A IRA NÃO JUSTIFICADA

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A ira é sempre um pecado? Talvez você se surpreenda em saber que não. Somente a ira não justificada é pecado. Veja o que Paulo ensinou a esse respeito em Efésios 4:26:

Quando vocês ficarem irados, não pequem. Apaziguem a sua ira antes que o sol se ponha, e não deem lugar ao diabo.

Fica claro pelo texto acima que é possível ter ira, e ainda assim não pecar. Isso porque o pecado não está no sentimento em si e sim naquilo que motiva a ira e nas ações que a pessoa toma a partir dela.

É possível sim haver situações em que a pessoa fique irada, mas não peque, tanto porque o motivo da sua ira é justo aos olhos de Deus, como também porque as ações decorrentes desse sentimento não violam os mandamentos divinos. Um bom exemplo de ira justificada é quando uma pessoa fica fortemente incomodada por conta de uma grave injustiça social e atua para minorar esse mal. Em situações desse tipo, a ira até aproxima a pessoa de Deus e podemos, portanto, dizer que ela é boa.

Não vamos tratar aqui da ira justificada aos olhos de Deus, pois isso vai ser feito em outra oportunidade. Vamos nos concentrar na situação bem mais comum da ira não justificada, que normalmente leva a pessoa ao pecado. 

A origem da ira não justificada
Esse tipo de sentimento costuma ser a resposta da pessoa ao que ela entender ser uma transgressão aos seus “direitos”. Esses “direitos” podem ser reais, ou apenas imaginados. E a transgressão não precisa se materializar, podendo ficar apenas no campo da fantasia (a pessoa acha que sofreu um ataque, quando de fato nada ocorreu).

Vamos ver um exemplo simples. Imagine que alguém tenha um compromisso importante, mas saiu de casa atrasada para esse encontro. E a pessoa vai tentando chegar ao local do encontro a tempo, dirigindo em meio a um trânsito pesado. E o trânsito parece conspirar contra o desejo da pessoa e ela vai se atrasando mais e mais.

E, de repente, a ira chega, passando a ser dirigida a qualquer outro motorista que pareça estar atrapalhando. A pessoa atrasada detesta o sentimento de impotência que está sentindo, ao ficar retida no trânsito congestionado, sem ter como sair da armadilha onde se meteu. E a ira se torna uma válvula de escape – os outros motoristas passam a ser culpados por não “colaborarem”.

A pessoa atrasada acha que tem o “direito” de ter caminho livre e imagina que seu “direito” está sendo transgredido por outros motoristas. E aí, normalmente, bate a raiva, que se materializa em xingamentos e direção agressiva.

Quanto maior a frustração e a sensação de injustiça sendo sofrida, mais virulenta será a resposta e maior será a raiva.

Os problemas com a ira não justificada
São dois os problemas relacionados com a ira não justificada. Um deles é que a ira se dá pelas razões erradas. Por exemplo, a pessoa está atrasada por culpa dela mesma (saiu atrasada e não levou o trânsito em conta), mas acaba se irando contra terceiros. Outro exemplo interessante é quando a pessoa se ira porque não recebeu determinada promoção, à qual julgava ter direito, sem nem procurar saber as razões para a decisão da direção da empresa. Ainda um outro bom exemplo ocorre quando a pessoa recebe uma crítica justa, mas dolorosa, e se ira contra quem a criticou, acusando quem fez isso de agressivo, mal-educado ou intolerante.
O outro problema decorrente da ira injustificada é que ela costuma ser dirigida contra as pessoas erradas. Veja o que disse Davi no Salmo 109:1-13:

Ó Deus, a quem louvo, não fiques indiferente, pois homens ímpios e falsos dizem calúnias contra mim, e falam mentiras a meu respeito. Eles me cercaram com palavras carregadas de ódio; atacaram-me sem motivo. Em troca da minha amizade eles me acusam, mas eu permaneço em oração. Retribuem-me o bem com o mal, e a minha amizade com ódio. Designe-se um ímpio como seu oponente; à sua direita esteja um acusador. Seja declarado culpado no julgamento, e que até a sua oração seja considerada pecado. Seja a sua vida curta, e outro ocupe o seu lugar. Fiquem órfãos os seus filhos e a sua esposa, viúva. Vivam os seus filhos vagando como mendigos, e saiam rebuscando o pão longe de suas casas em ruínas. Que um credor se aposse de todos os seus bens, e estranhos saqueiem o fruto do seu trabalho. Que ninguém o trate com bondade nem tenha misericórdia dos seus filhos órfãos. Sejam exterminados os seus descendentes e desapareçam os seus nomes na geração seguinte.

Davi estava irado, e acredito até que tivesse uma boa razão para se sentir assim. Mas, ele não justificativa para dirigir sua raiva para as famílias das pessoas que eventualmente lhe fizeram mal. Os familiares não tinham qualquer culpa.

E esse não é o único caso em que os Salmos registram acessos de ira não justificada. O grande escritor cristão C. S. Lewis observou, com muita razão, que os textos dos Salmos frequentemente não refletem as virtudes cristãs, e sim a cultura do “olho por olho”, típica do Velho Testamento.

A ira não justificada, tanto por não ter base sólida, como por se dirigir ao objeto errado, acaba sendo feia, destruidora e vingativa. 

Causas da ira não justificada
Há duas causas mais comuns para esse tipo de ira. A primeira delas é o desejo de ter agora um mundo melhor e mais tolerável. A pessoa se irrita quando percebe não ter controle sobre as coisas, pessoas e circunstâncias da sua vida. 

Saul era o rei de Israel, mas não cabia a ele conduzir sacrifícios e outras ministrações junto a Deus, ministério reservado ao profeta Samuel. Certa vez, Saul viu-se na contingência de aguardar Samuel e acabou ficando irado por causa disso (1 Samuel 13:8-14):

Ele esperou sete dias, o prazo estabelecido por Samuel; mas este não chegou a Gilgal, e os soldados de Saul começaram a se dispersar. Então ele ordenou: “Tragam-me o holocausto e os sacrifícios de comunhão”. Saul ofereceu então o holocausto, e quando ele terminou de oferecê-lo, Samuel chegou, e Saul foi saudá-lo. E perguntou-lhe Samuel: “O que você fez? ” Saul respondeu: “Quando vi que os soldados estavam se dispersando e que você não tinha chegado no prazo estabelecido e que os filisteus estavam reunidos em Micmás, pensei: ‘Agora, os filisteus me atacarão em Gilgal, e eu não busquei o Senhor’. Por isso senti-me obrigado a oferecer o holocausto”. Disse Samuel: “Você agiu como tolo, desobedecendo ao mandamento que o Senhor seu Deus lhe deu; se você tivesse obedecido, ele teria estabelecido para sempre o seu reinado sobre Israel. Mas agora seu reinado não permanecerá; o Senhor procurou um homem segundo o seu coração e o designou líder de seu povo, pois você não obedeceu ao mandamento do Senhor”.

A pessoa sente não ter a autonomia na sua vida que gostaria de gozar e não se conforma com isso. Revolta-se e quer, a todo custo, fazer algo para ganhar controle da situação. 

A outra causa comum para a ira não justificada é a frustração do desejo de conseguir algo importante, ou mesmo o risco de perder algo de valor. Nesses casos, a pessoa afetada se acha com toda a razão do mundo para ficar irada, afinal está defendendo seu direito. E vale até o uso da violência.
Por exemplo, a criança pequena vê seu amiguinho tentando brincar com o velocípede que ela acabou de ganhar no Natal. E, mesmo quando não está usando o novo brinquedo, ela fica enraivecida com o amiguinho, pois o percebe como um rival que ameaça seu direito de posse.
A Bíblia tem um exemplo muito chocante desse tipo de situação. Caim estava obcecado em obter o favor de Deus e se enraiveceu quando percebeu que a mão divina favorecera Abel, seu irmão. E matou o irmão por causa disso (Gênesis 4:3-8):

Passado algum tempo, Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe as partes gordas das primeiras crias do seu rebanho. O Senhor aceitou com agrado Abel e sua oferta, mas não aceitou Caim e sua oferta. Por isso Caim se enfureceu e o seu rosto se transtornou. O Senhor disse a Caim: “Por que você está furioso? Por que se transtornou o seu rosto? Se você fizer o bem, não será aceito? Mas se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo”. Disse, porém, Caim a seu irmão Abel: “Vamos para o campo”. Quando estavam lá, Caim atacou seu irmão Abel e o matou.

A doutrina cristã ensina que tal sentimento desmedido de posse é fruto do vazio da alma humana, que aparece quando a pessoa está distante de Deus. A pessoa sente o vazio e quer, a todo custo, preenchê-lo. E pensa que vai conseguir fazer isso por meio da posse de coisas e/ou pessoas.

É fácil para quem se sente assim achar que Deus é injusto. Afinal, há gente no mundo mais bonita, com mais riquezas, com sucesso maior e com realizações mais expressivas. É fácil a pessoa achar que merece mais do aquilo que já tem. 

Na verdade, ambos os casos são formas de revolta contra Deus, como Criador e Mantenedor do universo. As pessoas se iram porque querem ter uma autonomia que Deus não lhes franqueou ou porque se sentem injustiçadas por Deus. E a ira injustificada vira um “martelo” que a pessoa usa para tentar romper as cadeias daquilo que lhe parece ser uma servidão. Por isso a ira injustificada afasta a pessoa de Deus. Por isso ela vira pecado.

A ira não justificada nunca produz a justiça e ela tende a fazer com que a pessoa se afaste de Deus, portanto é preciso ter muito cuidado com ela. É  esse o ensinamento de Tiago 1:19-20:

Meus amados irmãos, tenham isto em mente: Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, pois a ira do homem não produz a justiça de Deus.

Concluindo, é preciso ainda comentar sobre a resposta que Deus deu à ira humana. E ela é surpreendente. Deus não faz valer sua soberania e seu poder incontestável. Sua resposta não é calar à força a ira humana, por mais surpreendente que isso seja.
Deus responde nos dando Jesus, que abre o caminho para que possamos reconstruir nossa relação com Ele. Jesus é o único remédio efetivo contra a ira humana sem justificativa.

Com carinho

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