BONS RELACIONAMENTOS DENTRO DA IGREJA

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A Bíblia ensina que as pessoas devem viver sua fé em comunidades (igrejas). A fé cristã não é uma experiência que se deve experimentar de forma isolada.

Sendo assim, os relacionamentos entre as pessoas dentro das igrejas é de enorme importância. Quando esse relacionamento é bom, todas(as) ganham – há apoio mútuo, compreensão, carinho, etc. Quando não é assim, aparecem atritos, fofocas, ciúmes, etc e as consequências podem ser muito ruins.

Foi por saber disso que Jesus dedicou parte do seu ministério para orientar as pessoas a como se relacionar bem – é disso que trata o capítulo 18 do Evangelho de Mateus. Vamos ver mais de perto alguns dos ensinamentos contidos ali:

Naquela hora, chegaram-se os discípulos a Jesus e perguntaram: Quem é, porventura, o maior no reino dos céus? Jesus, chamando para junto de si um menino, pô-lo no meio deles e disse: Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não fizerdes como este menino, de modo algum entrareis no reino dos céus. Quem, pois, se tornar humilde como este menino, esse será o maior no reino dos céus.(versículos 1 a 4)

Jesus discutiu nos versículos acima a questão da vaidade humana e da inveja que dela decorre (quando essa vaidade é frustrada). Ele fez isso respondendo à seguinte questão: Quem é mais importante dentro de uma igreja?

Os seres humanos vivendo em comunidade costumam disputar os lugares de honra – querem ser admirados, prestigiados e paparicados. Tudo isso é produto da vaidade humana. Como evitar isso? Jesus, como sempre, surpreendeu a todos(as) com sua resposta: as pessoas importantes são as humildes e as puras de coração. Justamente as que não querem ocupar os lugares mais importantes. As que agem com a pureza de coração das crianças.

Em outras palavras, a disputa por admiração e honrarias dentro das igrejas cristãs é errada. As comunidades cristãs devem ser pautadas por simplicidade e humildade. Nelas não deveria haver espaço para vaidade e inveja. Infelizmente sabemos bem que muitas vezes não é assim.

Que vos parece? se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixa as noventa e nove e vai aos montes procurar a que se extraviou? Se acontecer achá-la, em verdade vos digo que se regozija mais por causa desta, do que pelas noventa e nove que não se extraviaram. (versículo 12)

Jesus falou depois sobre uma pessoa da comunidade de fé que se desvia das boas práticas cristãs (a ovelha perdida). E isso é muito comum, especialmente entre os(as) jovens.

Agora, o que fazer quando a ovelha se perde? Jesus orientou que os(as) líderes da comunidade devem ir atrás dessa ovelha e resgatá-la. Isso não significa despejar sobre ela acusações, ameaças de expulsão da comunidade e coisas assim.

Trata-se sim de entender a fragilidade da natureza humana, analisar os atos dessa pessoa com olhos de amor e ajudá-la a curar suas feridas emocionais e espirituais – exatamente como o Espírito Santo faz com cada um de nós. Esse é o conceito de “resgatar” a ovelha que se perdeu.

Se teu irmão pecar, vai repreendê-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, terás ganhado teu irmão; mas se não te ouvir, leva ainda contigo uma ou duas pessoas, para que por boca de duas ou três testemunhas toda a questão fique decidida. Se ele recusar ouvi-los, dize-o à igreja; e se também recusar ouvir a igreja, considera-o como gentio e publicano. (versículos 15 a 17)

Jesus continuou a tratar do caso da ovelha perdida. Agora, Ele falou da situação daquela que não quer mudar. O que fazer nesse caso?

 

A orientação de Jesus foi clara: implantar um processo de resgate que pode ter etapas. A primeira é uma conversa a sós de alguém da liderança da igreja com a ovelha perdida, tentando fazê-la mudar seus caminhos. Se essa conversa der, certo ótimo. Problema resolvido.

Masse não der, passa-se a outra fase. A mesma liderança marca nova conversa, agora com a presença de duas testemunhas. A finalidade dessas duas testemunhas é dupla.  Primeiro, servem para atestar o que foi conversado. Mas o segundo motivo talvez seja ainda mais importante: trata-se de agregar duas pessoas que possam apresentar um testemunho de vida do Evangelho ainda maior do que a pessoa que fez a conversa inicial.

Em outras palavras, a pessoa que fez a abordagem inicial precisa ser capaz de dar um bom testemunho do Evangelho, isto é viver realmente aquilo que prega e defende, coisa que não é para qualquer um(a). E isso faz todo sentido.

Mas talvez isso não seja suficiente, aí duas outras pessoas se juntam ao diálogo, capazes de dar um testemunho talvez ainda maior do Evangelho. Por exemplo, digamos que eu procure um irmão que está com problemas e tente convencê-lo a mudar seus caminhos e ele recuse minha abordagem. Eu deveria então chamar para o diálogo o(a) pastor(a) da igreja e alguém mais que tivesse uma vida espiritual elevada. Talvez onde eu não tenha tido sucesso, essas pessoas, capazes de dar um testemunho ainda maior do Evangelho, podem conseguir o resultado desejado.

Mas se ainda assim a iniciativa não der certo, Jesus orientou a tratar a pessoa como gentio (não judeu) e/ou publicano (coletor de impostos), sinônimo (para os judeus) de pecador. Muita gente interpreta isso como expulsar publicamente a ovelha perdida da igreja e é isso que muitas igrejas fazem. E isso é um erro.

Repare que Mateus, o autor desse texto, foi um coletor de impostos, antes de se juntar a Jesus. Não faz sentido, portanto, que ele tenha defendido a execração pública de alguém que tenha feito o mesmo que ele, pois não foi assim que Jesus o tratou. O sentido do comentário de Jesus deve ser diferente.

E de fato é: Jesus quis dizer que a tal ovelha perdida, que se recusa a mudar, deve ser tratada não mais como parte do rebanho. Isto é que ela passe a ser vista como alguém ainda não convertido(a). Pode até frequentar a igreja mas não é cristão(ã) de fato. Simples assim.

E é justamente por não ter ainda se convertido, por não ter a fé que salva, é que essa pessoa resiste a mudar. E o que ela precisa não é execração pública e sim de conversão. Ela precisa ser tratada como qualquer pessoa que entra pela primeira vez numa igreja. Precisa ser levada a conhecer Jesus. Expulsão não, evangelização e discipulado sim.

Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no céu; e tudo o que desligardes sobre a terra, será desligado no céu. Ainda vos digo mais que se dois de vós sobre a terra concordarem em pedir alguma coisa, ser-lhes-á feita por meu Pai que está nos céus. (versículo 18)

 

Aí Jesus entra numa discussão que costuma causar muita controvérsia: “ligar” e “desligar”. Muitos(as) cristãos(ãs) entendem que a afirmação de Jesus dá autoridade à igreja, através da sua liderança, para “ligar” ou “desligar” coisas aqui na terra, gerando consequências no mundo espiritual. Por exemplo, se duas pessoas são casadas na igreja, foi Deus quem as uniu, isto é esse casamento também foi feito no mundo espiritual.

Não vou entrar aqui no mérito dessa questão – já discuti isso em outro post. Meu foco é outro: penso que Jesus não estava dando esse tipo de autoridade à liderança da igreja. E a razão é simples: o texto vem tratando do relacionamento entre pessoas dentro de uma igreja – já falamos sobre vaidade, inveja, resgate da ovelha perdida, etc. E nos versículos 21 e 22, um pouco mais adiante, o tema é perdão.

Não faria sentido que no meio do caminho o texto tratasse do poder dos líderes religiosos de “ligar” ou “desligar” coisas. Repito, Jesus estava falando da relação entre pessoas, como devem se comportar umas em relação às outras, portanto, “ligar” e “desligar” aqui deve ter outro sentido.

De fato, penso que o sentido real é o alerta de Jesus que quando uma relação entre membros de uma igreja se estabelece, sempre há consequências espirituais. A relação de amizade ou amor que se firma, gera também laços espirituais. O mesmo acontece quando a relação se desfaz: as duas pessoas brigam. Dentro das igrejas, o mundo físico não anda desacompanhado do mundo espiritual.

Em outras palavras, as relações entre membros das igrejas têm consequências amplas. Muito maiores do que normalmente se percebe. Daí ser tão importante cuidar delas.

Com carinho

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