ANATOMIA DO MEDO

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Ao longo dos últimos meses falei bastante sobre o medo: suas causas, características e consequências nas vidas das pessoas (por exemplo, veja 1, 2 e 3). Mostrei também que o medo assume formas variadas – ele é um inimigo de múltiplas faces. Hoje vou fazer um resumo de tudo isso, uma anatomia final do medo.

Mostrei também que o medo é um sentimento mais complexo de lidar do que se imagina à primeira vista. Até porque o medo é, em boa parte, um sentimento natural, simples reação fisiológica ao perigo. É uma forma de preparar o corpo humano para responder a qualquer ameaça externa, física ou psicológica. E, nesse sentido, o medo pode ser um amigo, quando presente na medida adequada e tendo o foco certo.

Aí o medo funciona como a luz amarela de um semáforo, alertando que é preciso ter cautela e avaliar a situação com cuidado, antes de ir em frente. O medo alerta que não se deve tomar decisões por impulso que são sempre muito perigosas.

O problema é que as consequências do medo costumam ir muito além disso. Normalmente, o medo acaba por tomar conta da vida da pessoa e a paralisa. Ele acaba funcionando muito mais como uma verdadeira luz vermelha do semáforo, proibindo seguir em frente.

Há um bom exemplo na Bíblia desse tipo de situação. Na noite em que Jesus foi preso, Pedro seguiu os soldados até a casa do sumo-sacerdote, em Jerusalém. E ali sentou-se em volta do fogo, pois a noite estava fria. Uma escrava se aproximou dele e o questionou, querendo saber se ele também andava com Jesus. Havia nessa pergunta, evidentemente, uma intimidação implícita.

Pedro se intimidou e sua reação foi péssima: negou conhecer Jesus. A mesma pergunta foi feita por outras duas pessoas, que também estavam por ali, e a resposta de Pedro foi a mesma (Lucas 22:54-62). O medo tomou conta de Pedro, impediu-o de raciocinar corretamente e o paralisou. Fez com que ele esquecesse as promessas de fidelidade e amor que tinha feito a seu Mestre.

Esse é o lado feio do medo. Ele gera ansiedade, pavor, estresse e outras consequências ruins. Pode até levar a pessoa a adoecer. E são muitos ameaças, imaginárias ou reais, que levam a esse medo doentio: perigo, receio do sofrimento, preocupação de perder a fonte de sustento, angustia de ser rejeitado e por aí vai. Também é comum a preocupação com o bem-estar de uma pessoa querida, como filho/a ou esposo/a.

Muita gente pensa que o medo pode entendido de forma simples, apenas como falta de fé em Deus. Falta de confiança na sabedoria dele e na sua providência para com seus filhos/as. Não há dúvida que há muita verdade nesse tipo de conclusão. O caso de Pedro, que citei acima, se enquadra perfeitamente nessa situação. E essa conclusão fica reforçada quando lembramos que, em outra situação, muito mais perigosa, Pedro respondeu de forma corajosa.

Nesse segundo caso a intimidação partiu do Sinédrio, o grupo de líderes que tinha muito poder. Os membros do Sinédrio tentaram coagir Pedro a parar de pregar o Evangelho de Cristo e ouviram dele a resposta que era mais importante obedecer a Deus que aos homens (Atos 4:1-20). O que mudou entre uma experiência e outra? A fé de Pedro em Cristo. No intervalo de tempo entre as duas experiências, Jesus morreu e ressuscitou, dando provas cabais de ser o Messias, e o Espírito Santo chegou para o povo cristão, no dia do Pentecoste. A fé de Pedro desabrochou e ele não mais pode ser intimidado. E continuou seu ministério de forma corajosa até o fim da sua vida.

Portanto, a fé é sim um componente fundamental de uma boa resposta para o medo. Não é possível subjugar o medo sem ter confiança em Deus. Mas, a falta de fé, sozinha, não explica o estrago que o medo causa. Existem pelo menos dois outros fatores também muito importantes.

E o primeiro deles é a reação irracional ao medo que as pessoas costumam ter. Como o medo é detonado por um processo fisiológico, há respostas também fisiológicas a ele, que são automáticas – como a vontade de fugir da ameaça e se isolar. Mas, frequentemente essa não é a resposta certa para o problema.  

Um bom exemplo disso é o profeta Elias. Ele era homem de grande espiritualidade e já tinha realizado inúmeros milagres, como forçar uma grande seca em Israel. O maior milagre praticado por Elias foi enfrentar 400 profetas do deus pagão Baal, cujo culto estava dominando o povo de Israel, por incentivo da perversa rainha Jezebel. O profeta enfrentou o desafio sozinho, em público, debaixo da incredulidade geral. Mas, Deus mandou fogo do céu e o desafio foi vencido por Elias e os profetas de Baal acabaram mortos. Foi uma vitória sensacional.

Aí aconteceu algo surpreendente. A rainha Jezebel ameaçou matar Elias e o profeta ficou intimidado. Caiu em depressão e fugiu. Foi preciso que Deus mandasse seus anjos alimentá-lo, porque nem comer ele queria. O profeta caminhou até o monte Horebe (Sinai), onde se encontrou com Deus e travou ali um diálogo muito interessante – veja 1 Reis 19:13-16:

…E uma voz lhe perguntou: “O que você está fazendo aqui, Elias?” Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”. O Senhor lhe disse: “Volte pelo caminho por onde veio, e vá para o deserto de Damasco. Chegando lá, unja Hazael como rei da Síria. Unja também Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder a você como profeta.

Elias se deixou intimidar por uma ameaça vazia e sua falta de racionalidade foi ainda mais longe: ele perdeu a perspectiva da situação. Caiu no mundo da fantasia e isso ficou claro quando ele disse, em tom de lamento: “sou o único que sobrou…” Elias pensou que tinha ficado sozinho na sua luta. E Deus precisou corrigir essa fantasia, conforme relata o versículo 18:

No entanto, fiz sobrar sete mil em Israel, todos aqueles cujos joelhos não se inclinaram diante de Baal e todos aqueles cujas bocas não o beijaram”.

Cair no campo da fantasia é coisa muito comum quando a pessoa está amedrontada, pois ela perde completamente a condição de analisar os fatos com clareza. E é exatamente por isso que ela passa a precisar de ajuda. Alguém com a mente fria e domínio dos fatos, que ajude a pessoa amedrontada a analisar racionalmente a situação e estudar as medidas necessárias. Essa ajuda pode vir de um amigo, um terapeuta, um pastor, um familiar, enfim, qualquer pessoa madura e com uma vida espiritual sólida.

Mas, de forma paradoxal, é justamente nessas situações que a pessoa amedrontada costuma se isolar. Ela passa a querer fugir de tudo e todos. Veja o que Elias fez (1 Reis 19:3-4):

Elias teve medo e fugiu para salvar a vida. Em Berseba de Judá ele deixou o seu servo e entrou no deserto, caminhando um dia…

Elias tinha um servo, uma pessoa de sua confiança, que o acompanhava dia e noite. E a primeira coisa que Elias fez, quando ficou com medo, foi deixar o servo para trás e seguir em frente sozinho. Ele ficou sozinho por opção e não por necessidade!

A dificuldade de procurar ajuda nesses momentos é mais fácil de se notar entre os homens. Eles costumam se trancar no seu próprio sofrimento. Talvez tenham vergonha de demonstrar fraqueza.

Portanto, não é só a falta de fé que torna a luta contra o medo difícil: a irracionalidade das reações humanas costuma tornar tudo mais complicado. Faz com que a pessoa chegue a conclusões que não fazem sentido, dispense a ajuda que Deus manda e cometa outros erros sérios. Ela acaba tornando as coisas piores ainda.

Mas, há mais. A luta contra o medo também é dificultada pelas expectativas fora da realidade. Isto é, a pessoa espera coisas que não estão de acordo com a realidade e fica mais fácil amedrontá-la. Por exemplo, há crentes que acreditam firmemente que sua fé vai protegê-los de todo e qualquer problema. Pensam assim porque foram mal discipulados e/ou porque é mais confortável acreditar nesse tipo de fantasia. Essas pessoas esquecem o ensinamento de Jesus que teríamos aflições – lutas, dificuldades e sofrimento – ao viver neste mundo (João 16:33).

E a razão para esse ensinamento de Jesus é fácil de entender. Se você é um ser de recursos limitados, cuja vida vai terminar, cedo ou tarde, e vive num mundo onde há iniquidade, injustiças e maldades de toda sorte, não é difícil imaginar que algum dia a crise vai bater à sua porta.

A questão verdadeira, então, não é tentar se tornar imune a essas aflições e sim como melhor lidar com elas. Uma das reações mais comuns é a ansiedade. Lembro de uma amiga, crente, que tinha tudo que a vida poderia lhe oferecer – família linda, dinheiro farto, boa saúde e casamento estável. Certa vez, ela me confessou que vivia em suspense, esperando pelo dia em que o sofrimento iria mostrar sua cara. Ela não conseguia aproveitar bem o que tinha por causa do medo de perder alguma coisa.

Há também quem não se conforme em passar pelo sofrimento e fique acusando Deus de insensibilidade e falta de amor. Algumas pessoas até acabam brigando com Ele e se afastando, o que torna tudo pior. Afinal, não é possível enfrentar bem os problemas da vida sem a presença de Deus.

Finalmente, há ainda quem tente evitar o sofrimento tentando ter controle sobre tudo. Algumas pessoas montam esquemas elaborados para antecipar todos os problemas possíveis e imagináveis e pensam estar seguras. E isso é uma enorme ilusão, pois você tem bem pouco controle sobre aquilo acontece na sua vida, não importa o quanto se esforce – veja o que Jesus disse em Mateus 6:27:

Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?

 Tentar controlar tudo é como “correr atrás do vento”, expressão muito comum no livro do Eclesiastes. É algo sem propósito e só traz ansiedade e frustração. Isso não quer dizer que você não deva planejar suas inciativas e acompanhar os resultados que obtém – lembre-se da metáfora do sinal amarelo, que aponta para a necessidade de tomar precauções. Mas, não se iluda, essas precauções não vão lhe dar nunca o controle total e a segurança completa.

Concluindo essa anatomia do medo, é possível sim lidar adequadamente com ele e, inclusive, usá-lo de forma positiva, naquilo que ele tem de bom, ao mesmo tempo evitando seus muitos aspectos nocivos. E subjugar o medo envolve três coisas importantes. A primeira é exercitar a própria fé – manter a confiança em Deus em todos os momentos e circunstâncias. Sem isso não há como vencer esse desafio.

A segunda coisa importante é não deixar que a irracionalidade tome conta dos seus pensamentos e atitudes. Cuidado para não ficar meio cego/a quando amedrontado/a. É aí que você vai precisa mais da ajuda externa, de alguém com cabeça fria, para conseguir analisar a situação e tomar as decisões adequadas.

Finalmente, você precisa aprender a ajustar as próprias expectativas. Nunca se esqueça que a vida naturalmente gera ameaças e problemas. E também que a ansiedade nada acrescenta – ela é como uma cadeira de balanço, que gera movimento, mas não tira a pessoa do mesmo lugar. E ainda que a tentativa de controlar tudo é uma ilusão, pois o inesperado é parte da vida. Isso só vai gerar frustração.

Com carinho

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