalmente mais conservadores, esse desconforto com o avanço da tecnologia costuma ser ainda maior. E isso é compreensível.

O mesmo receio que temos hoje em dia do avanço da tecnologia também existiu cerca de cinquenta anos atrás, quando os tele-evangelistas começaram a se popularizar. Havia um receio enorme que as igrejas locais fossem esvaziadas pelos cultos televisados. E tanto foi assim, que conheci vários pastores que desaconselhavam seus fiéis a verem cultos televisados, tentando, de certa forma, proteger seu “território”.  Mas, as igrejas locais continuam mais fortes do que nunca, pois um culto televisado é frio e distante e nada substitui o calor humano da comunidade local.

Como a rapidez do avanço da tecnologia hoje em dia é maior, a preocupação com a mudança das coisas vem se tornando mais aguda. Mas, as igrejas precisam se acostumar com isso e nunca tentar colocar obstáculos às mudanças que estão acontecendo. Afinal, não há como parar o progresso tecnológico e muito menos é possível impedir que as novas tecnologias afetem a forma como as pessoas vivem e como as igrejas se verão compelidas a funcionar.

O mundo que temos é aquele que está à nossa frente e não dá para pedir que o “ônibus” da sociedade pare, para podermos saltar. É preciso aprender a usar as novas tecnologias de forma positiva, como fez o apóstolo Paulo, quando passou a mandar cartas para todas as igrejas que não podia visitar pessoalmente. E ele teve muito sucesso com isso.

Agora, precisamos avaliar também quais tecnologias podem ajudar de fato o desenvolvimento das comunidades cristãs. Isso porque nem todas as novas tecnologias contribuem para o bem das pessoas. Algumas delas tornaram a vida da sociedade moderna francamente pior (p. ex. a bomba atômica), enquanto outras resolveram problemas, mas também criaram dificuldades (p. ex. o automóvel deu liberdade de deslocamento, mas gerou engarrafamento de trânsito e poluição urbana). Eu mesmo já escrevi neste site alertando para o perigo que algumas novas tecnologias podem representar e os cuidados que precisamos ter com elas (ver mais). 

Mas, há coisas fantásticas que as novas tecnologias, como as redes sociais, podem proporcionar. Vou dar um exemplo que ilustra bem isso. Alguns anos atrás atrás, um pastor foi diagnosticado com um câncer muito agressivo. E sua igreja se mobilizou em oração, para ajudá-lo a enfrentar essa terrível dificuldade. Um dos membros teve, então, uma ideia brilhante: instalou no celular do pastor um aplicativo que os membros da sua igreja também tinham. Cada vez que um membro orava pelo pastor, ele/a acionava o aplicativo e o celular do pastor fazia um pequenos apito.

E assim, dia e noite, o pastor foi sendo continuamente avisado, por inúmeros apitos, que sua comunidade estava junto com ele, em oração. O pastor acabou ficando curado e testemunhou como essa experiência de receber, dia e noite, a solidariedade da sua comunidade, foi importante para lhe dar forças. 

Concluindo, se quiser continuar a ser relevante no mundo em que vivemos, a igreja cristã vai ter que se adequar ao uso das novas tecnologias, como as redes sociais, e não criar resistências desnecessárias à sua difusão. O grupo religioso amish se recusa há dois séculos a aceitar os avanços tecnológicos, vivendo hoje como se ainda estivesse no século XIX. E os amish têm enorme dificuldade de reter os jovens nas suas comunidades e se tornaram irrelevantes no mundo moderno. E não é isso que queremos para a igreja cristã.

Com carinho

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Paulo Freire

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