ESCOLHA O REINO DE DEUS

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O Evangelho de Lucas (capítulo 10, versículos 25 a 28) relata que, certa vez, Jesus conversava com um “doutor da lei” (o equivalente aos teólogos de hoje em dia) sobre o tema escolha. Jesus perguntou ao doutor da lei o que o ser humano precisaria fazer para herdar o Reino de Deus. E o teólogo respondeu corretamente, dizendo ser preciso cumprir a lei do Amor: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo.

O interessante é que depois de dar a resposta correta o doutor da lei perguntou a Jesus algo surpreendente: quis saber quem era seu próximo. Ou seja, ele conhecia as filigranas da doutrina, mas desconhecia como proceder na prática. O teólogo sabia ser preciso amar a Deus, mas não sabia quais seres humanos deveria amar como amava a si mesmo. Claro que não estava em causa o amor devido à esposa, filhos/as, pais, etc. Mas quem mais ele deveria amar? Daí a pergunta que fez a Jesus.

A resposta de Jesus foi ainda mais surpreendente: contou uma parábola – o bom samaritano (Lucas capítulo 10, versículos 29 a 37). Essa parábola fala de um samaritano, homem pertencente a povo desprezado pelos judeus, que ajudou um judeu caído à beira da estrada, pois tinha sido ferido durante um assalto. E já tinham passado por ali, sem se importar com o judeu caído à beira da estrada, dois homens muito religiosos: um sacerdote e um levita (pessoa que atuava no Templo de Jerusalém). E nenhum dos dois fez nada. Só o samaritano teve compaixão do homem caído, embora nenhuma relação tivesse com ele.

Depois de contar a parábola, Jesus perguntou ao doutor da lei quem ele achava ter sido o próximo do homem em sofrimento. O teólogo respondeu corretamente: o samaritano, ou seja aquele que teve misericórdia. 

Repare que a pergunta inicial do teólogo foi quem era o próximo dele, doutor da lei, enquanto a resposta de Jesus mudou a perspectiva da avaliação: falou sobre quem foi o próximo do homem em sofrimento. Jesus ensinou que o próximo de quem sofre deve ser aquela pessoa que tem condição de ajudar, de minorar o sofrimento.

Consequentemente, o próximo de que fala o mandamento do amor (amar ao próximo a como a si mesmo) é toda pessoa que precisa de mim e a quem tenho condições de ajudar. Em outras palavras, não sou eu quem escolho o meu próximo – é a necessidade de quem cruza meu caminho que me “escolhe”.

A prática
Anos atrás ocorreu um enorme incêndio numa favela em São Paulo, que desabrigou cerca de 500 famílias (algo como 2.000 pessoas). Esse incêndio impactou-me de perto porque a comunidade atingida era a mesma com a qual minha igreja na época vinha trabalhando havia muitos anos.

Muitas famílias extremamente pobres perderam o pouco que tinham. Aqueles/as que já eram despossuídos, ficaram ainda mais carentes.

Naturalmente, toda a igreja se mobilizou para ajudar, assim como fizeram outras igrejas cristãs, de diferentes denominações. O poder público, como sempre, agiu de forma fira e impessoal e a ajuda dada foi ridícula.

Muitas pessoas, conhecendo ou intuindo o ensinamento de Jesus de amar quem precisa e que cruza seu caminho, mobilizaram-se de maneira admirável e deram enorme contribuição para minorar o sofrimento das famílias vitimadas. Já outras pessoas agiram como se não fosse com elas, não demonstrando qualquer interesse em ajudar, agindo de forma muito parecida com o sacerdote e o levita que passaram ao largo, na parábola da bom samaritano.

Houve também quem ficasse na dúvida se o sofrimento de quem era desconhecido/a devia merecer ou não ajuda. E ajudaram de forma tímida e contida, meio para “cumprir tabela”. Essas pessoas agiram como o doutro da lei, que não sabia (ou não queria saber) como aplicar o mandamento do amor ao próximo.

Comentário final
Preste atenção que a conversa que Jesus com o doutor da lei tinha como objetivo mais esclarecer o que devia ser feito para herdar o Reino de Deus. Ou seja, o tema era salvação. E Jesus disse explicitamente para o teólogo, depois de contar e explicar o significado da parábola do bom samaritano: “faça isto e viverás“.

Você poderia me perguntar: mas salvação não é por fé? Como Jesus diz que é preciso fazer determinada coisa (amar o próximo) para herdar o Reino de Deus? A razão é simples: a fé que abre as portas da salvação é autêntica, viva. E conforme Tiago (capítulo 2, versículo 17) lembrou muito bem: “a fé sem obras é morta“.

Ou seja, a fé que não gera ação, motivada pelo desejo de fazer a vontade de Deus, é apenas nominal e teórica. Não tem qualquer significado prático. Não leva à salvação.

A vida coloca repetidas vezes diante de cada um/a de nós a decisão de “amar” ou “deixar de amar”. São escolhas cujo resultado é crucial nas nossas vidas. E é fundamental escolher certo. 

Com carinho

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