O HOMEM QUE DEIXOU DE SER RACISTA

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O racismo é um problema ainda bem presente em nosso país, embora muita gente não queira reconhecer ou entender isso. Até dentro das igrejas cristãs ele ainda se faz presente. Por isso é um tema que volta e meia precisa ser relembrado.  

O pastor John Piper, hoje aposentado, dirigiu por algumas décadas uma das maiores igrejas evangélicas dos Estados Unidos (Bethlehem Baptist Church). Tem muitos livros publicados, vários deles extremamente populares. E é uma das vozes mais respeitadas no mundo evangélico atual.

Anos atrás, ele publicou um novo livro, ainda não traduzido para o português, chamado “Bloodlines” (“Fronteiras pelo sangue”). Descreveu ali , de forma franca e até comovente, sua trajetória, de racista assumido a pai adotivo de uma criança negra. É um depoimento que vale a pena acompanhar:

O período de formação
John Piper conta que foi criado, entre o final da década de 40 e o início da de 50, na cidade de Greenville, Estado de Carolina do Sul, um estado norte-americano bem racista, naquele época. Depois, mudou-se para outras cidades e até morou no exterior, mas reconhece que aqueles anos, na Carolina do Sul, sempre estiveram na raiz do seu problema de racismo.

Naquela época, a Carolina do Norte adotava a política de segregação, que separava lugares e recursos públicos, como bebedouros, banheiros públicos, escolas públicas, lugares nos ônibus, restaurantes, salas de espera de hospitais e até igrejas (incluindo a que Piper frequentava) para uso de brancos e negros.

Piper hoje reconhece que essa política não era justa e nem era amorosa e, portanto, não era cristã. Era pecado puro e simples.  E até hoje lamenta sua cumplicidade com ela. Veja nas palavras dele:

Era assim a cidade onde eu cresci. Eu era um racista. Como criança e adolescente, minhas atitudes e ações levavam em conta a superioridade da minha raça, sem conhecer ou querer conhecer qualquer pessoa negra, exceto a Lucy.

Lucy vinha à nossa casa aos sábados para ajudar minha mãe na limpeza. Eu gostava da Lucy mas toda a estrUtura do nosso relacionamento era iníqua. Aqueles que se defendem dizendo-se bons e caridosos e que os empregados negros até frequentam suas festividades familiares, são ingênuos no que tange ao que torna um relacionamento degradante. 

É claro que éramos agradáveis com ela. Nos amávamos a Lucy… Mas isso desde que ela e sua família soubessem onde era o seu lugar. Sermos agradáveis, termos afeição e permitirmos participação em nossas vidas, é o que fazemos também com nossos animais de estimação. E isto não tem nada a ver com honrar, respeitar e ser igual aos olhos de Deus. E minha amizade por Lucy não restringia em nada minhas atitudes racistas, quando eu estava com meus amigos.

Despertando para o problema
Em dezembro de 1962, a irmã de John se casou e a família da Lucy foi convidada. E eles foram à cerimônia, gerando um momento muito tenso e estranho. Os introdutores na entrada da igreja não sabiam bem o que fazer. Um deles até tentou levar a família de Lucy para o balcão da igreja, que raramente era usado.
Mas a mãe de John, do alto dos seus 1,55m de altura, interveio e tomou as pessoas pelo braço e as levou para sentar no meio da congregação. Veja o que Piper disse:

Minha mãe, depois de Deus, foi a semente da minha salvação. Enquanto eu via o drama se desenrolar, eu sabia bem dentro de mim que as minhas atitudes eram uma ofensa à minha mãe e a Deus. Sou muito grato pela convicção e coragem da minha mãe.

Mais adiante, já na faculdade, Piper conheceu Noël, com quem acabaria se casando, e ela foi fundamental em ajudá-lo a despertar para o problema. Em 1969, quando começou seus estudos no Seminário e já estava casado, aconteceu o assassinato do pastor Martin Luther King Jr., que liderou o movimento pela busca de igualdade de direitos nos Estaos Unidos. 

Foram dias explosivos na política americana e os professores do seminário deram o empurrão que faltava, fazendo os alunos refletirem sobre a iniquidade da política de segregação racial. Um deles, Paul Jewett, compilou uma apostila de 208 páginas intitulada “Leituras sobre o preconceito racial” , que até hoje, cerca de 50 anos depois, John ainda guarda no seu escritório, em frente à sua mesa. A introdução do professor Jewett, na apostila, termina assim:

Precisamos lembrar que se Deus nos deu uma revelação sobre a verdadeira natureza do ser humano, nós seremos cobrados por não viver de acordo com a luz dessa revelação…

Ao terminar o Seminário, John Piper foi fazer doutorado na Alemanha e teve oportunidade de visitar o campo de concentração de Dachau. Ali John tomou consciência do enorme aparato de horror – câmaras de gás, fornos crematórios, campo de concentração, etc – montado em nome da crença da superioridade da raça ariana. E ali ele completou seu aprendizado.

Um homem renovado
Quando John já era pastor titular da igreja que dirigiu por muito tempo e tinha 50 anos de idade, Noël recebeu um telefonema de uma amiga, assistente social, que lhe disse: “Eu encontrei uma garotinha que precisa de uma família. E eu penso que ela é para você”. Veja o depoimento de John:

Será que essa era resposta das muitas orações da minha mulher por uma filha, depois de ter tido 4 filhos? Não foi uma decisão fácil, pois a criança era negra. E recomeçar na função de pais, com idade de 50 anos, não era o nosso plano.  Muitos pensaram que eu estava louco.

Noël e eu oramos muito. Finalmente eu soube a resposta: ame sua mulher, ame sua nova filha como se fosse do seu sangue e assuma o compromisso, até o final dos seus dias, com a questão da harmonia racial…

Comentário final 
O depoimento de John Piper serve de alerta para a realidade que, muitas vezes, o pecado se faz presente dentro das comunidades cristãs – lembre-se, que a igreja de origem de John Piper proibia a presença de negros. Era defensora do racismo.

As comunidades cristãs precisam sempre olhar para seus hábitos e comportamento, com humildade, para ver se o mal não criou morada dentro dela mesma.

Serve também de alerta para o fato da banalidade do mal. Em outras palavras, pessoas comuns e até bem intencionadas, como você ou eu, podem praticar o mal, até mesmo pensando estar praticando o bem.  

Finalmente, esse depoimento comprova uma das coisas mais belas do cristianismo: a capacidade de mudar as pessoas, de tirá-las de seu caminho de pecado e trazê-las para a luz. 

Com carinho

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