A REVOLTA DO SALTO ALTO

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Você já ouviu falar da “revolta do salto alto”? Acredito que não. Mas esse tema tem estado em toda a mídia nos últimos dias. E acredito que ele possa trazer importantes lições para nossas vidas. 

Os principais eventos de cinema e televisão nos países de primeiro mundo costumam incluir um desfile no “tapete vermelho”: mulheres famosas, vestindo roupas e joias maravilhosas, andam por uma passarela e se deixam fotografar. No dia seguinte, a mídia comenta sobre quem estava bem ou mal vestida – é comum até haver listas das melhores e piores.

Desfiles no “tapete vermelho” geram muito dinheiro – o desfile duma mulher famosa num evento importante, como o Oscar, é suficiente para tornar famoso o costureiro que fez aquele vestido e garantir-lhe milhões de dólares de encomendas. E as mulheres também se beneficiam, pois alimentam a fantasia dos fãs ao parecerem lindas e glamorosas. 

A moda mostrada nesses eventos acaba tornando-se popular e sendo adotada por mulheres em todo mundo. Afinal, as mulheres que não vestem “aquilo que está na moda” acabam se sentindo mal no meio em que vivem – isso é muito fácil de comprovar: tente mandar uma jovem adolescente a uma festa com roupas fora de moda para ver como ela vai reagir mal…

As mulheres se deixaram escravizar pelos padrões da moda. E muitas vezes isso significa usar vestuário desconfortável. Um bom exemplo são os sapatos de salto muito alto, usados por muitas mulheres, inclusive para trabalhar, mesmo sendo muito desconfortáveis – outro dia vi num jornal a foto dos ferimentos nos pés de uma mulher obrigada a esse tipo de calçado no seu trabalho.

E por que isso acontece? Simplesmente porque as mulheres aceitam a imposição de padrões de estética e comportamento ditados por pessoas – estilistas, editores(as) de moda, etc – que se arrogam esse direito. São essas pessoas que ditam o que está na “moda” e o que todas as mulheres precisam usar. 

Recentemente, um grupo de mulheres começou a se revoltar contra esse estado de coisas. Dentre outras coisas, passou a defender que as mulheres tenham direito de calçar sapatos confortáveis. 

Em apoio a essas ideias, dias atrás, algumas artistas importantes – como Julia Roberts, famosa pelo filme “Uma linda mulher”, e Kristin Stewart, conhecida pela série “Eclipse” – apareceram descalças no “tapete vermelho” do festival de Cannes, a mais famosa mostra de cinema do mundo. Essa atitude foi apelidada na mídia de “a revolta do salto alto”.

São atitudes como essa que irão aos poucos libertar as mulheres da escravidão que hoje enfrentam em muitos aspectos da sua vida. E não é somente naquilo que se refere ao direito de usar sapatos confortáveis. Abrange também coisas como a exigência de ser magra… 

Agora, o que isso tudo tem a ver com a vida cristã? Muito. A coisa muito similar no cristianismo: alguns poucos líderes religiosos formulam ideias – o que pode ou não ser feito, como se relacionar com Deus, etc – que são absorvidas pelas pessoas a as escravizam. Quando essas ideias atingem certo grau de difusão, transformam-se no padrão de comportamento a ser seguido e as pessoas acabam sendo pressionadas a se comportar de acordo com elas.

E quem discorda delas, pode ser criticado, taxado de pecador(a), agente do Diabo ou coisa pior. Recebo inúmeros emails de pessoas que contam suas histórias e testemunham esse tipo de coação.

Um bom exemplo de “sapato alto” teológico, é a Teologia da Prosperidade. Essas ideias chegaram no Brasil na década de sessenta do século passado, com base nos livros escritos por alguns teólogos norte-americanos, como Kenneth Haggin. A tese defendida por esses líderes religiosos era que Deus prometeu a prosperidade para seus seguidores(as) fiéis. Mas para que as bençãos prometidas sejam manifestadas na vidas das pessoas, elas precisam dar provas da sua fé, principalmente doando generosamente para a obra de Deus.

Trata-se da armadilha teológica perfeita: se as pessoas ficam prósperas, isso se deve ao fato de terem seguido essas ideias. E se não ficam, a culpa é da própria pessoa, da sua falta de fé (não das ideias divulgadas).

Pessoas que frequentam as igrejas que seguem a Teologia da Prosperidade são pressionadas a dar para a obra de Deus – isso é repetido continuamente para elas. São expostas a constantes testemunhos de quem teria obtido enormes bençãos. E as pessoas acabam até doando aquilo que não podiam.

A Teologia da Prosperidade permitiu que muitos líderes cristãos construíssem verdadeiros impérios financeiros, com centenas de templos, empresas, etc. O meio evangélico, em boa parte, se transformou num “mercado da fé”. 

Mas não há absurdos só por conta da Teologia da Prosperidade. Há outras coisas igualmente terríveis: a ênfase excessiva na ação do Diabo, a banalização de milagres, a demonização de quem pensa diferente e assim por diante. Uma tristeza – muitas vezes não reconheço o cristianismo, que tanto amo e defendo, em certos vídeos que acesso na Internet.

Por que as pessoas aceitaram e continuam aceitando essas ideias? Por que deixaram que passassem a dominar suas vidas? Há várias razões para essa passividade e várias delas são bem parecidas com aquelas que fazem as mulheres aceitar a ditadura da moda.

Algumas das ideias defendidas – por exemplo, a prosperidade – agradam e fazem com que as pessoas se sintam bem em aceitá-las – no caso das mulheres em relação à moda, a ideia que agrada é a de ficar linda e desejável.

Outra razão para aceitação passiva de ideias teológicas tóxicas é a conformidade: as pessoas gostam de estar com a maioria. Não querem ser diferentes e têm medo de ser criticadas por pensar diferente – eu vivo essa experiência aqui, com frequência, porque algumas vezes fujo do padrão de ideias vigentes no meio evangélico. 

Dizer não, falar que não concorda com alguma, quando todo mundo parece pensar diferente, não fácil. É muito parecido ao que acontece com as mulheres em relação à moda: elas mulheres não querem ser diferentes, não querem se sentir estranhas – é por isso que são mulheres famosas, que não se preocupam tanto com isso, quem vem liderando a “revolta do salto alto”.

Outra razão é a acomodação: por falta de tempo ou compromisso em estudar a Bíblia, as pessoas preferem aceitar aquilo que já vem pronto, as ideias já feitas, especialmente quando a mensagem tem origem em alguém em quem confiam (como pastores famosos).

Resumindo,  a comunidade cristã, em muitos aspectos, precisa viver uma “revolta” santa, como a das mulheres que vem lutando contra o salto alto. É preciso libertar as pessoas de ideias que as escravizam. Simples assim.

Com carinho

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