A BÍBLIA É MACHISTA?

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Uma das críticas frequentes à Bíblia é ser um texto machista, o que obrigatoriamente tornaria o cristianismo uma religião também machista – já ouvi isso de muita gente respeitada. Na verdade, essas críticas não são justas. Muito ao contrário. E é relativamente simples demonstrar isso. 

É certo que a Bíblia, além de ser a Palavra inspirada por Deus – uma das crenças básicas da fé cristã – também é um texto com raízes históricas. Por causa disso o texto bíblico reflete o contexto social e cultural da época em que foi escrito – entre 2.000 e 3.500 anos atrás. E é fácil perceber isso através das inúmeras referencias feitas no texto bíblico a tipos de roupas e alimentos, formas de governo e organização social e outros aspectos típicos daquela época.

O contexto em que as pessoas viviam então passou para o texto bíblico porque o processo de inspiração divina respeitou as individualidades dos autores dos vários livros da Bíblia. Em outras palavras, a inspiração divina permitiu que cada autor permanecesse no controle de suas faculdades mentais, dando-lhe condições de escrever a partir da sua própria matriz cultural. Cada autor escreveu na língua na qual se sentia confortável, com as palavras que conhecia e usou sua experiência de vida para compor o texto sendo escrito.

Assim, não é de estranhar que a sociedade descrita na Bíblia seja muito diferente da nossa. A sociedade bíblica era patriarcal e machista e nela as mulheres tinham posição social tão inferior que nem eram contadas nos recenseamentos (Números capítulo 1). Na prática, as mulheres dependiam dos homens para tudo.

Essa era a realidade está refletida com precisão no texto bíblico. Apenas isso. Portanto, essa descrição precisa de uma realidade não significa que Deus aprovava tal estado de coisas. Muito pelo contrário.

E tanto isso é verdade que poderemos perceber, se lermos a Bíblia com cuidado, que Deus agiu para mudar a injustiça da discriminação contra as mulheres. Apenas fez isso de forma gradual porque hábitos profundamente entranhados na sociedade somente podem ser mudados aos poucos. Costuma ser necessária a passagem de gerações para mudar de fato as coisas e essa é uma verdade demonstrada inúmeras vezes ao longo da história.

É fácil encontrar na Bíblia outros exemplos dessa abordagem gradualista de Deus no combate a práticas que Ele abomina, além da questão da discriminação contra as mulheres. Posso citar de imediato também as questões da violência contra os inimigos e da escravidão. Vejamos como isso se deu.

Começo por lembrar que há cerca de dois mil anos separando os Patriarcas de Israel – Abraão, Isaque e Jacó -, cujas vidas estão relatadas no início do Velho Testamento, de Jesus e seus seguidores, cujos feitos constam do Novo Testamento.

No início do Velho Testamento, a sociedade era nômade e rural e se organizava em tribos. Já no tempo de Jesus, o gigantesco e poderoso Império Romano dominava o mundo e grandes cidades, como Roma ou Jerusalém, já eram comuns. 

No tempo de Abraão, Isaque e Jacó prevalecia a ideia de retribuir sempre o mal recebido e causar o máximo possível de danos ao inimigo – por exemplo, se o inimigo matasse uma pessoa de determinada tribo, a resposta adequada seria massacrar toda uma aldeia da tribo inimiga. Isso era feito para gerar respeito e medo nos adversários, dando maior segurança à tribo capaz de fazer isso. 

Ora, num ambiente desses, uma lei mandando retribuir com proporcionalidade o mal recebido – “olho por olho e dente por dente” -, como Deus fez no início do Velho Testamento, já foi um grande avanço em relação às práticas da época. Já demonstrou mais justiça e consideração com o próximo.

Milhares de anos depois, Jesus fez a apologia do perdão e do amor mesmo ao inimigo. Um grande passo adiante e isso foi possível porque Jesus viveu num outro tipo de sociedade. O fato é que as pessoas que viveram na época dos Patriarcas de Israel nunca teriam entendido o que Jesus propôs. E mesmo no tempo d´Ele, poucos dentre os seus discípulos seguiram de fato o mandamento do amor. 

Quando não percebem esse gradualismo existente na Bíblia,  as pessoas chegam a conclusões erradas. Quando se olha para o significado da lei dada na época patriarcal, parece, com base nos padrões atuais, que Deus era vingativo e cruel. Mas quando se olha para os ensinamentos Jesus, o quadro muda: Deus parece ser completamente diferente, amoroso, capaz de perdoar, etc. Há até quem pense que são retratados na Bíblia dois seres diferentes. 

Outro bom exemplo de abordagem gradual é a questão do combate à escravidão – essa prática estava arraigada na sociedade há milhares de anos e também não poderia ser erradicada de uma hora para outra. Deus primeiro estabeleceu, ainda no tempo de Moisés, que os escravos precisavam ser tratados com humanidade (Êxodo capítulo 21, versículos 1 a 16). Já era um avanço sobre as práticas normais daquela época e basta comparar essa lei com o tratamento dado pelos egípcios aos seus escravos judeus para comprovar o que acabei de falar. Mais tarde, depois de Jesus, Paulo chegou a dizer que os escravos deviam ser tratados como amigos (Filemon capítulo 1, versículos 1 a 17), o que significava uma abolição da prática.

É interessante perceber que os defensores da abolição da escravidão no Brasil procederam da mesma forma: patrocinaram a aprovação de várias leis, sucessivamente restringindo cada vez mais o alcance da escravidão: a primeira lei estabeleceu que quem fosse filho de escravos estaria livre (Lei do Ventre Livre), a segunda  lei garantiu a libertação de cada escravo que chegasse à velhice (Lei dos Sexagenários) e assim por diante. 

Olhar para a Bíblia e dizer que Deus convivia bem com a escravidão é um absurdo total. Seria o mesmo que dizer que José do Patrocínio, o maior dos abolicionistas no Brasil, apoiava essa prática horrível. A abordagem gradualista foi uma necessidade frente à dificuldade em mudar uma prática social muito arraigada. 

E foi exatamente assim que aconteceu com a luta contra a discriminação das mulheres. O combate a ela foi gradual, através de leis dadas aos poucos, até que Paulo, no passo final, deixou claro que todos – homens e mulheres – são iguais perante Deus, já no final do Novo Testamento (Gálatas capítulo 3, versículo 28).

Não é por acaso que a Bíblia relata Deus prestigiando as mulheres de forma nunca vista antes. Por exemplo, Ele sancionou que mulheres, como Débora, liderassem o povo de Israel e transmitissem sua vontade (profecias). Estabeleceu leis defendendo o direito das mulheres mais vulneráveis, como as viúvas. E assim por diante.

Jesus levou essa ideias ainda mais além e isso ficou claro em situações como a da mulher adúltera que ia ser apedrejada e foi salva por ele (João capítulo 8, versículos de 1 a 11) – é importante perceber nesse evento que nenhum homem tinha sido acusado junto com aquela mulher, embora ninguém possa adulterar sozinho…

E tanto Jesus inovou nesse campo, demonstrando consideração incomum pelas mulheres, que elas foram suas mais fieis seguidoras.  

Concluindo, a Bíblia não é machista, assim como não apoia a escravidão ou defende a violência contra os inimigos. Seu texto apenas registra a realidade de uma sociedade com características machistas, escravocratas e violentas.

Deus tratou de mudar esse estado de coisas e fez isso de forma gradual, pois mudanças de hábitos sociais arraigados somente podem acontecer aos poucos, pelas próprias características dos seres humanos.

Portanto, quem afirma que a Bíblia é machista não estudou suficientemente seu texto. Ou, se o fez, busca encontrar um pretexto para criticar o cristianismo. Simples assim.   

Com carinho

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