FOME DE MILAGRES

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O ser humano tem fome de milagres. Ansiamos por ações extraordinárias de Deus para nos livrar dos problemas que não conseguimos resolver pelas nossas próprias forças. Queremos sentir o poder de Deus atuando em nossas vidas e ter certeza da sua presença nos dá enorme conforto. Nos faz sentir amados e protegidos por Deus.

Agora, quando essa fome de milagres é explorada de forma inescrupulosa, torna-se fácil encher uma igreja e arrecadar muito dinheiro. E infelizmente vemos isso acontecer com muita frequência no meio evangélico – basta ligar a televisão diariamente.

Mas, tão ruim quanto a exploração da fome de milagres através de resultados inexistentes ou exagerados é a posição oposta: ceticismo total quanto aos milagres. Defender a tese que  eles não existem e, se existiram, foi apenas nos tempos bíblicos, pois a ação do Espírito Santo teria sido “apagada” após aqueles tempos, como uma luz que tivesse sido desligada.

O ceticismo vai contra o ensinamento bíblico pois diminui o papel do Espírito Santo. Afinal, Jesus disse que, mediante a fé e a ação do Espírito Santo, aqueles que creem poderiam fazer milagres ainda maiores do que os realizados por Ele mesmo (João capítulo 14, versículos 12 a 14). E foi exatamente isso que aconteceu: os apóstolos realizaram milagres impressionantes, conforme relata o livro dos Atos dos Apóstolos.

Eu mesmo já presenciei alguns milagres, portanto, acredito na existência deles. Mas não acho que eles acontecem a toda hora e muito menos que podemos marcar dia e hora para eles acontecerem. A fome de milagres acaba gerando distorções importantes no exercício da vida espiritual.

É interessante notar que o tema “milagres” é muito pouco estudado dentro das igrejas e muito menos a fome que as pessoas têm de vê-los acontecer nas suas vidas. Ao longo de mais de 55 anos de vida cristã, eu ouvi muitos sermões prometendo milagres, mas vi muito poucos estudos sérios sobre esse tema, discutindo, por exemplo, as razões pelas quais Deus realiza (ou não realiza) milagres. Ou ainda, quando se deve supor que os milagres poderão ocorrer, o que é de fato um milagre, etc. E é essa lacuna que estou tentando preencher aqui.

E começo por perguntar: por que Deus às vezes decide violar as leis naturais que Ele mesmo estabeleceu e fazer milagres? Na verdade, não temos uma resposta completa para tal pergunta, pois não nos é possível entender completamente a mente de Deus – mal conseguimos nos entender uns aos outros, que dirá entender Deus.

Apesar disso, podemos ter certeza de algumas coisas. E começo observando que Deus sempre tem razões fortes para realizar milagres. Ele não atua de forma aleatória. E se estudarmos a Bíblia com cuidado dá para estabelecer alguns padrões para o comportamento divino nesse campo.

Há quatro períodos bíblicos onde os milagres foram muito presentes. É claro que existiram milagres em outros momentos, mas nunca de forma tão constante e grandiosa como nesses períodos:

  • Época de Moisés (Êxodo do Egito): Deus queria tirar o povo de Israel da escravidão e constituir uma nova nação. 
  • Época dos profetas Elias e Eliseu: o culto a Baal ameaçava dominar o povo de Israel e contava até com o apoio dos governantes da época. Os representantes da fé verdadeira precisaram ser revestidos de poder suficiente para enfrentar essa ameaça.  
  • Época de Jesus: os milagres dele testemunharam sobre sua Missão na terra. 
  • Época da Igreja Apostólica: os milagres atestaram a autoridade espiritual dos apóstolos como continuadores da obra de Jesus.

Ao olhar para esses períodos “milagrosos” é fácil perceber que Deus libera milagres para fazer seus planos avançarem. No tempo de Moisés, Deus queria constituir um povo (Israel), encarregado de levar adiante suas leis e de ser a matriz para o Messias (Jesus). No tempo de Elias, foi preciso proteger esse povo para que ele não se perdesse na idolatria. Quando Jesus chegou, foi necessário autenticar sua missão. E, finalmente, foi necessário dar poder para os primeiros seguidores de Jesus, de forma que pudessem estabelecer a igreja e enfrentar perseguições e incompreensões.

Não é difícil entender o que ocorreu nos quatro períodos citados, especialmente porque hoje temos perspectiva completa dos fatos. Mas nem sempre conseguimos ter essa perspectiva, especialmente quando estamos vivendo os fatos.

Aí precisamos que Deus nos revele o que está acontecendo. E pode crer que, se você pedir a Ele para lhe dar a perspectiva necessária, ajudando você a entender o que está acontecendo e lhe dando para que você faça a sua vontade e cumpra seus planos, pode ter certeza que Deus vai atender. Isso aconteceu com vários personagens da Bíblia.

Então é possível estabelecer um principio para o comportamento de Deus: Ele não realiza milagres gratuitamente – suas ações estão sempre ancoradas nos seus próprios planos para os seres humanos.

Ora, se milagres são coisas especiais, que Deus resolve fazer por razões muito importantes, precisamos tomar cuidado para não banalizá-los. Portanto, ninguém pode ficar prometendo milagres a torto e a direito, marcar cultos onde milagres vão ocorrer e assim por diante. Afinal, o Espírito Santo não é nosso servo para ficar fazendo aquilo que ordenamos. Nós é que somos servos de Deus.

Um terceiro ponto importante é que precisamos aprender a identificar os milagres quando ocorrem. E sei que é mais fácil perceber e dar valor aos milagres visíveis, como a travessia a seco do Mar Morto ou a ressurreição de Lázaro.

Os milagres que ocorrem silenciosamente, sem grandes demonstrações exteriores, frequentemente não são muito percebidos e valorizados. Por exemplo, a conversão surpreendente de um pecador renitente como Zaqueu, o chefe dos coletores de impostos em Jericó, na época de Jesus. Ou a transformação, em apenas 40 anos, de um bando de escravos num povo guerreiro, como aconteceu com Israel, durante o período de peregrinação no deserto.

Finalmente, precisamos confiar que Deus sempre age, mesmo quando não conseguimos perceber isso. Mas, Ele quase nunca age como queremos ou pensamos que deveria fazer e menos ainda no tempo que esperamos. Mas, Ele sempre age.

Como podemos ter certeza disso? Acreditamos nas promessas que Ele nos fezE – esse é o território da fé. Isto é, sabemos disso porque temos confiança nele. 

Com carinho

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