FAÇAM O QUE EU DIGO E NÃO O QUE FAÇO

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Recentemente passei por experiência que tem tudo a ver com o título deste post. Ouvi mensagem onde a pregadora falou sobre fidelidade – cobrando das pessoas serem fiéis à mensagem do Evangelho em uma série de aspectos da suas vidas.

Sem dúvida, tal mensagem é correta e mesmo necessária. Afinal, infidelidade desagrada muito a Deus. Tanto é assim, que a Bíblia chama esse pecado de “prostituição” ou “adultério”, acusação muito séria.

O problema não estava no conteúdo da mensagem, sem dúvida correto,  e sim na autoridade da pregadora em cobrar das pessoas que fossem fiéis. Conheço um pouco da história daquela pregadora e sei que ela não age assim na sua vida privada. Em outras palavras, cobra das demais pessoas aquilo que ela mesma não faz.

Como isso é possível? Na minha experiência, duas possibilidades explicam esse tipo de comportamento. A primeira é o auto-engano. Esse é o caso da pregadora à qual me referi – ela encontrou uma série de desculpas para si mesma, para justificar seu comportamento aos próprios olhos. Ela acredita que não errou e está tudo bem.

Auto-engano é uma arma muito poderosa. Permite que a pessoa faça uma monte de coisas erradas e ainda assim se sinta bem (veja mais) – muita gente faz isso, inclusive sem perceber. E a menos que alguém chegue para a pessoa que se auto-engana e a “sacuda”, apontando-lhe seus erros, ela não vai “acordar” e corrigir seus caminhos.

A Bíblia tem uma história que fala sobre isso. O rei Davi adulterou com Bate-Seba e a mulher engravidou. Para esconder seu pecado, Davi mandou matar o marido de Bate-Seba e se casou com ela. E não se deu conta do que tinha feito – sei lá que mentiras contou para si mesmo. Até que o profeta Natã foi falar com o rei, a mando de Deus, para alertá-lo do seu pecado e Davi finalmente “acordou” (2 Samuel capítulo 12, versículos 1 a 10).

Outra possibilidade que explica a pessoa pregar sobre algo que não pratica é a hipocrisia. A pessoa sabe que peca, que não tem moral, mas cobra dos(as) outros(as) o que não pratica pois não tem saída – precisa salvar a própria pele.

Lembro do caso de um casal de pastores flagrado ao entrar em outro país com dólares não declarados, escondidos numa Bíblia. Acabaram confessando para a justiça daquele país o que tinham feito, sendo condenados e cumprindo pena de prisão. Mas aqui no Brasil, para seus seguidores, muito dos quais pessoas simples, sem acesso a essas informações, disseram que nada tinham feito de errado, que tudo foi armação, etc. Hipocrisia pura e simples.

Vemos o mesmo acontecendo com um Deputado evangélico, flagrado com muitas contas no exterior, abastecidas com dinheiro de corrupção. Ele continua a afirmar que não tem dinheiro no exterior, embora haja documentos com a assinatura dele comprovando o contrário. E tem gente que acredita na sua versão dos fatos.

Hipocrisia infelizmente funciona. Existe um ditado que diz: “não é possível enganar todo mundo todo o tempo“. Isso significa que sim é possível enganar poucas pessoas por muito tempo ou muitas pessoas por pouco tempo. E há muitos líderes religiosos que fazem exatamente isso e vivem muito bem.

Agora, a Bíblia alerta muito sobre essas questões. Por exemplo, Jesus foi muito duro com os(as) hipócritas(as) – chamou essas pessoas de “túmulos caiados de branco por fora e dentro cheio de podridão“.  E disse que haverá muito rigor com essas pessoas no Julgamento Final.

No caso do auto-engano, a situação é mais sutil. A pessoa cria processos mentais que a fazem acreditar em algo que não é verdadeiro. Para corrigir isso, Deus manda alertas para essas pessoas, como fez com Davi. E cabe a elas aceitar ou sofrer a consequência dos seus erros.

Até agora abordei o lado de quem prega e não tem condições morais para fazer isso. Mas é como fica quem ouve esse tipo de pregação? Estou agora falando de nós, cristãos(ãs).

A primeira coisa a entender é que se formos exigir que os(as) pregadores(as) não tenham pecado para poder falar do Evangelho ninguém poderia falar nada – e eu não poderia escrever esse blog. Afinal, todo mundo peca. Sem exceção.

Deus escolheu transmitir seu Evangelho através de pessoas, mesmo sabendo que todas pecam, portanto, conhecia bem esse dilema. Não é surpresa para Ele.

O que então Ele espera de nós? Simplesmente que separemos o conteúdo da mensagem de quem a transmite – analisar aquilo que é falado e ver se está de acordo com a verdade ensinada por Deus na Bíblia, não importa quem tenha transmitido a mensagem. Entender que a credibilidade da mensagem é dada por Deus e não por quem a prega aqui ou ali.

O problema que vejo na separação entre mensagem e mensageiro(a) é a dificuldade em aceitar a mensagem como verdadeira quando o(a) mensageiro(a) perde a credibilidade. Tendemos dar à mensagem a mesma credibilidade do(a) mensageiro(a) e se ele(a) não tem credibilidade, a mensagem vai direto para o lixo.

Sei bem disso, porque já passei por essa dificuldade. Mas essa lição precisa ser aprendida: a mensagem tem que ser analisada nos seus méritos. Simples assim.

Isso também significa que não devemos depositar nossa esperança nos líderes cristãos, não importa quem sejam. Devemos seguir o Evangelho de Jesus.

Infelizmente, muitas pessoas acabam tão encantadas com determinados(as) pastores(as) que eles(as) se tornam sua referencia na vida – o que esses líderes afirmam acaba sendo a mensagem do Evangelho, não importa o que seja. Na cabeça dos(as) seguidores(as), o Evangelho acaba por se tornar equivalente ao líder que seguem

Mas isso é um grande erro pois cedo ou tarde esses(as) pastores(as) irão errar e mostrar seu lado pecador. É só uma questão de tempo. E aí os(as) seguidores(as) vão se sentir decepcionados(as) tanto com o seu líder como também com o Evangelho. E isso é muito ruim. Muito ruim mesmo.

Está aí um grande desafio para a vida cristã: entender que a mensagem de Jesus é o que importa de fato. E não quem a transmite num ou noutro momento.

Com carinho

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