AS MULHERES NÃO SÃO BEM TRATADAS EM MUITAS IGREJAS

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Lucetta Scaraffia é uma historiadora italiana envolvida há muitos anos com causas feministas. Ela foi uma das 32 mulheres convidadas a participar do sínodo dos bispos da Igreja Católica sobre a família, realizado no mês passado. Seu relato mostra as dificuldades da Igreja Católica em lidar bem com as mulheres:

 

…O que mais me espantou nesses cardeais, bispos e padres foi sua perfeita ignorância sobre o sexo feminino, seu pouco conhecimento em relação a essas mulheres tidas como inferiores, como as freiras, que geralmente lhes serviam de domésticas… para a imensa maioria deles, o constrangimento sentido pela presença de uma mulher como eu era palpável… minha presença era no máximo tolerada… Bem que tentei dividir minhas impressões com as outras poucas mulheres presentes no sínodo, mas elas sempre me olhavam com espanto; para elas, esse tratamento dos homens era totalmente normal… A simplificação excessiva é uma realidade… todos falam em uma linguagem autorreferencial, quase sempre incompreensível para quem não pertence à “panelinha” do clero: “afetividade” para se referir a “sexualidade”… falam também em “arte do acompanhamento”… Quase todos estão convencidos de que basta um curso de preparação para o casamento para superar todas as dificuldades e talvez também um pouco de catecismo antes das núpcias.

Achei esse relato interessante porque toca em alguns problemas muito comuns a diversas denominações cristãs, inclusive as evangélicas – afinal, não é só a Igreja Católica que tem dificuldades em tratar bem as mulheres. Muitas igrejas continuam, até mesmo sem querer, reproduzindo comportamentos machistas, que alienam as mulheres.

Dentre as muitas questões que poderiam ser levantadas com base no relato acima, separei duas, que vou discutir com um pouco mais de profundidade, pois acredito que resumem bem o problema como um todo:

 

Falta de vontade de lidar com o problema real

A liderança religiosa do sexo masculino com frequência nem faz muito esforço para entender os sentimentos e as necessidades reais das mulheres. Não procura conhecer o problema real e assim não consegue lidar bem com ele. No caso da Igreja Católica, essa questão é ainda mais aguda porque os padres não são casados, portanto não vivem uma experiência – a vida matrimonial – que ensina muito os homens sobre a condição feminina.

É justo dizer que em muitos casos até são feitos esforços para reduzir o machismo nas igrejas, mas como o problema não é corretamente entendido, as medidas tomadas mostram-se inadequadas – um bom exemplo é o que aconteceu com as mulheres convidadas a participar do sínodo da Igreja Católica, conforme o relato acima, que estavam lá apenas para constar, para “sair bem na foto”.

Gênero (masculino ou feminino) nunca deveria ser critério para escolha de lideranças dentro das igrejas cristãs. Simples assim. Afinal, o Novo Testamento está cheio de exemplos de mulheres que lideraram igrejas, como Priscila, e isso numa época em que a mulher de fato pouco representava em termos sociais. O que deve comandar a escolha de uma pessoa para a liderança religiosa são suas características individuais, seu chamado espiritual. Nada mais.

Muitas igrejas, na tentativa de reduzir o machismo, procuram reservar um espaço de trabalho para as mulheres. O problema é que as funções normalmente reservadas para elas – como a decoração dos templos ou a ministração de aulas para crianças na escola dominical – são escolhidas por serem mesmo “coisa de mulher”, acabando por perpetuar o machismo que esse tipo de atitude procura superar.

Uma das piores consequências da discriminação é a geração de apatia entre as mulheres. A maioria delas acaba se conformando com essa situação e achando que as coisas precisam ser assim mesmo e não há muito a fazer. E quando isso acontece, a comunidade cristã perde uma parte importante das vocações espirituais com as quais poderia contar, pois as mulheres constituem cerca de dois terços dos frequentadores das igrejas – não é por acaso, portanto, que a Igreja Católica, onde esse problema é bem agudo, passe por uma grande crise de lideranças.

 

Interpretações distorcidas
Outro problema comum é a distorção da doutrina para facilitar a manutenção da visão machista. E há várias formas de fazer isso, como a simplificação excessiva de conceitos complexos ou a interpretação errada de ensinamentos bíblicos.

No relato acima, a autora falou sobre a excessiva simplificação no trata de determinados assuntos delicados, como no caso em que os líderes católicos pensam ser suficiente um simples curso pré-matrimonial (umas poucas aulas durante um mês)  para dar aos noivos a orientação necessária para a vida de casado.

Conforme o relato, essa excessiva simplificação também passa pelo uso de jargão, onde são usadas palavras neutras, como “afetividade”, para se referir a conceitos mais incômodos, como “sexualidade”. Ora, sexualidade é certamente bem diferente de afetividade e tratar uma coisa como se fosse a outra só leva a conclusões e medidas erradas.

As mulheres são particularmente prejudicadas por esse tipo de abordagem, por exemplo quando a discussão sobre sexualidade se limita a falar sobre “pureza”. E das moças é cobrado um grau de pureza que não é exigido dos rapazes, caso claro de “dois pesos e duas medidas”.

 

Tem ainda a questão da interpretações erradas dos textos bíblicos, como por exemplo, na questão do papel da mulher dentro do casamento. A visão mais corrente no mundo cristão, especialmente entre os evangélicos, é que o marido deve ser o “cabeça do casal”, sendo isso entendido como “o marido manda e a esposa obedece”. Tal orientação distorcida infelizmente é alcançada a partir da interpretação equivocada de um texto do apóstolo Paulo, onde o conceito de “cabeça”, usado para significar “origem”, é usado com o sentido de “liderança” – já falei sobre isso em outro post aqui no blog.

São muitos os exemplos que poderia dar, mas penso que já deu para passar a mensagem que eu queria: a discriminação é uma realidade.

Palavras finais
Há muito trabalho a ser feito para dar mais espaço e tratar melhor as mulheres dentro das igrejas cristãs. Fico triste com essa constatação, mas essa é uma realidade da qual não se pode fugir.

E deixar de reconhecer isso só contribui para perpetuar a discriminação. Afinal, a solução de qualquer problema começa pelo reconhecimento da sua existência.

 

Com carinho

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