CRISTÃOS VERDADEIROS FICAM DEPRIMIDOS?

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Eu recebo com frequência a pergunta que dá título a este texto e a razão é simples: importantes líderes evangélicos defendem a tese que uma pessoa convertida a Jesus de verdade não pode ficar deprimida. 

Para esses líderes, a fé verdadeira e a presença do Espírito Santo na vida da pessoa seriam suficientes para torná-la imune à depressãoAssim, se uma pessoa que se diz cristã aparece com sintomas de depressão, a conclusão lógica é duvidar da sua conversão sincera.

Antes de qualquer coisa, quero deixar uma coisa bem clara: depressão é uma doença como qualquer outra – nesse sentido, depressão não é diferente de pneumonia ou insuficiência cardíaca. Ter depressão não caracteriza falta de fé e muito menos que a pessoa não esteja salva.

Depressão é uma doença que se caracteriza pelo desequilíbrio da química do cérebro humano, por isso tomar remédios para combatê-la é imprescindível. E não há nada de errado ou anti-bíblico nisso. 

As causas da depressão ainda não são totalmente conhecidas. Mas já sabemos bastante a respeito desse mal terrível – por exemplo, as estatísticas disponíveis indicam que cerca de 10% de todas as pessoas já sofreu ou irá sofrer desse mal em algum momento das suas vidas. 

Sabemos também que mudanças hormonais importantes, como aquelas que acontecem com as mulheres grávidas ou com as pessoas durante o processo de envelhecimento, podem com frequência levar à depressão. 

Causas de fundo emocional, como estresse excessivo ou perda importante (morte de pessoa querida, término de relação amorosa, desemprego, etc), também podem conduzir as pessoas à depressão.  

O estresse excessivo impacta quase todo mundo hoje em dia porque as pessoas fazem exigências excessivas sobre si mesmas: muitas querem aproveitar seu tempo ao máximo (tentam fazer muitas coisas ao mesmo tempo), outras querem ser as melhores em tudo (não admitem as próprias limitações) e há ainda quem queira ter controle das suas circunstâncias. Quando as coisas não se passam como esperam e/ou desejam, as pessoas acabam podem se sentir perdidas e fracassadas. E algumas delas acabam por entrar em depressão por causa disso.

Um bom exemplo bíblico é Elias, profeta que enfrentou e venceu sozinho 400 profetas de Baal. Ele foi jurado de morte pela rainha Jezebel, que era devota de Baal, e achou que sua carga estava pesada demais: pensou caber a ele defender sozinho a fé verdadeira. E caiu em depressão.

Em casos como esse, é claro, não basta que a pessoa doente tome os remédios necessários. Sobretudo, será preciso também que a pessoa mude seus objetivos e forma de viver. Foi o que Deus fez com Elias: arrumou-lhe um ajudante (Eliseu) e convenceu-o que não estava sozinho na sua luta, pois havia outras seis mil pessoas em Israel que continuavam fiéis (1 Reis, capítulo 19).

Perdas sérias também podem levar à depressão. A Bíblia traz um exemplo interessante desse tipo de situação: refiro-me ao caso de Ana, mãe do profeta Samuel. Ela entrou em depressão ao perceber que era estéril. Tinha perdido sua função maior na vida (ser mãe) – naquela época, a principal função das mulheres era gerar filhos homens.

Sentindo-se derrotada, certo dia, Ana foi ao Tabernáculo e ali ficou, em sofrimento. Não queria mais viver, tal a profundidade da sua depressão. O sacerdote Elias, ao passar pelo local, viu aquela mulher e pensou que ela estiva bêbada, tão alterado era o seu estado. A Bíblia conta que Deus respondeu ao pedido de Ana, prometeu-lhe um filho e ela conseguiu se recuperar (1 Samuel capítulo 1, versículos 1 a 18).

Curar a depressão causada por perdas envolve não somente a presença de remédios, como também muito apoio psicológico, incluindo terapia. O tempo também costuma ser um grande remédio.

Talvez você se surpreenda ao saber que também há depressão de origem espiritual. Depressão causada pela culpa decorrente do pecado. Judas, que se suicidou, após se arrepender de ter traído Jesus, é um excelente exemplo. Davi, chorando, coberto por pano de saco e cinzas, depois de ser punido por Deus pelo adultério com Bate-Seba, é outro exemplo interessante. Os salmos escritos nessa fase da sua vida (por exemplo, o 51) mostram claramente esse processo.

Os sintomas da depressão são bem conhecidos: melancolia profunda, apatia, vontade de morrer (tendências suicidas), isolamento completo (mesmo das pessoas mais queridas), dentre outros. No caso do profeta Elias, ele nem queria comer e Deus teve que mandar anjos alimentá-lo. 

Há casos menos comuns onde os sintomas surpreendem: as pessoas deprimidas ficam super-aceleradas, não conseguem descansar e continuam em frente até ficar esgotadas.

Independentemente da causa e dos sintomas da depressão, suas consequências impactam todas as dimensões da vida humana. Por exemplo, uma pessoa deprimida não come ou dorme direito e isso a torna mais predisposta a doenças oportunistas, como infecções. Seus relacionamentos podem ser seriamente afetados, tornando sua vida emocional um caos. E certamente acabam por aparecer brechas espirituais, quando a pessoa começa a duvidar da sua fé e da sua razão para viver.  

Não há um esquema padrão para o andamento da depressão: cada pessoa passa por esse sofrimento de forma diferente. Cada caso é um caso: umas pessoas se abatem mais fisicamente, outras sentem mais pelo lado espiritual. Umas levam mais tempo, enquanto outras resistem mais a aceitar o tratamento necessário. 

Assim, é fundamental não criar expectativas preconcebidas quanto ao tratamento necessário e o tempo para recuperação. Frases do tipo “levanta dessa cama que sua vida é muito boa” ou “dá um tanque de roupa para ela lavar que vai melhorar rapidinho”, que são dirigidas a incentivar as pessoas deprimidas podem causar mais mal do que bem. 

Finalmente, tenha em mente que a pessoa deprimida vai precisar de muita ajuda: além de tomar a medicação adequada, precisará contar com pessoas em quem confie, com quem possa falar das suas fraquezas e dificuldades. Em quem encontre apoio. É aí que entram familiares, amigos(as), terapeutas e pastores(as), cada um(a) com sua função e campo de atuação. 

Há muito mais a falar sobre essa terrível doença, mas creio que já dei uma ideia para você do que se trata. Se perceber alguma pessoa querida nessa situação, procure ajuda adequada e trate essa questão como qualquer outra doença séria, usando todos os recursos que estiverem disponíveis para ajudar na cura. 

Com carinho

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