CONVERSANDO SOBRE O PERDÃO

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A revista Veja (28/07/2010) publicou grande e importante reportagem sobre o tema “perdão”. O texto tentou definir o ato de perdoar dentro de uma visão secular: um processo composto de duas partes, sendo a primeira delas o arrependimento sincero de quem causou mal e a segunda a disposição, por parte de quem foi ofendido, de superar seus ressentimentos naturais.

Essa visão torna o perdão um processo muito difícil. por conta de dois problemas. O primeiro é o fato da iniciativa ficar com quem originou o problema (a pessoa que ofendeu ou causou mal). O processo começa nela.

O segundo problema nasce da dificuldade de conseguir avaliar se o arrependimento de quem cometeu a ofensa é verdadeiro. Como não é simples ter essa certeza, o perdão pode ficar “preso” dentro da pessoa ofendida.

O que a doutrina cristã tem a dizer a esse respeito? Será que perdoar pode ser um processo tão difícil assim?

O que é perdoar

Jesus nos mandou perdoar (Mateus capítulo 18, versículos 21 a 35) e Ele não pode ter nos pedido para fazer algo quase impossível. Não mesmo.

Ocorre que na visão bíblica o perdão é um processo diferente, que depende apenas da pessoa ofendida e/ou prejudicada. E basta lembrar o que Jesus fez para comprovar essa afirmação: quando estava morrendo na cruz, Ele pediu a Deus que perdoasse seus algozes (Lucas capítulo 23, versículo 34).

Ora, nenhum dos soldados que torturaram Jesus mostraram qualquer arrependimento, tanto assim que zombaram d´Ele, deram-lhe vinagre no lugar de água para beber, etc. E ainda assim, Jesus pediu ao Pai para perdoá-los.

E se Jesus pediu a Deus que fizesse isso é porque já tinha perdoado aquelas pessoas. Em outras palavras, Jesus perdoou mesmo sem haver arrependimento dos seus ofensores.

Para a Bíblia, o perdão ocorre quando a pessoa sabe que foi prejudicada e/ou ofendida, de forma injusta, e mesmo assim deixa de lado a “vantagem” moral que tinha e abre mão de receber a justa retribuição à qual teria direito.

Trata-se de jogar o “lixo” do ressentimento fora, em lugar de ficar guardando-o no coração, evitando assim que contamine tudo (mente, relacionamentos, etc).

É uma escolha unilateral de quem foi ofendido(a) ou prejudicado(a). Não depende do que pensa ou faz o(a) ofensor(a). E, sendo assim, desaparecem os problemas relacionados com a definição secular de perdão. Não importa se o(a) ofensor(a) se arrependeu de fato, o perdão vai existir, o “lixo” vai ser jogado fora.

Evidentemente, se houver arrependimento sincero, tudo será melhor, mas o perdão não pode ficar “preso” a essa variável. Simples assim.

Por que perdoar?

Há várias razões para perdoar. Primeiro, por que a retribuição do mal feito cabe a Deus e só a Ele (Deuteronômio capítulo 32 versículo 35).

Depois, porque todos pecam e são dependentes da Misericórdia e da Graça para serem perdoados e aceitos por Deus. E a medida de misericórdia que será usada com cada pessoa será a mesma que ela usar com quem a tiver ofendido – é isso que está dito na conhecida oração do “Pai Nosso” (Mateus capítulo 6, versículos 9 a 15): “Pai … perdoa nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Quem quiser perdão, terá que aprender a perdoar.

A última razão para perdoar é que somente assim é possível acabar com o ciclo de ódio e ressentimento – por isso a palavra usada para transmitir o conceito de perdão no Novo Testamento significa também “liberação” ou “libertação”.

O que o perdão não é

As pessoas dizem duas coisas erradas sobre o perdão. A primeira é que perdoar significa esquecer. Grande erro.

Perdoar não é esquecer no sentido pleno do termo. Quem perdoa, deixa de lado a vontade de ter retribuição e/ou compensação pelo mal que sofreu, mas é claro que essa experiência ruim sempre fará parte da sua bagagem emocional. Em outras palavras, a pessoa prejudicada sempre levará em conta o que sofreu antes, na hora de reagir.

Assim, por exemplo, uma mulher antes agredida pelo marido pode até perdoá-lo mas poderá ficar sempre insegura na sua presença e não querer ficar sozinha com ele. E isso é natural e não quer dizer ter faltado o perdão.

Seria até uma falta de sensibilidade, por parte de Jesus, cobrar das pessoas esquecer suas experiências de vida, isto é esquecer aquilo que não pode ser esquecido.

Agora, perdão também não é reconciliação (retomar o relacionamento nas bases anteriores à ofensa). Perdão é mandamento mas reconciliação não – essa última depende de muitas outras coisas. Por exemplo, um marido que agrediu a esposa diversas vezes pode ser perdoado mas provavelmente será impossível para essa mulher retomar o relacionamento nas bases originais – simplesmente não haverá confiança suficiente para fazer isso.

Enfrentando as “razões” para não perdoar

O senso comum coloca na nossa frente várias “razões” para não perdoar, em contraste ao ensinamento de Jesus. Vejamos duas das mais comuns e as respostas que o cristianismo dá para elas:

  • Não há justiça no perdão: na verdade, quem perdoa desiste de ser o juiz e deixa o julgamento para Deus – Ele fará justiça e dará a justa retribuição para quem fez o mal. Não haverá impunidade pois Deus é o mais justo de todos os juízes e também é Todo-Poderoso.
  • Há o risco da repetição da ofensa: perdoar não é a pessoa ofendida ficar indefesa diante de quem lhe causou mal e muito menos ser omissa. Mesmo tendo perdoado, essa pessoa pode e deve tomar medidas para se proteger.

Quantas vezes é preciso perdoar?

O perdão deve tornar-se um hábito. Veja o que Jesus respondeu a Pedro (Mateus capítulo 18, versículos 21 e 22):

Pedro lhe perguntou:…até quantas vezes devo perdoar meu irmão?… Respondeu-lhe Jesus:…até setenta vezes sete.

Perdoar é jogar o “lixo” fora e não é possível ou saudável fazer isso só uma vez. É preciso continuar fazendo isso pois o “lixo” é gerado todos os dias.

O primeiro passo é o mais importante

O caminho para perdoar não é aprender a cultivar o sentimento “certo”. Até porque perdão não é um sentimento e sim uma DECISÃO. É algo comandado pela razão e não pelo coração.

Se a pessoa quiser esperar até conseguir ter o sentimento “certo” no coração, talvez nunca venha a perdoar. O primeiro passo do processo de perdão, portanto, é simples: querer perdoar. É aceitar o mandamento dado por Jesus e entender que se trata de importante requisito para a própria saúde mental e espiritual.

Vou terminar com uma reflexão do teólogo Gregory Jones, ex-reitor do Seminário da Duke University, que penso resumir bem tudo que acabei de dizer:

“Perdão não é uma palavra falada, um ato executado, um sentimento que se tem, mas sim uma forma de vida que envolve uma amizade cada vez mais profunda com Deus e com o próximo… De fato, por causa da presença constante do pecado e do mal, o perdão cristão deve ser… um comprometimento com essa forma de vida,… através da qual procura-se “desaprender” a pecar e aprender os caminhos de Deus…”

Com carinho

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