DESAFIOS PARA INTERPRETAR A BÍBLIA

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Bíblia é a Palavra de Deus, a revelação que Ele deu para os seres humanos sobre uma série de coisas muito importantes. A Bíblia é simplesmente a base da nossa fé. Mas é preciso reconhecer que não é fácil interpretá-la. 

Mas é fundamental para a vida espiritual das pessoas aprender a fazer isso bem. Afinal,uma interpretação errada da Bíblia, mesmo que bem intencionada, pode gerar um desastre. Por exemplo, no século XVIII, havia várias interpretações da Bíblia (algumas bem intencionadas) que davam suporte moral para a escravidão. E por causa disso muitos cristãos se julgaram amparados ao apoiar essa prática.

E quando alguém tenta aprender a interpretar a Bíblia, vai precisar enfrentar alguns desafios. E vou discutir aqui aqueles que talvez sejam os dois mais importantes dentre eles: 

O desafio da passagem do tempo
A passagem do tempo – entre a data em que os textos bíblicos foram escritos e os dias de hoje – gera um grande desafio. Não há como deixar de reconhecer que a Bíblia retrata os costumes das épocas em que os vários autores dos seus textos viveram, um período que vai de 2.000 a 3.500 anos atrás. 
Ora, os hábitos e práticas de vida mudaram imensamente nesse período. Coisas que eram normais 3.500 anos atrás são consideradas absurdas hoje em dia.

Por exemplo, nos tempos bíblicos, os contratos de casamento eram feitos com base em negociações conduzidas entre o pai ou o irmão mais velho da moça e o candidato à mão dela (ou um representante seu). Essas negociações sempre envolviam pagamentos por parte do noivo, pois se tratava essencialmente de um negócio – quem possuía um bem (o dono da moça virgem) cedia essa propriedade para alguém interessado em comprá-la (o noivo).

Hoje as pessoas usam essencialmente o casamento para encontrar a felicidade. Querem encontrar o “par perfeito” ou sua “alma gêmea”. E nessa busca, homens e mulheres são igualmente ativos e livres para escolher – ninguém mais é dono de ninguém. E se a felicidade não for encontrada, as pessoas se sentem livres para romper o vínculo matrimonial e tentar um novo casamento, sem muita culpa.

A situação nos tempos bíblicos e a atual são completamente diferentes. Portanto, é preciso muito cuidado ao transportar para os dias de hoje as regras de vida sobre casamento que são exemplificadas na Bíblia. Lá atrás, a mulher era a parte mais fraca e havia até a possibilidade do homem se casar várias vezes (poligamia). Hoje a mulher age com igualdade de direitos e goza de oportunidades parecidas que o homem.

O mesmo pode ser dito sobre uma série de outras coisas, como a moralidade sexual, a compra de propriedades, a forma de governo ou até a organização da religião. As diferenças na forma de viver são tantas que é até surpreendente podermos continuar a aceitar os ensinamentos bíblicos como relevantes hoje em dia. 

Agora, acredito que isso por duas razões. A primeira delas é que a essência dos seres humanos não mudou ao longo do tempo – seus desejos, suas falhas de caráter (inveja, cobiça, etc) são os mesmos hoje que eram milhares de anos atrás.

Portanto, conseguimos nos reconhecer nos personagens bíblicos e nos vemos fazendo coisas parecidas com aquelas que eles fizeram milhares de anos atrás, pois sentimos a mesma inveja, ciúme, medo, etc que eles sentiram. Os exemplos  de vida, tanto para o bem como para o mal, continuam a nos ensinar hoje. 

A segunda razão para os textos bíblicos continuarem relevantes para nós é que eles são fruto de uma iniciativa de Deus – os escritores da Bíblia foram inspirados a escrever aquilo que Deus queria nos revelar. E é evidente que, se Deus queria nos contar algo, essa revelação é e sempre será importante e útil. 

O desafio da forma literária
Há outro desafio para a interpretação correta dos textos bíblicos: a existência de  diferentes formas literárias entre os 66 livros da Bíblia. Temos ali poesia (Salmos e Cantares de Salomão), relatos históricos (p. ex. Êxodo, Samuel, Reis, os Evangelhos e Atos dos Apóstolos), pensamentos (Eclesiastes e Provérbios), visões (Apocalipse), estudos teológicos (Romanos) e por aí vai. É um conjunto bem variado e interessante.
Ninguém tem dúvida, acredito eu, que não se deve interpretar uma poesia da mesma forma que um texto histórico. Poesias usam linguagem simbólica para passar um significado, enquanto um texto histórico pretende apenas descrever, da forma mais fiel possível, como determinados fatos ocorreram. São propósitos literários diferentes. São formas literárias distintas.
Por conta disso, um texto histórico deve ser, em princípio, interpretado literalmente, isto é, deve ser entendido exatamente como foi escrito. Já uma poesia é diferente. É preciso buscar o simbolismo que está por trás do texto. E se numa poesia estiver dito que “minha amada é uma flor”, o leitor não deve entender que a mulher em questão é de fato um vegetal. Trata-se de um simbolismo que indica que aquela pessoa é bonita como uma flor.
O mesmo pode se dizer de uma visão, como o Apocalipse. Esse tipo de texto também é essencialmente simbólico, logo a interpretação precisa seguir essa abordagem. No Apocalipse, por exemplo, há uma passagem que fala de 4 cavalos, de cores distintas, que significam morte, fome, guerra e peste. É claro que o texto não está falando de animais reais e assim deve ser entendido.
Para complicar mais as coisas, às vezes um texto que deve ser entendido literalmente – digamos os Evangelhos quando descrevem os atos de Jesus -, de repente traz uma parte baseada em simbolismo – por exemplo, uma parábola que Ele contou. Ao fazer a transição de uma parte do texto para a outra precisamos deixar de lado a interpretação literal e passar a olhar para o que está dito de forma simbólica. 
Infelizmente, as pessoas não costumam muito levar em conta a forma literária e querem interpretar todo o texto da Bíblia de forma literal.  E isso gera todo tipo de absurdo teológico, como teorias as mais descabeladas descrevendo o que vai acontecer no final dos tempos (tema da visão relatada no Apocalipse). 
É por não levar em conta a forma literária do texto sendo lido que as pessoas acham que Deus verdadeiramente tem braços onde podemos nos aninhar ou tem mesmo olhos para enxergar tudo. Ora, Deus é espírito e essas referências a Ele são simbólicas e não podem ser entendidas como descrições físicas de como Ele é de fato.
Palavras finais
Concluindo, quando você estudar um texto da Bíblia sempre leve em conta esses dois aspectos: a diferença entre os costumes da época e os costumes atuais, e a variação da forma literária do texto. São providencias simples que vão ajudar você a evitar erros de interpretação que podem gerar muitos problemas. 

Se você está começando e tem pouca experiência em fazer isso, busque ajuda. Converse com seu pastor/a, inscreva-se num estudo bíblico, compre algum comentário bíblico que ajude você a entender melhor as diferenças existentes entre as diferentes partes do texto bíblico. 

Neste site eu falo muito sobre essas questões em várias outras postagens – faça uma busca e acredito você vai encontrar textos que vão ajudar.

Com carinho

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