E QUANDO A PESSOA NÃO GOSTA DE ESTUDAR A BÍBLIA?

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Um dos maiores problemas no meio cristão hoje em dia é que muito poucas pessoas leem a Bíblia com frequência. Se você não acredita em mim, faça o seguinte teste, respondendo com sinceridade: você lê a Bíblia (não estou falando de textos cristãos e sim da Palavra de Deus em si) por pelo menos 15 minutos diariamente?

Acredito que não. E boa parte daquelas que leem a Bíblia, testemunham não entender bem o texto. E isso é muito ruim porque a Bíblia é o manual de comportamento relacionado com a fé cristã – ali encontramos tudo que precisamos saber para fortalecer nossa fé e viver uma vida adequada aos olhos de Deus.

As raízes do problema
Há várias razões para essa situação ruim – vejamos as quatro mais importantes (há outras não discutidas aqui por falta de espaço). Considerando tudo o que digo abaixo, não é de surpreender que as pessoas vejam com tão pouca prioridade o estudo da Bíblia:
1. Os brasileiros não têm o hábito de ler

O hábito da leitura no Brasil não é muito difundido – essa é uma realidade que fica patente quando analisamos as estatísticas. Por exemplo, apenas metade da nossa população costuma ler livros – a leitura vem apenas em décimo lugar entre as atividades de lazer (a primeira é assistir televisão e a segunda é navegar na Internet). Temos apenas 1.400 livrarias no Brasil (e várias estão fechando por problemas econômicos). E por aí vai.

Num cenário como esse não é de se estranhar muito que as pessoas leiam pouco a Bíblia, que ainda assim é sempre o livro mais vendido no mercado brasileiro.

2. Os usos e costumes relatados na Bíblia são muito diferentes dos nossos

A Bíblia relata eventos que começaram a acontecer cerca de 4 mil anos atrás, se tomarmos a história de Abraão como ponto de referência (outros relatos são de eventos ainda mais antigos). Os últimos eventos ali relatados – o início da história da igreja cristã – aconteceram pouco menos de dois mil anos atrás.

Ora, não é de se admirar que os relatos bíblicos reflitam um mundo meio estranho para os dias atuais. Os costumes e outras práticas sociais, a forma de governo, a tecnologia disponível e tudo o mais têm pouco a ver com aquilo que vivemos hoje. E, por causa disso, muitas vezes as pessoas acham difícil se identificar com os personagens bíblicos e tirar lições de vida dali.

3. A linguagem da Bíblia é difícil de entender

Os textos bíblicos não têm uma linguagem simples de entender. Além de refletirem um tempo muito distante, conforme já disse, a linguagem utilizada adota um jargão próprio (muito parecido como acontece em outros setores do conhecimento humano, como na economia, com o famoso “economês”). Certas palavras e expressões, para quem não está acostumado com elas, parecem não fazer muito sentido. Por exemplo, Messias, Trindade, santificação, justificação, Cordeiro de Deus e assim por diante.

4. O texto bíblico incomoda

A Bíblia tem texto denso, cheio de conceitos teológicos e filosóficos. E ela incomoda os leitores porque fala de coisas que parecem desagradáveis, como pecado, Satanás e inferno. As preferem dedicar tempo a coisas que parecem mais otimistas e leves – vem justamente daí o sucesso dos livros de autoajuda, que procuram ensinar as pessoas que elas sempre podem realizar seus sonhos e, ainda melhor, merecem conseguir fazer isso.

Colocando a máscara de conhecedor da Bíblia
A experiência mostra que as pessoas, dentro das igrejas, gostam de passar uma imagem de serem conhecedoras pelo menos razoáveis da Bíblia, embora enfrentem todas as questões que acabei de comentar. E é aí que tentam colocar uma “máscara” de conhecedores daquilo que de fato não conhecem. Vejamos dois exemplos muito comuns

1. O uso de chavões

Certa vez, eu estava participando de um debate numa igreja e discutíamos uma questão de comportamento importante que tinha grande reflexo na comunidade local. O debate era se determinado comportamento era ou não pecado e o que fazer a respeito.

Aí um dos presentes declarou solenemente: “Deus detesta o pecado, mas ama o pecador”.  Essa frase não está na Bíblia, mas ainda assim acredito que reflita a verdade, fazendo uma reflexão teológica com base nos ensinamentos bíblicos. Mas, quando os presentes pediram a essa pessoa que explicasse, na prática, qual era sua sugestão, nada de útil saiu dali. A pessoa simplesmente tinha repetido um chavão para parecer estar em sintonia com a Bíblia.

E isso é muito comum. As pessoas costumam decorar alguns poucos versículos – p. ex. “todas as coisas contribuem para o bem daquele que amam a Deus” ou “maior é o que está em nós do que aquele que está no mundo” –  e repetem essas frases para mostrar que conhecem a Bíblia. Mas, na verdade, muitas vezes nem sabem bem o que elas significam e muito menos conhecem o contexto em que foram ditas e quando são de fatos aplicáveis.

2. O uso de ensinamentos de terceiros sem qualquer crítica

Frequentemente, fica mais fácil obter conhecimento bíblico de “segunda mão”, ou seja, usar estudos e conclusões preparados por pastores/as e professores/as bíblicos sem passá-los por qualquer crítica – afinal, é mais fácil receber o “prato de comida” pronto. E esses ensinamentos de terceiros são tomados como verdades absolutas, quase do mesmo nível que os ensinamentos da própria Bíblia.

Ora, essa postura comodista gera um risco sério: acabam conhecendo as verdades bíblicas filtradas pelo ponto de vista desses intermediários e há risco de serem introduzidas distorções. Vejamos um exemplo desse tipo de perigo.

Certa vez, eu estava debatendo com uma pessoa no site e ela contou que seu pastor tinha ensinado que Jesus só atendia quando chamado pelo seu nome em hebraico (Yeshua ou Yehoshua). Isso porque as pessoas só respondem quando chamadas pelo nome que de fato usam. E esse ensinamento virou uma verdade absoluta para aquela pessoa e foi por isso que ela me criticou, pois, nos meus textos, costumo me referir a Jesus pelo seu nome em português.

Quando argumentei que em nenhum lugar da Bíblia havia esse requisito, a pessoa ficou muito surpreendida. E mais ainda quando comentei que, ao longo da história do cristianismo, bilhões de pessoas já invocaram o Filho de Deus sem saber seu nome original e, se fosse assim, nenhuma delas teria tido resposta d´Ele. 

Na verdade, as pessoas querem mostrar que sabem das coisas e participar dos debates relacionados com sua religião e aí, como não conhecem a Bíblia de fato, tomam conceitos emprestados e os usam sem qualquer preocupação de verificar se correspondem ou não com a doutrina cristã. Foi por causa disso que publicamos aqui no site uma série de estudos que a pastora Carol e eu fizemos, ao longo do segundo semestre de 2018, intitulada “Coisas tolas que muitos cristãos acreditam” – nela tratamos de várias dessas pseudo-verdades bíblicas comumente utilizadas no meio evangélico.

Como tirar a máscara
  • Se sua resposta à pergunta que fiz no começo desta postagem foi que você de fato não estuda a Bíblia como deveria, está na hora de mudar essa situação. Tome a decisão de estudar a Bíblia pelo resto da sua vida.
  • Leia e estude a Bíblia como achar melhor, segundo o que tiver mais interesse ou adote um dos inúmeros planos de leitura que ajudam a estabelecer esse tipo de disciplina.
  • Use no seu estudo uma tradução da Bíblia com linguagem mais atual – como a “Nova Versão Internacional” ou a “Bíblia na Linguagem de Hoje” -, que certamente vai tornar a leitura mais agradável e acessível.
  • Consiga um dicionário de termos bíblicos, para ajudar com o jargão bíblico e no entendimento de alguns conceitos teológicos pouco comuns.
  • Consiga ainda um bom comentário da Bíblia para ajudar você a entender o contexto dos ensinamentos bíblicos – consulte seu pastor/a ou líder de Escola Dominical para obter a indicação de um texto confiável e adequado.
  • Frequente estudos bíblicos sempre que possível (Escola Dominical e outros).
  • Não pense que a Bíblia não é mais relevante, por ter sido escrita tanto tempo atrás. Lembre-se que ela é a Palavra de Deus e Ele não muda e conhece bem as necessidades dos seres humanos. Além disso, a natureza humana continua a mesma, exatamente como era no passado, o que adquirirmos foi simplesmente um “verniz” cultural. Lutamos hoje com os mesmos problemas que os personagens bíblicos enfrentaram, inclusive os mesmos sentimentos contraditórios (amor, ódio, misericórdia, desejo de vingança, desprendimento, cobiça e assim por diante) e tentações.
  • Acostume-se a ir verificar os estudos de terceiros, mesmo quando passados em pregações, para ver se batem de fato com o que a Bíblia ensina. Não aceite as “verdades” bíblicas que lhe passarem sem ter oportunidade de ir à fonte verificar se estão corretas.
  • Finalmente, seja humilde. Convença-se que sempre haverá muito a aprender na Bíblia e que você nunca saberá o suficiente – eu estudo a Bíblia há 30 anos e com frequência me surpreendo ao encontrar coisas que desconhecia totalmente ou ao aprender interpretações de certos textos muito superiores àquelas que conhecia até então.

Concluindo, o estudo da Bíblia é uma das coisas mais interessantes que você terá oportunidade de fazer na sua vida. Você vai aprender muito sobre história, os planos de Deus e a sua própria natureza. Pode ter certeza que você vai mudar lendo e estudando a Bíblia. E para melhor.

Com carinho

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