CABE MUITA COISA DEBAIXO DE UM GUARDA-CHUVA

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Existem alguns versículos da Bíblia que parecem um guarda-chuva – “debaixo” deles cabem muitas interpretações e usos diferentes. E isso seria apenas mais uma curiosidade se algumas dessas interpretações não causassem mal, quando geram culpa e sofrimento indevidos para muita gente.

A realidade é que alguns líderes religiosos usam esses versículos “guarda-chuva” para construir doutrinas que parecem ter base bíblica, mas de fato não têm, e conseguem impor às pessoas comportamentos mais do gosto desses mesmos líderes.

Vou dar dois exemplos de versículos guarda-chuva e das interpretações erradas, construídas a partir deles, para explicar melhor o que acabei de dizer. 

A aparência do mal
O primeiro exemplo é o versículo que manda o/a cristão/ã fugir da “aparência do mal” (1 Tessalonicenses capítulo 5, versículo 22). Aí basta ao líder religioso rotular alguma coisa de ter a “aparência do mal”, mesmo quando não ela não gera mal nenhum e nem mesmo é diretamente vedada na Bíblia, para tal coisa passar a ser proibida, virar “pecado”.

Já vi esse versículo sendo usado de muitas maneiras. Por exemplo, para proibir cristãos/ãs de dançarem (mesmo no caso de casais casados) ou ainda para proibir ao cristão/ã ouvir música secular. E eu poderia citar muitos outros exemplos.

Ora, onde está a “aparência do mal” nesses casos? Talvez as pessoas que pensam assim se esqueçam que havia dança nos tempos de Jesus (por exemplo, nos casamentos) e Ele nada falou contra essa prática. E música secular também existia e nunca foi proibida pelo texto bíblico.

Na verdade, a preocupação na Bíblia com a “aparência do mal” (aquilo que não é mal em si mesmo, mas parece ser) tem a ver com a possibilidade do cristão/ã causar confusão na cabeça das pessoas ao praticar atos que pareçam mal, mesmo quando não sejam. Ora, isso deve acontecer enquanto os necessários esclarecimentos necessários não forem dados e entendidos pelas pessoas que podem fazer essa confusão. Somente isso.

Portanto, se uma pessoa foi criada num meio onde tudo era proibido e chega numa outra igreja, com costumes mais liberais, ela pode se escandalizar, por exemplo, que ali os casais dancem. Para não escandalizar essa pessoa, o que inclusive poderia levá-la a se afastar do convívio da igreja, escandalizada com o que vê, a comunidade precisa tomar cuidado com aquilo que faz. Mas, esclarecida as dúvidas de quem está chegando, não há porque proibir aquilo que nada tem de errado.

O corpo como templo do Espírito Santo
O segundo exemplo é o versículo que diz ser o corpo humano o “templo do Espírito Santo” (1 Corintios capítulo 6, versículo 19). Já vi esse versículo ser usado para construir doutrina de diversos tipos e uma delas é aquela que proíbe tatuagens.

Ora, o único texto que fala diretamente sobre tatuagens na Bíblia (Levítico capítulo 19, versículo 28) condena essa prática apenas quando feita com o objetivo de cultuar os mortos. É evidente que a proibição tem a ver com o fato da pessoa passar a exibir no seu corpo a marca de um culto proibido. E seria razoável estender essa proibição para abranger qualquer culto idólatra, pois o sentido parece ser o mesmo. Mas tal proibição não se aplica às tatuagens feitas por outras razões, principalmente aquelas feitas com cunho puramente estético.

Agora muita gente não gosta de tatuagem – eu mesmo, por ser do tempo em que tatuagens não eram comuns, tenho dificuldade com elas. Mas ter opinião contrária às tatuagens, por razões estéticas, é uma coisa, enquanto proibi-las, alegando que são pecado, é outra bem diferente. 

Agora, alguns líderes religiosos, ao invés de aceitarem que as pessoas têm o direito de agirem como pensam ser melhor, procuram usar a Bíblia para transformar sua opinião pessoal, contra as tatuagens, num dogma de fé, tornando as tatuagens pecado. E fazem isso alegando que o corpo humano é o “templo do Espírito Santo“, não podendo ser “desfigurado” por coisas como piercings ou tatuagens. Há líderes que vão ao extremo de afirmar que tatuagens são uma porta aberta para a ação de Satanás na vida da pessoa – há até quem faça “exorcismo” das pessoas tatuadas que venham a se converter. 

Ora, essas afirmações e ações não encontram qualquer suporte no texto bíblico sobre o corpo humano – leia 1 Corintios capítulo 6 com calma e você vai se convencer do que acabei de falar. Se o versículo que fala do corpo humano pudesse ser usado dessa forma, tudo aquilo que fizesse mal ao físico deveria passar a ser também considerado pecado: engordar, deixar de fazer exercícios físicos, não tomar remédios da forma correta e assim por diante. E acredito que você já tenha encontrado pastores gordos, barrigudos e sedentários e ninguém fica afirmando que eles estão em pecado por causa disso. Ou seja, trata-se de caso claro de “dois pesos e duas medidas”.

Palavras finais
Há muitos outros versículos tipo guarda-chuva. como, por exemplo, “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos capítulo 8, versículo 28) e “…porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos” (Salmo 91, versículo 11). Dá para tirar um monte de conclusões desses versículos, a maioria delas sem qualquer apoio na Bíblia, como “Deus vai evitar que o/a cristão verdadeiro sofra” ou “estamos protegidos de qualquer mal“. 

Portanto, fique sempre alerta contra as doutrinas construídas em cima de versículos tipo guarda-chuva. Procure sempre pelos fundamentos das afirmações que tal ou qual coisa é pecado. Se não perceber um fundamento bíblico claro e direto, proibindo aquela prática, pode desconsiderar a afirmação feita. Simples assim.

Com carinho

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Marilene

Excelente reflexão!