DESEJOS SOMBRIOS: INVEJA, CIÚME E COBIÇA

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Hoje vou falar dos desejos sombrios: inveja, ciúme e cobiça. Esses desejos quase sempre afastam as pessoas de Deus e por isso se tornam ruins. E fazem isso porque estão essencialmente baseados na vontade de ter alguma coisa ou proteger aquilo que já se tem.

Como os desejos humanos baseados no ter são muitos e variados (dinheiro, poder, realização, relacionamentos amorosos, etc), indo muito além das necessidades humanas básicas (alimento, roupa e abrigo), é natural que muitos deles acabem sendo frustrados. E essa frustração (ou o medo dela acontecer) é a matriz dos sentimentos sombrios. Vamos ver como esses sentimentos funcionam na prática.

Inveja: o ressentimento por não ter
É o ressentimento que a pessoa pode desenvolver por não ter alguma coisa que deseja e ver que outros já possuem o objeto do seu desejo. E esse tipo de ressentimento pode assumir contornos muito sérios. Por exemplo, veja o que Asafe sentiu, quando se comparou a outras pessoas que considerava mais afortunadas, conforme consta no relato de Salmo 73:1-5:

Verdadeiramente bom é Deus para com Israel, para com os limpos de coração. Quanto a mim, os meus pés quase que se desviaram; pouco faltou para que escorregassem os meus passos. Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios. Porque não há apertos na sua morte, mas firme está a sua força. Não se acham em trabalhos, nem são afligidos como outros homens.

O foco da inveja de Asafe era a prosperidade dos ímpios. Ele devia lutar com dificuldades para manter um padrão de vida adequado e percebeu que os ímpios – corruptos, mentirosos e outros – prosperavam, sem passar por qualquer problema aparente. E é exatamente isso que a inveja faz: quem é invejado parece estar em muito melhor condição do que de fato está, enquanto quem inveja se sente pior do que sua realidade é.

Ciúme: o ressentimento por medo de perder o que já se tem
É o ressentimento da pessoa pelo medo de perder o que já tem, ou pensa ter. Trata-se de um perigo frequentemente imaginado.

O ciúme é muito frequente nos relacionamentos amorosos, mas não se limita a eles. Há também ciúme de coisas materiais – eu, por exemplo, sou ciumento dos meus livros. Bem como está presente em muitos outros tipos de relacionamento, como entre pais e filhos, entre irmãos, entre amigos e até no ambiente profissional.

O ressentimento causado pelo ciúme é muito destrutivo. Veja o que aconteceu com José, filho de Jacó (Gênesis 37:3-4 e 26-28):

E Israel amava a José mais do que a todos os seus filhos, porque era filho da sua velhice; e fez-lhe uma túnica de várias cores. Vendo, pois, seus irmãos que seu pai o amava mais do que a todos eles, odiaram-no, e não podiam falar com ele pacificamente…Então Judá disse aos seus irmãos: Que proveito haverá que matemos a nosso irmão e escondamos o seu sangue? Vinde e vendamo-lo a estes ismaelitas, e não seja nossa mão sobre ele; porque ele é nosso irmão, nossa carne. E seus irmãos obedeceram. Passando, pois, os mercadores midianitas, tiraram e alçaram a José da cova, e venderam José por vinte moedas de prata, aos ismaelitas, os quais levaram José ao Egito.

O ciúme dos irmãos de José era tão grande que os levou a cometer um crime bárbaro. E muitos crimes tão bárbaros como esse já foram praticados por causa de ciúme.

Cobiça
É desejo extremamente forte de ter alguma coisa. Esse desejo costuma dominar a pessoa e fazer com que ela fique cega para as consequências dos seus atos  – por isso a cobiça também é conhecida como ambição cega.

Esse tipo de sentimento é muito evidente em políticos, artistas e empresários – essas pessoas costumam fazer qualquer coisa para conseguir o que querem. Veja um exemplo bíblico da cobiça em ação: o caso do adultério de Davi com Bate-Seba (2 Samuel 11:2-4):

E aconteceu que numa tarde Davi se levantou do seu leito, e andava passeando no terraço da casa real, e viu uma mulher que estava se banhando; era esta mulher mui formosa à vista. mandou Davi indagar quem era; e disseram: Porventura não é esta Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu? Então enviou Davi mensageiros, e mandou trazê-la; ela veio, e ele se deitou com ela; então voltou ela para sua casa.

Davi estuprou Bate-Seba – esse é o termo correto para essa situação. Afinal, Davi se valeu do seu poder para conseguir uma mulher que não era sua de direito, somente por tê-la cobiçado. E sabemos que as consequências desse ato foram terríveis.

A cobiça é tão perigosa que está especificamente proibida nos Dez Mandamentos (Êxodo 20:17):

Não cobiçarás a casa do teu próximo, a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

Os problemas gerados pelos desejos sombrios
Há vários problemas, mas vou me limitar aqui a discutir três. O primeiro deles é que inveja, ciúme e cobiça costumam andar juntos com outros sentimentos destrutivos, especialmente a ira não justificada. Isso porque o ressentimento pela frustração de um desejo forte frequentemente é tomado como uma violação de um “direito” e isso gera ira (veja mais). E essa ira costuma gerar vontade de retaliar quem esteja atrapalhando – por exemplo, foi isso que aconteceu com os irmãos de José.

O segundo problema é que os desejos sombrios podem acabar por destruir aquilo que tanto se quer. Isso fica evidente no caso de empresários e políticos corruptos, hoje presos por terem apelado para práticas ilegais para conseguir dinheiro e poder. Também é comum ver relações amorosas destruídas pelo ciúme sem medida, ou amizades que acabam por causa da inveja. Repare que Asafe comentou que sua inveja quase fez com que ele perdesse sua relação com Deus – ele alegou que seus pés quase resvalaram.

O terceiro problema é que os desejos sombrios costumam crescer e virar obsessão. A relação entre o rei Saul e Davi demonstra bem isso. No início, o rei amou o jovem pastor – a lira de Davi acalmava a mente de Saul. E Saul era grato pelo ato de bravura do jovem de Davi, quando enfrentou e matou Golias. Mas, a partir de certo ponto, Saul ficou enciumado (1 Samuel 18:9):

Sucedeu, porém, que, vindo eles, quando Davi voltava de ferir os filisteus, as mulheres de todas as cidades de Israel saíram ao encontro do rei Saul, cantando e dançando, com adufes, com alegria, e com instrumentos de música. E as mulheres respondiam umas às outras, dizendo: Saul feriu milhares, porém, Davi dez milhares. Então Saul se indignou muito, e aquela palavra pareceu mal aos seus olhos, e disse: Dez milhares deram a Davi, e a mim somente milhares; na verdade, que lhe falta, senão o reino? desde aquele dia Saul tinha Davi em suspeita.

E o ciúme do rei foi crescendo, à medida em que ele comparava suas habilidades com as de Davi. E isso tornou-se uma obsessão, chegando ao ponto em que Davi foi obrigado a fugir da corte, no que foi ajudado pelos próprios filhos de Saul, inconformados com a atitude do pai.

O antídoto contra os desejos sombrios
A grande resposta aos desejos sombrios é o conhecimento de Deus: criar intimidade com Ele e passar a discernir sua ação no mundo em geral e na própria vida.

Em dado momento da sua luta espiritual, Asafe entendeu essa verdade e percebeu que a punição dos ímpios não se daria da forma como ele desejava e achava justa. Cabia a ele aprender a confiar na justiça divina (Salmo 73:22-28):

Assim me embruteci, e nada sabia; fiquei como um animal perante ti. Todavia estou de contínuo contigo; tu me sustentaste pela minha mão direita. Guiar-me-ás com teu conselho e depois me receberás na glória. Quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti. Minha carne e meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e minha porção para sempre. Pois eis que os que se alongam de ti, perecerão; tu tens destruído todos aqueles que se desviam de ti. Mas para mim, bom é aproximar-me de Deus; pus minha confiança no Senhor DEUS, para anunciar todas as tuas obras.

Asafe percebeu que nada se compara a uma relação estreita com Deus. É por isso que inveja, ciúme e cobiça indicam para uma relação distorcida com nosso Pai celestial. Primeiro, porque demonstra que Deus não está em primeiro lugar na vida da pessoa. Depois, porque esses sentimentos indicam que a pessoa confia mais nos próprios recursos do que na ação de Deus.

Concluindo, desejar algo, por si só, não é ruim. A diferença entre um desejo puramente carnal – aquele que costuma levar a sentimentos sombrios – e o desejo que agrada a Deus depende essencialmente do objeto do desejo e do propósito dele. O desejo puramente carnal é voltado para ter, não leva em conta a presença de Deus e menos ainda o impacto dos próprios atos na vida das outras pessoas. Nesse caso o objetivo é simplesmente satisfazer a própria vontade. E, nesse sentido, o desejo não engrandece a Deus e sim ao próprio ser humano.

O desejo que agrada a Deus não tem como objetivo conquistar alguma coisa pelo simples prazer da posse. Aqui, o desejo aparece pela vontade de criar, de fazer, refletindo o ato de criação do próprio Deus. E, portanto, nesse sentido, glorifica a Ele.

O desejo abençoado por Deus ainda tem uma outra vantagem: tira a pessoa da sua zona de conforto e a faz buscar a excelência, imitando aquilo que o próprio Deus, quando criou o mundo.

Com carinho

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