AS ESCOLHAS ESTRANHAS DE DEUS

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Deus realmente faz escolhas que nos parecem, à primeira vista, estranhas. E há muitos exemplos disso na Bíblia.

Às vezes as escolhas de Deus nos parecem lógicas. Por exemplo, o povo de Israel sofria um cativeiro cruel no Egito há mais de 400 anos, quando Deus mandou um libertador, Moisés. E a escolha de Moisés, parece fazer todo sentido, pois ele tinha sido criado como príncipe no Egito e, portanto, era muito mais preparado do que todos os demais israelitas, que sempre tinham vivido como escravos. 

Mas essa não parece ser a regra. Frequentemente Deus faz escolhas que parecem muito estranhas aos nossos olhos. Por exemplo, João Batista foi o profeta escolhido para antecipar o ministério de Jesus. E ele era uma figura muito esquisita: morava no deserto, alimentava-se de gafanhotos e mel e vestia-se de pele de camelo. Imagine encontrar um pessoa como João Batista, cheirando mal (certamente ele passava longo tempo sem tomar banho), com barba e cabelo desgrenhados e olhar fixo. Confesso que eu ficaria muito mal impressionado com esse profeta e acredito que você também. 

O que dizer, então, dos apóstolos chamados por Jesus. Um deles, Mateus (Levi), era coletor de impostos. Naquela época, os judeus tinham horror dos coletores de impostos por uma razão muito simples: eles eram corruptos e exploravam impiedosamente o povo.

Isso porque os dominadores romanos escolhiam os coletores de impostos com base nas ofertas que recebiam das pessoas interessadas nessa função. Quem oferecia arrecadar mais do povo, levava o cargo. Simples assim. Ora, um judeu somente iria se interessar por essa função se pudesse obter grande lucro, mesmo depois de dar a parte dos romanos. E para conseguir obter esse resultado, os coletores de impostos cobravam quantias escorchantes das pessoas.

E a história relata que os coletores de impostos enriqueciam, como foi o caso de Zaqueu, a quem Jesus visitou e converteu (Lucas capítulo 19, versículos 1 a 10). Enriqueciam com base no sofrimento alheio, exatamente como fazem os políticos corruptos dos nossos dias.

Aí vem Jesus e escolhe um coletor de impostos para ser apóstolo. Confesso, que se eu visse um pastor escolher um político corrupto para assessorar seu ministério, passaria a olhar o próprio pastor com desconfiança. E certamente muitos dos contemporâneos de Jesus também pensaram assim.

Jesus escolheu ainda quatro pescadores (Pedro, André, João e Tiago) para serem apóstolos. Ora, os pescadores eram homens rudes e até agressivos – o apelido que João e Tiago tiveram (“filhos do trovão”), segundo Marcos capítulo 3, versículos 16 e 17) certamente não se deveu ao fato de serem gentis e suaves. Pescadores eram também pouco estudados. Portanto, no seu conjunto não pareciam ser as pessoas ideais para discutir questões teológicas e converter pessoas, como passaram a fazer, ao acompanhar Jesus. E Jesus ainda assim escolheu esses quatro homens e dois deles (Pedro e João) vieram a ser figuras fundamentais no início da vida da Igreja cristã. 

E o que dizer de Judas Iscariotes, homem corrupto e traidor? E de Simão, o Zelote, que pertencia a uma seita de judeus que pregava a resistência violenta ao domínio romano? 

Certamente, se eu estivesse lá teria achado as escolhas de Jesus bem estranhas. Chegaria a pensar que Jesus corria o risco de prejudicar seu próprio ministério ao se associar com gente desse tipo (basta lembrar do ditado “dize-me com quem andas e vos direis quem és“).

É surpreendente que o cristianismo tenha se desenvolvido da forma como fez – menos de trezentos anos depois da morte de Jesus, tornou-se a religião oficial do Império Romano -, tendo como matriz gente desse tipo.  

Penso que há dois ensinamentos muito importantes nessa discussão. Primeiro, somos nós quem escolhemos errado. As escolhas de Deus parecem estranhas para nós simplesmente porque usamos critérios diferentes do que Ele e não sabemos escolher muito bem. Olhamos para o exterior e deixamos nos levar pelas aparências. Já Deus olha para o interior da pessoa e vê o que de fato existe ali. 

O segundo ensinamento é que ninguém deve se considerar incapaz ou indigno de fazer a obra de Deus. Quando Ele chama alguém para fazer sua obra, capacita essa pessoa, dando-lhe condições para cumprir sua missão com sucesso. Não importa a origem dessa pessoa e o que ela já fez na vida. O que importa é a escolha de Deus.

Portanto, só cabe a quem é chamado por Deus dizer simplesmente: “eis me aqui, envia-me a mim“.  

Com carinho

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