UM PESO E DUAS MEDIDAS

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Há um ditado popular muito conhecido que diz: Aos amigos e à família tudo, aos inimigos a lei. Esse é um dos pontos de partida da ideia de usar um peso e duas medidas.

Esse ditado indica que, para muita gente, o tratamento dado às pessoas a quem se quer bem deve ser o melhor possível, mesmo que viole as leis, enquanto, para os demais, valem as leis e as regras, aplicadas com rigor. O ditado ensina que se deve tratar pessoas diferentes segundo padrões distintos, beneficiando mais a quem se ama. 

Esse padrão ético duplo, infelizmente, é uma realidade arraigada na sociedade em que vivemos. A ideia de usar um peso e duas medidas está tão presente que esse comportamento chega até a ser esperado. E tanto isso é verdade que, quando alguém age de forma diferente, fazendo aquilo que é de fato o certo, esse comportamento gera até notícia na mídia.

Anos atrás, uma mulher entregou o próprio filho, que era traficante de drogas, à polícia do Rio de Janeiro porque entendeu que ele estava em dívida com a lei e a sociedade. E esse fato foi até capa de jornais. 

O que se espera mesmo é ver filhos, esposas e familiares contratados para cargos públicos para os quais não têm a necessária qualificação; funcionários injustamente promovidos, em detrimento de outros, por causa de laços de amizade ou políticos; a leniência da justiça quando o acusado tem dinheiro e/ou poder; e assim por diante.

Esse padrão ético injusto não vale só para pessoas,  sendo bastante comum também nas relações entre nações. E os exemplos históricos são muitos – vou dar aqui apenas um deles.

Hoje há uma grande preocupação na opinião pública  mundial pelo fato da Coréia do Norte ter a bomba atômica e o Irã tentar fazer o mesmo. E quero deixar bem claro, desde já, que não sou favorável nem ao regime da Coréia do Norte e muito menos ao do Irã, como também sou contra as armas nucleares. 

Ora, a realidade atual é que umas poucas nações – por exemplo, China, Estados Unidos, França e Rússia – têm armas nucleares e as outras não.  E a nação que não tem esse tipo de armamento é criticada quando tenta obter-lo para se sentir mais segura. E a desculpa dada para essa assimetria é que as nações que já têm bombas atômicas seriam “confiáveis” e é preciso evitar a disseminação das armas nucleares.

Mas, será possível concordar com o rótulo de “confiável” para os Estados Unidos dirigido pelo Trump, ou a Rússia dirigida pelo Putin ou para o regime totalitário da China? Parece-me que não.

É claro que as razões dessa assimetria são bem outras: quem tem armas nucleares adquire poder e é preciso limitar as nações com acesso a tal poder. Esse é um caso clássico de um peso e duas medidas. O correto seria ninguém ter armas nucleares e aí os países teriam moral para cobrar essa posição uns dos outros. 

O problema com a ideia de um peso e duas medidas é que a confiança entre pessoas ou nações desaparece. E a sociedade, como um todo, passa a funcionar pior do que poderia. E é por causa desse tipo de ética torta que a maioria dos países se protege atrás de fronteiras fortemente guardadas e gasta muito dinheiro para ter manter forças armadas fortes, garantindo seus interesses. 

As pessoas com mais condições fazem o mesmo nas sociedades onde vivem. Moram em casas gradeadas, contratam segurança particular, blindam seus carros, usam advogados extremamente caros para defender seus interesses e assim por diante. Procuram se proteger também através de redes de amizades, onde há trocas de favores. E sempre tentam eleger políticos que lhes possam favorecer. 

Por causa dessas atitudes, a sociedade atual acaba vivendo um grande engano: tudo parece estar em ordem aparente, mas há graves problemas. E esses problemas mostram sua cara tenebrosa quando alguma crise bate às portas, destruindo o equilíbrio precário. Esse foi o caso da crise financeira que se abateu sobre os mercados internacionais em 2008-2009 e, hoje em dia, a crise trazida pela pandemia do coronavírus.

O terrorismo mundial volte e meia ataca e lembra o mundo que há grandes tensões políticas e sociais não resolvidas. E a violência urbana também nos alerta diariamente a sociedade para as injustiças sociais.

Mas, será que há um remédio para esses males todos? Há sim, mas, infelizmente, ele é pouco usado. Refiro-me ao mandamento do amor ao próximo dado por Jesus, que pode ser resumido assim: Aja com o outro como gostaria que ele agisse com você.

Esse é um padrão ético perfeito e que pode ser aplicado em qualquer situação e com qualquer pessoa. Nele, não há lugar para um peso e duas medidas. 

Assim, se quero me sentir seguro, não posso ameaçar o próximo; para eu viver confortavelmente, meu vizinho tem precisa viver igualmente bem; se não gostaria de ser injustiçado, não devo ser injusto com quem depende de mim; e se preciso de apoio nas minhas aflições, também preciso apoiar outras pessoas quando elas passarem por dificuldades. Imagine como o mundo seria  muito melhor de se viver, se essa regra simples estivesse em vigor. 

Então, o que cabe a você fazer? Afinal, você sabe que não pode mudar o mundo sozinho. A resposta para essa pergunta é simples: Faça sua parte. Aja como se tudo dependesse apenas de você e procure sempre fazer a coisa certa. Você não vai mudar o mundo sozinho, mas pode, e deve, dar sua contribuição.

Nós, cristãos, precisamos dar o exemplo, pois é isso que Deus espera de nós.

Com carinho

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