E QUANDO O CRISTÃO NÃO GOSTA DE OUTRAS PESSOAS

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Hoje vamos falar de uma situação muito comum: não gostar de outras pessoas.

Certa vez perguntaram ao pastor de uma grande igreja nos Estados Unidos porque ele passava muitas horas por dia orando e ele respondeu, com franqueza: “minha igreja é muito grande e tem gente nela de quem não gosto, e eu preciso orar muitas horas por dia para que Deus me ensine a amar todas essas pessoas”.

Esse pastor admitiu abertamente um problema muito comum: mesmo sendo cristãos, na prática, não conseguimos gostar de várias pessoas, inclusive pessoas com quem convivemos nas nossas igrejas.

Agora, como não fica bem para cristãos admitirem não gostar de outras pessoas, pois isso seria também admitir não seguir o mandamento de Jesus para amar ao próximo, a solução para esse dilema é bem conhecida: vestir uma máscara. Fingimos gostar de quem, de fato, não gostamos. E, nesse processo, acabamos criando mais um problema para nós mesmos/as: a hipocrisia. 

É claro que frequentemente há razões verdadeiras para não gostar de certas pessoas: elas nos fizeram algum mal ou são de difícil convivência (desagradáveis, encrenqueiras e assim por diante). Mas, o problema é que Jesus não nos mandou amar apenas as pessoas que são boas para nós e/ou de convivência agradável. Ele nos disse para amarmos todos/as que vierem a cruzar pelo nosso caminho.

E a parábola do bom samaritano, onde Jesus tratou exatamente da questão do amor ao próximo, deixou claro que não podemos fazer acepção de pessoas no que tange ao cumprimento desse mandamento. De acordo com o relato da parábola, havia um homem judeu caído à beira da estrada e quem cuidou dele, sem nada pedir em troca, foi um samaritano (Lucas 10:25-37). Ora, naquela época, judeus desprezavam samaritanos e esses retribuíam com igual fervor. Mas foi justamente um samaritano quem cuidou do judeu necessitado.

Portanto, nossa obrigação com o próximo não se limita a quem já conseguimos gostar, a que já têm um lugar nos nossos corações. Nossa obrigação vai bem mais além. Precisamos amar também as pessoas que nos desagradam e até aquelas que eventualmente nos fizeram mal. E isso é bastante difícil.

As razões para o mandamento do amor ao próximo
Por que somos cobrados por Jesus para amar ao próximo, sem fazer distinções? Acredito que haja duas razões principais para esse mandamento. E a primeira delas é que, se esse mandamento fosse seguido por todos/as, o mundo seria um lugar muito melhor para se viver.
A alternativa ao mandamento do amor ao próximo é “olho por olho e dente por dente”, ou seja, vingar o mal recebido na medida em que ele nos foi feito. Mas, se isso for levado a ferro e fogo, a humanidade toda acabaria cega e/ou banguela. Afinal, todos/as, mesmo sem querer, fazemos mal ao próximo, assim como também sofremos coisas ruins vindas de terceiros. E todo mundo, portanto, tem agravos a partir do qual poderiam exercer vingança, como também precisaria sofrer na carne a retribuição do que tiver feito de errado. E esse processo de vingança contínuo não acabaria nunca e o mundo seria um lugar muito ruim para se viver.
O mandamento do amor ao próximo quebra esse ciclo, reconhecendo que o ódio e a vingança destroem, enquanto o amor constrói. Simples assim.
A segunda razão para que Jesus tenha nos compelido a amar ao próximo, sem fazer acepção de pessoas, é porque isso é um ato de humildade. E a humildade é necessária porque nos julgamos melhores do que de fato somos, quando comparados às outras pessoas. E é fácil de demonstrar isso: quando julgamos o próximo, somos rápidos em apontar para os erros das pessoas, mas quando julgamos a nós mesmos, sempre levamos em conta nossas “boas intenções”, minimizando nossas próprias faltas. Assim, se eu ofendo alguém, justifico-me alegando que fiz isso sem querer, sem ter tido intenção de causar mal. Mas, quando alguém me ofende, fico bravo e cobro satisfações, e, na minha ira, que julgo muito justificada, não me preocupo muito as intenções reais de quem me tiver me ofendido.
Precisamos nos dar conta dessa e de outras contradições que abrigamos dentro de nós mesmos e nos colocar sinceramente diante de Deus, pedindo para o Espírito Santo nos renovar e ensinar a amar o próximo, da mesma maneira como gostaríamos de ser amados. E essa é a motivação do pastor (que citei logo no começo deste texto) passar tantas horas por dia em oração. Ao invés de pedir a Deus para mudar as outras pessoas e fazer com que passem a compreendê-lo melhor e serem mais boazinhas com ele, o pastor pede para Deus mudá-lo.  
E, ao caminhar junto com o Espírito Santo, diariamente, você poderá vir a ser renovado em três áreas muito importantes da sua vida:

1. Caminhar rumo à santificação
A palavra “santo” quer dizer separado ou reservado para determinado uso específico. E é isso que precisamos: tornarmo-nos separados para viver e fazer a obra de Cristo na terra.

E é fácil de ver como estamos longe disso. Faça para você mesmo/a algumas perguntas e responda com sinceridade: será que você é santo, isto é, se comporta de maneira diferente das pessoas que não acreditam em Jesus? Você é diferente delas em casa, no trabalho, na vida social e em todos os demais lugares?

Infelizmente, não é isso que os estudos mostram. Na prática, não há muita diferença entre cristãos e não cristãos. George Barna, um pesquisador cristão, fez, em 2001, um profundo estudo visando responder exatamente essa questão: quão diferente os cristãos são mesmo do restante da sociedade?

Esse estudo está resumido no livro “A segunda vinda da igreja” (“The second coming of the church”). Os dados usados nele são de outro país (os Estados Unidos), mas não acredito que os brasileiros sejam muito melhores do que os americanos e, portanto, o que foi aprendido lá serve de alerta para nós também aqui.

O estudo fez diferentes perguntas – quem doa para obras assistenciais, quem serve o próximo, qual é o comportamento moral das pessoas, etc – e separou as respostas em dois grupos, semelhantes em tudo, exceto que um deles era composto por crentes e o outro por pessoas não cristãs. E a diferença de comportamento encontrada foi muito pequena – vejamos alguns exemplos interessantes:

  • Prestar serviço ao próximo: 29% dos crentes faziam isso, enquanto 27% dos não cristãos também, ou seja, quase a mesma proporção.
  • Doar para obras assistenciais: 48% dos não cristãos doavam e 47% dos cristãos também. Na média, os não cristãos se mostraram ligeiramente mais generosos. E não podemos deixar de notar que mais da metade dos integrantes do grupo cristão não doava nada.
  • Ler horóscopo e ser deixar influenciar por ele: 36% da população, tanto cristãos, como não cristãos, lia as recomendações do horóscopo e se deixava, de alguma forma, influenciar por ele.
  • Outros tópicos como participar de fofoca ou de promiscuidade sexual também demonstraram pouco diferença no comportamento entre os grupos de cristãos e de não cristãos.

Infelizmente, os cristãos não conseguem se diferenciar dos não cristãos, ou seja, não são santificados, e por isso causam pouco impacto na sociedade. Não são separados para viver uma vida diferente e aí não conseguem ser sal da terra e, muito menos, luz do mundo.

Precisamos mudar nossas atitudes e ações e caminhar no sentido da santidade (1 Pedro 1:14-15). Sem isso, nada vai mudar nas nossas vidas.

E, no caso da nossa relação com outras pessoas, um bom ponto para começar é parar de acusar as outras pessoas, enquanto ficamos arranjando desculpas para nossos próprios erros.

2. Aprender a ouvir e ter empatia
Criticar é muito mais fácil do que ouvir e ainda mais fácil do que amar. Portanto, precisamos pedir a Deus que aumente muito nossa capacidade de ouvir o que as pessoas querem nos dizer e também passar a olhá-las com mais empatia, para entendermos melhor suas razões, circunstâncias e dificuldades.
E precisamos parar de apontar o que não gostamos nos outros. É muito melhor passarmos a descobrir o que gostamos, ou podemos vir a gostar, nas pessoas, especialmente naquelas que nos desagradam.
3. Construir uma nova relação com nosso entorno, incluindo a igreja
Ouço com frequência as pessoas dizerem: “estou procurando uma igreja que preencha minhas necessidades”. Mas quem disse que a igreja existe para nos servir?

Quem pensa assim se esquece que nós somos a igreja e estamos aqui para servir o mundo e não para sermos servidos. Em outras palavras, precisamos deixar de pensar em nós mesmos como se fôssemos o centro do mundo, a razão de ser das coisas. Veja o ensinamento de Filipenses 2:3-5:

Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus…

Precisamos sair do nosso conforto. Servir com paixão. Fazer a diferença. E, sobretudo, aprender a gostar mais de dar do que de receber (Atos 20:35).

Com carinho

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