A PERDA DA ESPERANÇA: O SENTIMENTO DE DESESPERO

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Recentemente li o relato sobre os últimos dias de vida de uma mulher idosa. No Dia de Ação de Graças, ela, em meio a seu desespero, disse para Deus que não tinha nada para agradecer. Era viúva, estava doente há vários anos, sua filha morrera relativamente jovem e os netos não lhe davam importância. As memórias de tempos melhores eram, para ela, como fantasmas, assombrando sua existência. Seu desespero era palpável, pois não tinha mais qualquer esperança.

Desespero: um sentimento passivo
Ciúme e desespero têm algo em comum: ambos partem da preocupação com a perda. Mas, o ciúme é ativo, já que a pessoa se vale desse sentimento para lutar contra a possibilidade de perda. Já o desespero é passivo: a pessoa aceita uma realidade que lhe parece terrível e deixa de lutar, depois de ver sua esperança destruída.

O desespero não costuma chegar na vida de uma pessoa de forma inesperada e direta. Os sentimentos da pessoa costumam passar por estágios, à medida em que ela, gradativamente, vai se dando conta da seriedade da sua situação. O processo começa com o desapontamento, passa pela tristeza, chega à depressão e acaba no desespero.

O desapontamento é um sentimento leve de frustração ou perda de alguma coisa – por exemplo, eu tenho o desapontamento de não ter desenvolvido meus dons musicais. Desapontamento é bastante comum e pode ser facilmente superado.

Já a tristeza costuma ter raízes mais profundas. Ela nasce num sentimento de vazio pela constatação que o mundo não é benigno e não vai atender todos os desejos da pessoa. A tristeza costuma estar ligada a alguma causa específica, como uma derrota séria, a perda de um ente querido ou o fim de um relacionamento amoroso sério. É costume que a tristeza faça a pessoa chorar. Mas, passado o luto, a tristeza acaba sendo controlada.

A depressão é muito mais séria e incapacitante. Trata-se de um estado mental que acaba se tornando permanente, se não for tratado. Ela costuma se manifestar através de sintomas como insônia, incapacidade de se concentrar e perda da energia vital. A depressão precisa ser tratada com ação em vários campos, inclusive através de remédios.

O fundo do poço, nessa progressão, é o desespero: a ausência total de esperança, acompanhada por sentimento esmagador de impotência e inutilidade da própria vida. O desespero leva à resignação com a própria sorte e frequentemente ao suicídio. Estão presentes no desespero todas as raízes da destruição: sentimento de abandono e perda, morte do desejo e desaparecimento da esperança. É um estágio muito sério que precisa de tratamento extremamente especializado em todos os campos da natureza humana. Não é fácil conseguir recuperar uma pessoa nesse estágio.

O desespero entre os crentes
Muita gente acha que o desespero não cabe na vida de um cristão verdadeiro. Para esse grupo de pessoas, se alguém está desesperado é porque não tem fé e/ou está em pecado grave. Mas, esse é um grande erro e tal tipo de diagnóstico só torna as coisas piores.

O desespero pode sim aparecer na vida de qualquer cristão. Li recentemente o depoimento de um norte-americano, homem profundamente evangélico e de grande fé. O desespero bateu à sua porta quando ele recebeu um telefonema da polícia, dizendo que sua filha querida tinha sido presa por roubo de uma loja. Ele correu para a delegacia, imaginando que tudo não passava de um engano terrível. Até que percebeu que a realidade era aquela mesma.

Quando a menina foi liberada pela polícia, pai e filha enfrentaram uma realidade devastadora: a adolescente seria processada criminalmente como adulta. O pai entrou em depressão e, à medida em que a situação legal da menina foi se agravando, o desespero chegou. Ele se deu conta que sua filha poderia acabar numa unidade prisional. Pela sua cabeça começaram a passar constantemente as coisas boas que a família tinha vivido junta, a presença da filha na igreja que frequentavam e todos os sonhos que ele e sua mulher tinham para a garota. O pai se sentiu vazio, perdido, experimentando um terrível sentimento de perda e sem esperanças.

Uma coisa boa que esse homem fez foi falar do seu sentimento. Afinal, não há porque o cristão se sentir diminuído ou tentar esconder seu sentimento por vergonha. Reconhecer a própria condição ajuda e, tanto é assim, que os Salmos estão recheados de relatos do desespero humano. E Deus nunca critica essas manifestações.

Alguns dos salmos mostram o sentimento de desespero sendo “domado” – os salmistas acabam se voltando para Deus e recuperam sua esperança e alegria de viver. Mas, nem sempre esse é o caso. Por exemplo, veja o Salmo 88, cujo autor é Hemã:

SENHOR Deus da minha salvação, diante de ti tenho clamado de dia e de noite. Chegue a minha oração perante a tua face, inclina os teus ouvidos ao meu clamor; Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura. Estou contado com aqueles que descem ao abismo; estou como homem sem forças, Livre entre os mortos, como os feridos de morte que jazem na sepultura, dos quais te não lembras mais, e estão cortados da tua mão. Puseste-me no abismo mais profundo, em trevas e nas profundezas. Sobre mim pesa o teu furor; tu me afligiste com todas as tuas ondas. Alongaste de mim os meus conhecidos, puseste-me em extrema abominação para com eles. Estou fechado, e não posso sair. A minha vista desmaia por causa da aflição. Senhor, tenho clamado a ti todo o dia, tenho estendido para ti as minhas mãos. Mostrarás, tu, maravilhas aos mortos, ou os mortos se levantarão e te louvarão? Será anunciada a tua benignidade na sepultura, ou a tua fidelidade na perdição? Saber-se-ão as tuas maravilhas nas trevas, e a tua justiça na terra do esquecimento? Eu, porém, Senhor, tenho clamado a ti, e de madrugada te esperará a minha oração. Senhor, porque rejeitas a minha alma? Por que escondes de mim a tua face? Estou aflito, e prestes tenho estado a morrer desde a minha mocidade; enquanto sofro os teus terrores, estou perturbado. A tua ardente indignação sobre mim vai passando; os teus terrores me têm retalhado. Eles me rodeiam todo o dia como água; eles juntos me sitiam. Desviaste para longe de mim amigos e companheiros, e os meus companheiros sãos as trevas.

Esse é considerado o salmo mais desesperado da Bíblia – a agonia do escritor pode ser percebida em todo o texto. O único fio de esperança que ainda permanece é o fato do autor se importar de levar seu lamento até Deus. As frases finais da poesia mostram que Hemã está perto da destruição emocional.

Quando o desespero chega…
É a esperança que nos faz tocar a vida, mesmo em meio a grandes dificuldades – eu tenho experiência pessoal disso. A esperança atesta que um dia a dor vai passar, as dificuldades serão resolvidas e será possível voltar a sentir prazer na vida. A esperança é a antecipação que os desejos do presente serão satisfeitos no futuro. Mas, quando a esperança é estilhaçada o sofrimento torna-se enorme. E é isso que o livro de Provérbios atesta: A esperança adiada desfalece o coração, mas o desejo atendido é árvore de vida. Provérbios 13:12

Mas, quando há um ciclo de frustrações, gerado por decepções contínuas e muitas vezes crescentes, onde seguidamente a esperança renasce e é de novo estilhaçada, a esperança pode morrer definitivamente. A pessoa passa a pensar que é melhor não esperar mais nada para não voltar a se decepcionar. Aí chega o desespero.

A perda costuma levar à solidão – é como a pessoa escapasse em direção ao isolamento. E ela pode se isolar até daqueles que mais têm significado na sua vida. E sem relacionamentos humanos o mundo parece perigoso, frio e sem qualquer sentido. O desespero se agrava.

Sem esperança e isolada de tudo e todos, a pessoa passa a se comportar como uma morta-viva. Funciona como se fosse um robô, quando funciona.

O que fazer?
Vivemos num mundo onde o pecado se faz presente, onde muitas das expectativas das pessoas nunca serão preenchidas, onde as perdas e frustrações são reais. E é sobre isso que a Bíblia fala nos três primeiros capítulos do Gênesis. Deus criou um mundo bom e projetou as relações humanas para serem criativas e realizadoras, mas o pecado apareceu e gerou uma série de problemas, principalmente a alienação das relações humanas e da relação com Deus.

Mas, há motivo para ter esperança, afinal, a Bíblia não termina no capítulo 3 de Gênesis. O restante do texto bíblico fala justamente do envolvimento de Deus na história visando resgatar o ser humano e endireitar as coisas. É por isso que o desespero não é a resposta final para a condição humana. Nesse sentido, o ensinamento da Bíblia contraria radicalmente o existencialismo, filosofia muito famosa nos anos 60, que defende ser o suicídio a única resposta lógica para o desespero provocado por um mundo sem sentido. Para o cristão, o mundo tem sentido sim e esse sentido é dado por Deus.

O Salmo 88 precisa ser olhado não como um desabafo sem esperança e sim como um exemplo forte de como podemos ter uma conversa franca e difícil com Deus. Essa conversa vai ficar turbulenta, em certos momentos, pois isso é da natureza do processo, mas é ela que vai gerar respostas em meio ao sofrimento. O salmista, mesmo em meio a seu grande desespero, ensinou que precisamos nos abrir com Deus. Essa é a boa nova dos Salmos!

O que fazer, então, quando o desespero chega? Há muito que pode ser feito. Primeiro, reconhecer a crise à sua frente e entender que você não é pior do que ninguém por estar passando por esse tipo de dificuldade – muitos cristãos já se sentiram assim.

Segundo, buscar ajuda tanto de irmãos na fé, como de profissionais de saúde, pois o isolamento não é uma resposta adequada. E o desespero não é uma condição da qual alguém consegue sair sozinho. Portanto, tentar ficar “quieto no seu canto” é quase uma sentença de morte.

Terceiro, falar com Deus abertamente e abrir seu coração para Ele, como o salmista fez. E lembre-se que brigar com Deus e abandoná-lo não resolve nada. A vida sem Deus não tem qualquer sentido ou garantia, e essa é uma verdade da qual não se pode escapar.

Finalmente, com ajuda externa – irmãos na fé e profissionais de saúde -, trabalhar para reconstruir a própria esperança e ir saindo aos poucos do desespero avassalador. E, nesse processo, leve em conta que só Deus pode ancorar uma esperança real e duradoura, que transcenda às circunstâncias da vida.

E é por ter entendido isso que o profeta conseguiu dizer:

Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha força, e fará os meus pés como os das cervas, e me fará andar sobre as minhas alturas. Habacuque 3:17-19

PS Veja mais sobre esse tema aqui.

Com carinho

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