EU POSSO SER VOCÊ, AMANHÃ

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Arrogância é um mal bem comum. Funciona assim: quem está em boa situação, melhor do que a maioria das outras pessoas, começa a se sentir superior, merecedor dessa situação privilegiada. Quanto mais tempo a pessoa estiver vivendo essa de privilégio, maior o risco dela se tornar arrogante.

Sei bem como é isso pois fui um pouco assim durante boa parte da minha vida. Até quase os meus cinquenta anos, praticamente tudo tinha dado certo para mim. Só tinha colhido vitórias. Bem lá no fundo, comecei a me senti superior – mais competente, mais atilado, etc – do que a maioria das outras pessoas.

Aí tudo mudou de repente: Deus permitiu que os problemas viessem todos de uma vez só para me ensinar – e se isso não tivesse acontecido isso, eu não estaria aqui hoje, escrevendo este texto para você. 

A arrogância é um sentimento que cega – impede que a ajuda recebida de terceira seja devidamente percebida e reconhecida, até mesmo quando essa ajuda vem de Deus.  

Fiz um dos vestibulares mais difíceis do Brasil com apenas 17 anos. E passei. Naturalmente, minha família ficou muito orgulhosa. Meus pais quiseram fazer um culto de ação de graças a Deus e eu, lá no meu íntimo, fiquei questionando por que agradecer a Ele, quando quem tinha estudado e feito o trabalho pesado tinha sido eu? Lembro muito bem desse sentimento.

Eu fiquei muito nervoso durante a segunda prova do vestibular – durante duas horas, metade do tempo disponível, não fiz nada, parecia que minha cabeça estava oca. Aí pedi para ir ao banheiro, para lavar o rosto e tentar romper aquela situação de impasse. A pessoa que me acompanhou percebeu meu estado de espírito e foi me acalmando, dizendo palavras de encorajamento. Ele não precisava ter feito isso, mas fez. E meu estado de espírito mudou, tanto assim que fiz a prova toda na outra metade do tempo. E passei.

Sei hoje que Deus olhou por mim ali. Não sei bem a razão, até porque Ele sabia como aquele sucesso haveria de me subir à cabeça. Mas Deus me ajudou assim mesmo e sem isso certamente eu teria ficado pelo meio do caminho. O que dizer então das inúmeras outras bençãos que recebi e me deram condições de obter vitória naquele vestibular: a família maravilhosa que tive e que me deu estabilidade emocional, as boas escolas onde estudei, a saúde perfeita e assim por diante.

Eu tinha muitas razões para agradecer a Deus mas a arrogância dos meus 17 anos não me permitiu ver isso naquela época. Mas meus pais sabiam de tudo isso e agradeceram mesmo assim… 

Foi preciso que a vida me apresentasse uma enorme quota de problemas para que eu mudasse. Para que deixasse a arrogância de lado.

Ninguém é superior – basta um instante para que uma vida de sucesso seja destruída por um escândalo – temos vistos vários casos assim durante a operação Lava Jato -, por uma doença, por uma crise financeira, etc. 

E o sentimento de superioridade não é o único mal relacionado com a arrogância. Há outro problema, igualmente grave: a insensibilidade. Se alguém se julga superior é natural que não se preocupe muito com quem está em condições piores. Parece ser que essas pessoas não têm méritos para estar melhor…

Uns cinco anos atrás um amigo e eu passávamos perto da favela da Água Espraiada, em São Paulo, onde eu fazia uma obra social. E meu amigo saiu-se com a seguinte declaração: “eles [referindo-se as pessoas que ali moravam na na favela] vivem assim porque querem”. 

Ora, como alguém pode querer morar numa casa sem esgoto, onde os ratos mordem as pessoas durante a noite? Ou querer ver seu barraco pobre queimado num incêndio criminoso, como aconteceu tempos depois, naquela mesma comunidade? Na verdade, aquelas pessoas viviam ali por outros motivos e não por desejarem isso.

Na verdade, meu amigo foi insensível à situação daquelas pessoas. Como a vida para ele estava boa – tinha conforto e segurança financeira – não se importava muito com o que acontecia no seu entorno. E a forma de acalmar sua consciência era acreditar que as pessoas viviam naquela condição por que, bem lá no fundo, queriam viver mesmo assim.

Agora, como podemos combater a arrogância? O Império Romano tinha um hábito que dá a pista para a resposta certa. Quanto um general vencia uma guerra, ele tinha direito a uma procissão triunfal pelas ruas de Roma, onde as riquezas conquistadas eram exibidas e a população aplaudia o vitorioso.

O general passava vestido em roupa de gala, com uma coroa de louros na cabeça. Mas, na própria biga que conduzia o general e bem atrás dele, ia um escravo dizendo a seu ouvido: “lembre-se que tu és apenas humano”.

É isso aí: especialmente quando tudo vai muito bem, precisamos ser sempre lembrados que somos humanos. Que as coisas podem mudar do dia para a noite. Eu me lembro de um anúncio antigo que dizia: “eu sou você amanhã”. O significado desse anúncio é simples: aquilo que acontece com uma pessoa hoje, tanto de bom como de ruim, pode acontecer com qualquer outra amanhã, basta que as circunstâncias mudem. Ninguém é melhor do que ninguém.

A arrogância só pode ser combatida se formos continuamente lembrados das nossas limitações, da nossa total e completa dependência de Deus. Se aprendermos a ser gratos a Ele. A louvá-lo pelo que Ele é e faz continuamente por nós.

Precisamos também a aprender a sermos solidários com a dor e a necessidade dos(as) menos favorecidos(as). Entender que, se esperamos ser ajudados nos momentos difíceis, precisamos estar dispostos a fazer o mesmo por quem precisa. E foi exatamente isso que Jesus ensinou ao ordenar seus seguidores a terem amor pelo próximo. 

Com carinho

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